Rejeitada proposta para a comercialização de araras brasileiras durante reunião da Cites na Suíça

Rejeitada proposta para a comercialização de araras brasileiras durante reunião da Cites na Suíça

Durante os últimos dias representantes dos países signatários da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) estiveram reunidos em Genebra, na Suíça. Entre os assuntos na pauta do encontro estava a polêmica recomendação para a liberação do comércio internacional de duas espécies endêmicas de araras brasileiras, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) e a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) – a primeira delas extinta na natureza e a outra, considerada ameaçada de extinção.

A justificativa para a proposta era de que o dinheiro obtido com a venda de tais aves seria uma “forma de financiar o trabalho de conservação e garantir populações de reserva” fora de seu habitat natural, no caso, o Brasil.

Pois durante o encontro o representante do governo brasileiro deixou bem clara a posição do país, contrária a qualquer tipo de comercialização dessas aves. Na semana passada, o Conexão Planeta já tinha antecipado a opinião das autoridades: “Ibama e ICMBio são terminantemente contrários ao comércio de ararinhas-azuis e araras-azul-de-lear, mesmo sob argumento de custear ações para programas de conservação, e não aprovam sua venda sob qualquer justificativa” (leia mais aqui).

Outros países que participaram do evento da Cites apoiaram a posição do Brasil, entre eles, Indonésia, Quênia Honduras, México, Burkina Faso e Benin. Todos eles demonstraram extrema preocupação com a eventual possibilidade da liberação desse tipo de comércio.

Durante a fala da delegação brasileira, o governo ressaltou mais uma vez, que o Ibama e o ICMBio nunca foram consultados sobre o envio de 30 araras brasileiras a um zoológico da Índia, transferência essa realizada pela Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), um criadouro particular de aves com sede em Berlim, na Alemanha, parceiro do Brasil no programa de reintrodução da ararinha-azul na Bahia.

“O governo brasileiro não recebeu nenhum dinheiro dos “significativos valores” incluídos nessa transação e não sabe como ela pode ser vista como “não comercial”, conforme mencionado no documento da CITES”, afirmou o representante do Brasil.

Já o governo da Alemanha admitiu falhas na permissão dada à ACTP para enviar as 26 ararinhas-azuis e quatro araras-azuis-de-lear para o Green Zoological, Rescue and Rehabilitation Kingdom, zoológico que ainda está sendo construído na Índia, e promete ser o maior do mundo.

Segundo o representante alemão, que aparentava constrangimento, as autoridades de seu país teriam usado de boa-fé, mas deixaram de solicitar documentos que seriam essenciais para permitir o envio das araras para a Índia.

Vale ressaltar que todas as informações sobre a venda das araras para a Índia e a discussão da proposta sobre o comércio das aves pela Cites só se tornaram pública graças a uma denúncia feita pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), que teve acesso aos documentos e investigou o caso. 

Brasil pedirá devolução das araras brasileiras que estão na Índia

Segundo uma reportagem divulgada pelo site ((o))eco, ontem (08/11), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) informou que o Brasil pedirá a repatriação das 26 ararinhas-azuis e das quatro araras-azuis-de-lear enviadas em fevereiro à Índia pela ACTP, da Alemanha.

“O Governo Federal avaliará todas as medidas possíveis para repatriação das aves submetidas às operações comerciais mencionadas no Documento 33.8 da CITES”, afirma o ICMBio. “As transferências internacionais de espécimes de ararinha-azul só devem ser autorizadas pela CITES quando de acordo com o Programa de Manejo [da ave] e referendadas pelo Governo Brasileiro”.

Todavia, no último domingo (05/11), a ACTP emitiu uma nota declarando que informou o governo brasileiro sobre o envio das araras para a Índia. Entretanto, pouco depois, também em nota, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) negou a informação e destacou que ela era falsa. Ressaltou ainda que não reconhecia a parceria entre a associação alemã e o zoológico indiano.

Acordo entre ACTP e Brasil deve ser revisado

A parceria entre a Association for the Conservation of Threatened Parrots e o governo do Brasil foi firmada há alguns anos, em gestões anteriores. O programa de reintrodução que ocorre atualmente na Bahia só foi possível porque a ACTP enviou 52 ararinhas-azuis, nascidas em cativeiro, na Alemanha, para o Refúgio Silvestre de Curaçá, em março de 2020 (saiba mais nesta outra reportagem).

Todavia, ao longo dos últimos anos, surgiram denúncias sobre a idoneidade de Martin Guth, o proprietário da associação. E agora, com a polêmica envolvendo o envio não autorizado das araras para a Índia, não se sabe como ficará a relação entre os parceiros.

Atualmente há 186 ararinhas-azuis no plantel da ACTP em Berlim, segundo informações do ICMBio. Já em Curaçá existem 39 indivíduos dentro das instalações do refúgio e onze soltos na natureza.  O envio de mais animais da Alemanha para o Brasil está em discussão. 

O Conexão Planeta questionou a assessoria de imprensa sobre como ficará a parceria daqui para frente. Por e-mail, recebeu a seguinte mensagem:

“O ICMBio teve reunião em agosto com a ACTP para discutir o acordo. Há desde então conversas para revisá-lo, conduzidas pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE). O governo avalia se as questões tratadas na 77ª Reunião do Comitê Permanente da CITES podem afetar a revisão do acordo”.

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Foto de abertura: reprodução Facebook Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP)

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Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.