‘Menos preconceito, mais índio’: campanha do Instituto Socioambiental expõe racismo contra povos indígenas


Por que é tão difícil para boa parte dos brasileiros tratar os indígenas com respeito, generosidade e sem preconceito? Reconhecer que eles são os verdadeiros donos e cuidadores desta terra? E por que muita gente os critica por incorporarem hábitos e tecnologias que não são de sua essência? Por usarem GPS, celular, computador? Por não viverem de tanga, cocar e pintados o tempo inteiro?

Aderir a hábitos e práticas não-indígenas não os torna menos índios! Não justifica atos de racismo ou preconceito, nem significa o fim de sua identidade. É o que defende a primeira campanha do Instituto Socioambiental (ISA) – uma das principais organizações ambientalistas e indigenistas do Brasil – para TV, internet e cinema: Menos Preconceito, Mais Índio.

A campanha é um convite para que todos olhem para os índios com empatia, com compaixão, com amor, com respeito, sempre. Para que todos reconheçam neles a origem de tudo nesta terra. E também entendam que, mesmo incorporando alguns de nossos hábitos – que os ajudam a compreender ‘nosso mundo’, a se comunicar melhor e a não ficarem tão vulneráveis – eles continuam sendo índios, como destaca André Villas-Boas, secretário-executivo do ISA: “Os índios, como cada um de nós, são donos de suas identidades e incorporam o que acham importante do mundo que os rodeia, sem deixar de ser índios”.

Manter seus costumes e tradições e passa-los adiante é imprescindível para a manutenção de sua cultura, mas não precisam ficar parados no tempo. E mais: isso também não garantiria respeito, nem sua sobrevivência, como temos visto ao longo da história.

No vídeo da campanha – filmado em uma comunidade dos índios Baniwa, no Alto Rio Negro e que você pode assistir no final deste post -, Mario, um velho líder exemplifica bem essa ideia: “Somos os Baniwa, vivemos no Alto Rio Negro, Amazônia. Andamos pelados. Nosso único esporte é caçar. Não temos pátria nem religião. Comemos com as mãos e cortamos o cabelo sempre igual…”. E continua: “Isso, pelo menos, em 1.500. De lá para cá, tudo mudou. E, se mesmo assim, você continua a ser ‘homem branco’. Por que nós não podemos continuar a ser índios?”.

Este é um grande desafio pra todos nós e principalmente para os mais de 250 povos indígenas que vivem no Brasil. “Estamos felizes de poder ajudar a combater o preconceito que sofremos e que sabemos que parentes nossos em várias partes do país também sofrem, muitas vezes com violência”, diz André Baniwa, uma das principais lideranças da etnia que protagoniza a campanha. Beto Ricardo, coordenador do Programa Rio Negro, do ISA, justifica a escolha: “Diante de séculos de contato com os brancos, os Baniwa são um exemplo de resistência cultural”.

Estereótipo define direitos?

Foi por conta da iniciativa Planning4Good – coletivo de planejadores, criativos e outros profissionais que ajudam organizações sem fins lucrativos a resolver questões estratégicas ou elaborar campanhas – da qual faz parte o presidente do Conselho Diretor do ISA, Jurandir Craveiro – que surgiu a ideia da campanha Menos Preconceito, Mais Índio: “O insight do preconceito expõe uma questão pouco admitida no Brasil, que é o racismo contra os índios”, salienta ele.

“Parte da população criou no imaginário – com a ajuda de livros escolares, inclusive – a figura do índio ‘puro’, o índio mais índio do que os outros, como se aqueles que fugissem desse estereótipo não merecessem ter seus direitos garantidos”, completa Mariana Borga, diretora de criação da J. Walter Thompson, agência de publicidade parceira do ISA e responsável pela campanha. “Queremos quebrar esse preconceito”.

Do entendimento e da aceitação destes povos originais é que pode nascer um movimento capaz de protegê-los e de impedir que os avanços sem limites do agronegócio e dos setores de mineração e madeireiro risquem estes povos da nossa história.

A campanha é bárbara e está repercutindo. Veja quem mais escreveu sobre ela:
Marcelo Leite: Quem quer e quem pode ser índio no Brasil 
Blog do Juca: Menos Preconceito, Mais Índio: campanha do Instituto Socioambiental
Mônica Bergamo: Campanha quer mostrar que índio é índio, mesmo se acessar a internet 

E, agora, assista ao vídeo da campanha e espalhe pelas redes com a hashtag #MenosPreconceitoMaisÍndio. E acompanhe o Instituto Socioambiental: Facebook, Twitter e Instagram.

Fotos: Daniel Klajmic/Reprodução vídeo

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “‘Menos preconceito, mais índio’: campanha do Instituto Socioambiental expõe racismo contra povos indígenas

  • 1 de maio de 2017 em 8:25 PM
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    Gostei do blog. Vejam esse vídeo onde Eliane Maciel (Aline) agradece aos índios e analisa o momento atual em que o mundo vive!

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