Personalidades globais e ex-presidentes e primeiros-ministros urgem países ricos a doarem 240 milhões de vacinas que irão perder a validade

Personalidades globais e ex-presidentes e primeiros-ministros urgem países ricos a doarem 240 milhões de vacinas que irão perder a validade

Das quase 7 bilhões de doses de vacinas contra a covid-19 aplicadas globalmente, cerca de 70% foi parar nos braços de habitantes de nações desenvolvidas e apenas 3% delas administrada em pessoas que vivem em países de baixa renda. Inicialmente, a aliança global Gavi Covax, liderada pela Organização Mundial de Saúde e criada para garantir a distribuição igualitária de vacinas no mundo todo, pretendia enviar 1,3 bilhão de doses para populações menos favorecidas, entretanto, até agora, somente 150 milhões chegaram até estas pessoas, pouco mais de 10% do planejado. Em junho, as nações do G7 se comprometeram a doar 1 bilhão de doses. E onde estão elas?

E o pior, 240 milhões de vacinas que estão nas mãos dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e alguns países europeus ficarão sem uso até o final deste mês.

Para que essas doses sejam compartilhadas imediatamente com outras nações, um grupo com mais de 160 pessoas, entre ex-presidentes, ex-primeiros ministros e celebridades globais, assinou um manifesto pedindo que elas sejam enviadas por avião para os países onde a vacinação ainda está em estágios iniciais, como na África. Entre os signatários do documento estão Tedros Adhanom, diretor da Organização Mundial de Saúde, Seth Berkley, CEO da iniciativa Gavi Covax, o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Gordon Brown, atualmente Embaixador para Financiamento de Boa Saúde da OMS, Ban Ki-moon, ex-secretário geral da ONU, Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil, e também, o Príncipe Harry e a esposa, Megan Markle.

O documento foi divulgado ontem, na véspera do início do encontro do G20, em Roma, na Itália, onde se encontrarão os líderes das maiores economias do mundo.

“As promessas não se traduzem em vacinas que cheguem às pessoas que delas precisam. Entre os países representados no G20, há um punhado com milhões de vacinas excedentes que serão desperdiçadas assim que expirarem. Cada dose descartada de vacina COVID-19, quando houver mecanismos para doá-la, deve indignar a todos nós. Cada dose representa uma pessoa real – mãe, pai, filha ou filho – que poderia ter sido protegida. Cada um de nós vem de lugares, origens e experiências de vida muito diferentes, mas compartilhamos um objetivo comum: combater a desigualdade global”, afirma o grupo.

Os signatários reforçam que essas vacinas são um bem público – muitos países pagaram para que tenham acesso a elas através da Gavi Covax, e lembram ainda, que a imunização contra a covid é um direito humano fundamental que precisa ser garantido a todos.

No manifesto são elencadas as ações urgentes que devem ser tomadas:

– Fechar imediatamente a lacuna de 550 milhões de doses para chegar à meta de cobertura vacinal global de 40% da até o final de 2021, acelerando os compromissos existentes de doações de doses para a COVAX e eliminando as restrições à exportação das mesmas;

– Financiamento total do Acelerador de Acesso às Ferramentas COVID-19 (ACT) para que possa realizar seu trabalho vital de fornecer vacinas, diagnósticos e tratamentos para as pessoas mais vulneráveis do planeta – desde populações mais velhas e profissionais de saúde até refugiados;

– Manter as empresas farmacêuticas com padrões de transparência mais elevados, incluindo projeções de produção mensais publicamente compartilhadas e cronogramas de entrega para ajudar os países a planejarem melhor o recebimento e o compartilhamento das doses;

– Compartilhamento de tecnologia de vacinas e desmantelar as barreiras de produção apoiando uma proposta de vários países que pedem a renúncia de restrições de propriedade intelectual em tempos de crise global.

“Não podemos simplesmente esperar que a pandemia termine por conta própria. À medida que o vírus progride através das populações não vacinadas, corremos o risco de novas cepas mais mortais varrerem o planeta. Além disso, com trilhões de dólares já perdidos e outros trilhões previstos para serem perdidos, as economias nunca se recuperarão totalmente até que o mundo inteiro possa operar normalmente. Cooperação de proporções históricas é a única solução. Vidas literalmente dependem disso”, alerta o manifesto.

Para Gordon Brown, os países mais ricos têm responsabilidade moral em doar as vacinas excedentes.

“Esses países encomendaram demais e estão com estoques em excesso e não estão distribuindo as vacinas com rapidez suficiente para que muitas delas não sejam desperdiçadas antes de sua data final de validade”, critica.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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