Lembro que uma das coisas que eu mais gostava quando eu visitava meus primos durante minha infância era brincar na rua. Eu vivia em um prédio na região central de São Paulo e meus primos moravam em bairros mais periféricos da cidade. Lembro que a gente brincava de “rio vermelho”, “mãe da rua”, esconde-esconde, carrinho de rolimã e, quando chovia, nos colocávamos embaixo da saída das calhas do telhado para tomar banho de “cachoeira”.
Talvez essas lembranças do que vivemos na infância gravem marcas em camadas profundas da gente, que ficam pulsando devagarinho em nosso presente e, de repente, transbordam em motivações para realizarmos algo. Acho que foi um pouco isso que aconteceu comigo.
Quando tive minhas filhas fomos morar em um bairro de ruas tranquilas e arborizadas no Butantã. Era o lugar ideal para proporcionar às meninas aquilo que tive em doses pequenas na infância. Entretanto, havia uma novidade, que talvez não fosse tão presente quando eu era pequena: a cultura do medo. Assim, naquele bairro tão calmo e propício a brincadeiras, quase nunca havia crianças brincando na rua. Menos ainda depois de diversas ondas de assaltos.
Tenho sorte de morar num bairro com uma associação (Associação Amigos do Parque da Previdência) atuante e muitos vizinhos engajados, no entanto, via que as conversas entre alguns giravam mais em torno em como tornar nosso bairro mais seguro: instalamos câmeras de segurança? Contratamos serviços de segurança particular? Rondas? E enquanto isso as pessoas iam fechando-se em suas casas, as ruas ficavam cada vez mais vazias e qualquer um que estivesse na rua ficava vulnerável.
Minha impressão era a de que deveríamos fazer o contrário: que quanto mais ocupássemos a rua, mais seguro ficaria nosso bairro. Percebi que essa sensação de medo também estava presente em nossa família, criando marcas na memória de minhas filhas, e foi aí que me encorajei para agir: “vamos ocupar a rua para as crianças brincarem, não quero mais que sejam essas as lembranças que elas guardem do nosso tão querido bairro”.
E foi assim que comecei a organizar esse dia de brincadeira de criança no meu bairro, brincando com a ideia de que, se antigamente os pais e mães gritavam aos filhos: “Já para casa!”, hoje deveríamos falar para as crianças: Já pra Rua!. A adesão das pessoas do bairro foi total. Organizamos um piquenique coletivo, controlamos o trânsito para chamar a atenção dos motoristas quanto à presença de crianças e deixamos disponíveis: giz para amarelinha, cordas para bater, elástico para pular e um jogo de taco. Quando a gente vive momentos como esse, que ficam guardados em nossa memória, a gente se sente pertencendo a um lugar e consequentemente quer cuidar daquilo que sente que é nosso. Não deveríamos nos sentir assim com todos os lugares públicos das cidades?
Henrique Peñalosa (prefeito de Bogotá, Colômbia, entre 1998 e 2001, reeleito em 2015 para mandato até 2019) defende que a criança é como um indicador para a cidade, ou seja: se uma cidade está boa para a criança, estará boa para todos. Nessa perspectiva, as cidades precisam ser lugares seguros e com espaços ao ar livre (como ruas, praças e parques) para que as crianças possam brincar com liberdade.
O educador mineiro Tião Rocha já é conhecido por dizer que não gostaria de tirar as crianças da rua, mas que deveríamos devolver a rua às crianças. O Instituto Alana, por meio do Programa Prioridade Absoluta, tem estimulado a garantia dos direitos que constam na Constituição Brasileira, que assegura, com absoluta prioridade às crianças, adolescentes e jovens, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer e à liberdade, entre outros direitos fundamentais.
Nessa perspectiva, o programa tem estimulado a criação de Ruas de Lazer, por meio de uma lei que permite o fechamento de ruas para o lazer a partir da mobilização e coleta de assinaturas dos moradores de um bairro. Este pode ser um mote para que ações como estas se multipliquem pela nossa cidade deixando-a muito melhor para todos, não acham?
Foto: Paula Mendonça