Mesmo que você não tenha um filho, não terá dificuldade nenhuma em distinguir a seção de roupas infantis nas lojas: de um lado estarão as araras e prateleiras com vestidos, saias, camisetas e leggings rosas e de outro, calças, shorts e blusas azuis. A separação está clara: no universo da moda infantil, menina veste rosa e menino azul.
É difícil saber quando a publicidade, os estilistas ou mesmo a sociedade decidiu que deveria ser assim. E nas últimas décadas, simplesmente engolimos essa ditadura. E para piorar, não bastasse a segregação da infância por cores, há também o que meninos e meninas “gostam de brincar e sonham ser no futuro”.
Nas lojas de brinquedos, invariavelmente, na seção dos meninos estão expostos carrinhos, caminhões, tratores, bolas de futebol, ferramentas, microscópios e blocos de montar. Já para as garotas, a opção é bonecas, panelinhas, fogões (e um número sem fim de eletrodomésticos em tamanho miniatura), kits de costura e maquiagem. As fantasias de carnaval para os meninos são de super-heróis e médicos, para elas, princesas e enfermeiras.
O que pode parecer bobagem é, na verdade, tema de debate seríssimo entre especialistas e educadores internacionais. Brincar com bonecas e utensílios de cozinha ajuda a criança a aprender a sequência cognitica de eventos, ou seja, que tudo deve ser feito em uma certa ordem. Já blocos de montar ensinam noção espacial, uma das bases para o aprendizado da matemática.
Estamos então definindo o futuro das crianças ao escolher com que cor elas se vestem e como elas brincam? De certa maneira, sim, estamos!
Recentemente a marca Gap esteve no centro de uma grande polêmica quando mostrou um anúncio em que um menino vestia uma camiseta com a foto de Albert Einstein com o título “The Little Scholar – Your future starts here” (O Pequeno Estudioso – Seu futuro começa aqui, em inglês) ao lado de uma menina com a frase “The Social Butterfly – The talk of the playground” (A Borboleta da Sociedade – O assunto do parquinho).
Segundo a Gap, o menino é um pequeno “Einstein” e a menina uma “social butterfly”
A propaganda, para se dizer, no mínimo, infeliz, gerou revolta nas redes sociais. Foi considerada sexista. Meninos são inteligentes e meninas … fúteis?
Felizmente, e esta é a boa notícia deste post, tem ficado cada vez mais forte um movimento mundial para acabar com os estereótipos na infância. Alguns fabricantes de brinquedos finalmente se deram conta de que meninos e meninas podem compartilhar dos mesmos gostos. Que elas, por exemplo, podem se imaginar astronautas voando pelo espaço.
Nos Estados Unidos, as bonecas Lottie têm sido uma das pioneiras a oferecer um novo universo de possibilidades para as meninas. Concebidas para serem um exemplo positivo e de estímulo à imaginação – “empoderamento da infância”, segundo a empresa -, elas não têm vestidos de festa, presilha na cabeça ou um carrinho de bebê. Não usam maquiagem, joias ou salto alto. Mas podem ser encontradas em modelos como a da Lottie astronauta, que vem com telescópio, tripé e um folheto com o nome das grandes mulheres da astronomia, a Lottie arqueologista e sua maleta com lupa e fósseis ou ainda, a lutadora de karatê ou a jogadora de futebol.
A boneca Lottie, em aventura numa excavação arqueológica
A Lego também se deu conta do sexismo há alguns anos. Até 2011, 90% dos consumidores dos bloquinhos de montar eram meninos. Então a empresa dinamarquesa acordou para a realidade e decidiu investir numa série para meninas, chamada Lego Friends. Foi um sucesso estrondoso!
A menina cientista da Lego, em seu laboratório de matemática e robótica
Esse movimento que quer acabar com o sexismo e o estereótipo no mercado de brinquedos e da moda é conhecido como STEM. A sigla representa as iniciais em inglês de quatro carreiras profissionais conhecidas por terem poucas mulheres: Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Nos Estados Unidos, estima-se que 84% das posições nestas áreas são ocupadas por homens.
No mundo todo, 86% dos engenheiros são homens. Isso significa que eles são melhores neste setor e que as mulheres não gostam desta área? Não! Significa que desde muito cedo, meninas são desencorajadas a investir em carreiras como esta. E como resultado, a perspectiva feminina nunca é levada em conta em estudos e desenvolvimento de novas tecnologias.
Estudos revelam que aos 3 ou 4 anos de idade, as crianças começam a formar sua identidade e neste momento, estabelecem em sua mente o que é “apropriado” para meninos e meninas. Então, o quanto mais cedo conseguirmos derrubar estereótipos, melhor.
Outra fabricante de brinquedos americana, que defende o fim do sexismo, é a Goldie Blox. Criada por Debbie Sterling, uma engenheira mulher, a marca estimula o raciocínio rápido e a criatividade das meninas. Antes de sua marca se tornar um imenso sucesso nos Estados Unidos, ela ouviu o seguinte comentários de profissionais de marketing “peças de montar e de engenharia não funcionam com meninas”.
Puro engano. Atualmente a Goldie Blox é uma das marcas mais vendidas em lojas como Amazon e Toys”r”Us.
Fotos: divulgação Lottie, Lego, Goldie Blox e Gap