Foram três dias de pré-festa. O casamento de Anant Ambani, filho do homem mais rico da Índia e dono de uma das maiores fortunas do mundo, só acontecerá em julho, mas no último final de semana a família organizou um evento de dimensões iguais aos fundos de investimento do patriarca para fazer uma “pré-celebração”.
Anant, de 28 anos, é o caçula de Mukesh Ambani, CEO da Reliance Industries, que opera em áreas tão distintas como petroquímica, varejo, indústria têxtil e entretenimento – acaba de fechar uma parceria com a Disney. Para a tal pré-festa do filho mais novo, que casará com Radhika Merchant, herdeira do fundador de uma multinacional farmacêutica, foi organizada uma lista com cerca de 2 mil convidados, que incluía, muitos bilionários, obviamente, além de celebridades de Bollywood e nomes como Mark Zuckerberg, Ivanka Trump, Bill Gates, o rei e a rainha do Butão e o primeiro-ministro do Catar. A cantora Rihana foi a responsável pelo show principal para o seleto grupo.
Todos voaram até Jamnagar, na província de Gujarat, em seus jatos particulares. Tudo muito sustentável! Antes da festa, os convidados receberam instruções para o final de semana de celebrações: a cada dia havia um tema especial e eles deveriam se vestir de acordo, entretanto, um exército de designers, maquiadoras e cabeleireiras estava à disposição de todos no hotel.
Anant Ambani, ao centro, ao lado da cantora Rihana e a noiva, à esquerda
(Foto: reprodução Instagram Anant Ambani)
Jamnagar é a cidade natal da família Ambani, sede de uma das petroquímicas da Reliance e também, onde está sendo construído Vantara, o maior zoológico do mundo, projeto administrado por Anant. No sábado os convidados foram instruídos a se vestir em estilo “safari” para fazer uma visita inaugural ao local, todavia, apenas com “propósito educacional”.
Mark Zuckerberg e Bill Gates estavam entre os 2 mil convidados da pré-festa que durou três dias
(Foto: reprodução Instagram Anant Ambani)
Vantara é o zoológico para o qual no ano passado foram enviadas 30 araras brasileiras – 24 ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) e quatro araras-azuis-de-lear (Anodorhynchus leari) – espécies endêmicas do Brasil, ou seja, que só existem em nosso país e em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, uma delas existia. A ararinha-azul foi extinta na natureza e atualmente há um programa de reintrodução dela na Bahia. Já a de-lear é considerada em perigo de extinção.
O envio das araras para o zoológico pegou o Ministério do Meio Ambiente de surpresa. As aves foram repassadas para a Índia pela Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), um criadouro que é parceiro do governo brasileiro no programa de reprodução em cativeiro e reintrodução da ararinha-azul. Acontece que o Brasil não foi consultado sobre a transferência – mesmo as araras não tendo nascido no país – e afirmou que não reconhecia a parceria entre a ACTP e instituição da família Ambani.
Após a divulgação de várias notas e um claro mal estar entre as partes, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável pela gestão do programa de reintrodução, afirmou que iria rever o acordo e que “não há excedente na população em cativeiro de ararinhas-azuis que justifique movimentações para atividades que não sejam de conservação… Toda ararinha-azul é essencial para o programa de conservação”.
Além disso, o governo brasileiro anunciou que pediria a repatriação das aves enviadas para a Índia. O Conexão Planeta entrou em contato com a assessoria de imprensa do ICMBio para saber sobre a situação atual do processo e recebeu a seguinte resposta:
“A repatriação das ararinhas-azuis que estão em zoológico particular na Índia envolve a atuação coordenada de vários órgãos, entre eles Ministério das Relações Exteriores, Ibama e ICMBio. O processo de repatriação está em curso”.
Maior zoológico do mundo
O zoológico de Jamnagar, com mais de 1 mil hectares, fica dentro da área do complexo da refinaria dos Ambani. Segundo a Reliance Foundation, haverá vários centros de pesquisa e conservação para espécies ameaçadas de extinção e hospitais para atender os animais.
A fundação do grupo indiano divulgou que já tinham sido fechadas parcerias com organizações como a International Union for Conservation of Nature (IUCN) e o World Wildlife Fund for Nature (WWF). O Conexão Planeta entrou em contato com as duas instituições e a primeira delas negou ter qualquer ligação com o zoológico. Sobre a segunda, ainda aguardamos resposta da assessoria de imprensa.
De acordo ainda com informações publicada na imprensa da Índia, nos últimos anos o centro de conservação teria recebido centenas de animais resgatados, entre eles 200 elefantes, 200 leopardos e 1 mil crocodilos.
“O que começou como uma paixão para mim desde muito jovem tornou-se agora uma missão para a Vantara. Estamos focados em proteger espécies nativas da Índia e criticamente ameaçadas. Queremos também restaurar habitats vitais, enfrentar ameaças urgentes às espécies e estabelecer o Vantara como um programa de conservação de vanguarda. Esperamos que Vantara se torne um farol de esperança globalmente e possa mostrar como uma instituição com visão de futuro pode ajudar iniciativas globais de conservação da biodiversidade”, disse Ambani durante uma coletiva de imprensa.
Em breve Vantara deve ser aberto ao público, mas novamente, apenas com “intuito educativo”.
Não foram divulgadas fotos da visita dos convidados do casamento ao zoológico, então não se sabe se as araras brasileiras foram vistas por eles ou estão expostas.
*Com informações da Agência de Notícias Associated Press, The Economic Times e Times of India
**Texto atualizado em 05/03/24 para incluir a declaração do ICMBio sobre a repatriação das araras e em 07/03/24 para corrigir a informação de que o zoológico Vantara teria parceria com a IUCN, o que foi desmentido pela última
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Foto de abertura: ACTP / ICMBio