Sonhos de criança ou sonhos de consumo: qual transformará o mundo?

Na busca incessante pelo desenvolvimento das cidades, das indústrias, dos meios de transporte e de comunicação, nos afastamos da natureza, de seus ciclos e de seus ensinamentos, e passamos a concebê-la como objeto de contemplação, como algo distante, que está fora de nós: motivo que ocasiona as tantas angústias da vida moderna.

Entregues aos espetáculos midiáticos concebidos por nós mesmos, enclausurados dentro dos impérios de consumo que construímos na busca pelo prazer e bombardeados por estímulos externos, nos descobrimos vazios e confusos. Então, chega a publicidade, motor das sociedades capitalistas, e nos avisa: para todo e qualquer vazio humano, existe uma promessa, ou ainda, um produto.

E, assim, o ciclo do consumismo, caracterizado pela sua insaciabilidade, se estabelece como regulador das relações humanas. Um ciclo que, além de produzir lixo em abundância, produz identidades e subjetividades alinhadas à lógica da comercialização e tenta nos convencer que somos humanos na medida em que consumimos.

Como participantes desta dinâmica, precisamos criticar tal discurso: “ser humano” não está (ou não deveria estar) atrelado à possibilidade de consumir determinados produtos e serviços. Nossa humanidade, na verdade, está ferida por tudo isso.

Ute Craemer, fundadora da Associação Comunitária Monte Azul e conselheira do programa Território do Brincar, diz que somos humanos na medida em que criamos de dentro para fora. E afirma que o início dessas criações é o brincar. Ela nos lembra que, ao reduzir ou impedir o brincar livre e espontâneo (que se dá, sobretudo, em espaços abertos e em contato com a natureza), reduzimos o potencial que as pessoas têm para se tornar cada vez mais humanas.

Acontece que a vida moderna é organizada entre paredes. Priorizam-se espaços fechados, homogêneos e inférteis às experiências humanas. O economista Ladislau Dowbor, em artigo publicado no livro que celebra os 10 anos do programa Criança e Consumo, do Alana, apresenta uma explicação bastante razoável para isso: bens como árvores, pátios abertos, espaços livres de convívio, ruas tranquilas não se vendem e, portanto, não interessam aos agentes comerciais.

Bens que são essenciais para a felicidade infantil, portanto, não provocam o lucro e, por isso, são descartados e substituídos por espaços em que a comercialização é possível, como shoppings, buffets infantis, parques temáticos, entre outros.

Não parece justo permitirmos que a lógica econômica prive as crianças de conhecerem e de viverem o mundo em sua plenitude. Os espaços livres e abertos precisam ser garantidos a elas, para que possam descobrir-se inteiramente, para que não aceitem serem concebidas, desde cedo, como meras consumidoras.

A revolução, acredito, vem pelas crianças: crianças que pisam na grama, que escalam árvores, que nadam nos rios, no mar, que cuidam das plantas e dos bichos, que brincam com outras crianças, que participam da vida comunitária, que se frustram e descobrem que viver é um desafio a ser vencido diariamente, que dialogam com as diferenças e que montam e desmontam o mundo livremente, a partir de seu imaginário. Todas essas experiências são ferramentas potentes para transformar realidades, pois dão às crianças a dimensão de que viver está para além do que o sistema dominante apresenta como verdade.

No livro Diálogos com Escolas. publicado pelo programa Território do Brincar, o pesquisador Gandhy Piorski afirma que a criança “aprende mais fundo quando luta por meio da prática alcançada”. Ou seja, crianças que transformam o mundo a partir das próprias mãos conhecem e valorizam os percalços e as riquezas do caminho e têm a possibilidade de explorar seu potencial criador.

Se garantirmos, a todas as crianças, o brincar livre e espontâneo, abriremos espaço para uma sociedade de sujeitos criativos, que saberão ousar, criticar, reconstruir e descobrir formas inéditas de se viver.

Ilustração: Eugene Frost/Pixabay

Comunicóloga e especialista em Infância, Educação e Desenvolvimento Social. É mestranda em ciências da comunicação pela ESPM-SP – onde estuda processos de celebrização e consumo nos circuitos de festas infantis – editora do blog Além dos Muros da Escola e integrante da equipe de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana

Carolina Prestes

Comunicóloga e especialista em Infância, Educação e Desenvolvimento Social. É mestranda em ciências da comunicação pela ESPM-SP - onde estuda processos de celebrização e consumo nos circuitos de festas infantis - editora do blog Além dos Muros da Escola e integrante da equipe de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana

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