A cena já é comum. Infelizmente, todos os anos, quando se inicia a época de incêndios no Pantanal, filhotes são encontrados sozinhos, sem a presença dos pais. Ainda muito jovens e debilitados, eles têm pouca chance de sobreviver por conta própria na natureza, sem a proteção e a ajuda dos mais velhos. E foi isso o que aconteceu com três animais, órfãos, achados recentemente no Mato Grosso.
Os dois filhotes de onça-pintada, machos, que têm entre 75 e 90 dias de vida, foram localizados em uma propriedade rural particular de Juara, a 694 km de Cuiabá. Bastante fracos e mal-nutridos, foram levados para a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), onde receberam cuidados da equipe de veterinários da instituição. Já o filhote de lobo-guará estava sozinho perto de uma área de queimadas, no município de Cáceres. O machinho tem aproximadamente 4 meses.
Agora todos os filhotes foram encaminhados para o Zoológico de Brasília.
“Infelizmente, nesta época do ano, de seca, é frequente o resgate de filhotes órfãos, principalmente em áreas que sofrem com as queimadas. Nós, do Ibama, sempre priorizamos a soltura dos animais na natureza, mas, neste caso, eles foram encontrados bastante debilitados e dependentes de esforços humanos. Além disso, são duas espécies consideradas ameaçadas de extinção. Definimos que, no momento, o Zoológico de Brasília fosse o local mais adequado para o desenvolvimento saudável desses filhotes”, explica Bruno Campos, biólogo do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
A decisão para a transferência dos animais foi tomada em conjunto com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (Azab) e a UFMT.
“O Zoológico de Brasília recebeu esses animais dentro do programa nacional para a conservação da espécie e isso é uma responsabilidade grande e um dever de todo zoológico com a filosofia moderna. A ideia inicial é que eles se desenvolvam com saúde e estejam aptos a colaborarem com a conservação de sua espécie, seja aqui no Zoo de Brasília ou em outra instituição, sempre seguindo as orientações dos especialistas do programa”, explica o biólogo Filipe Reis, diretor de mamíferos do local.
Como em outros casos, os filhotes passarão por um período de quarentena e serão monitorados o tempo todo, com acompanhamento diário, para a garantia de seu desenvolvimento físico e emocional.
Atualmente vivem no Zoo de Brasília uma outra onça-pintada e quatro lobos-guará.
Em breve, o zoológico promoverá uma votação online para a escolha do nome de seus novos moradores. Fique ligado/a na página do Instagram deles!
O lobo-guará brasileiro
Espécie típica do Cerrado brasileiro, o Chrysocyon brachyurus é o maior canídeo selvagem da América do Sul. Infelizmente, ele está em risco de extinção, devido principalmente à destruição de seu habitat pelo desmatamento.
O nome guará vem da língua indígena e significa “vermelho”. Com aproximadamente 90 cm de altura, pesa, em média, 23 kg. De hábitos solitários, macho e fêmea se encontram somente para reproduzir e cuidar dos filhotes.
O lobo-guará é um animal de atividade noturna, que tem o olfato extremamente sensível e orelhas longas, que conferem a ele uma excelente capacidade auditiva também. Pode detectar suas presas a uma grande distância. Suas pernas longas facilitam a locomoção.
Assim como outras espécies, usa sua urina e fezes para demarcar território. Apesar de carnívoro, o lobo-guará gosta muito de frutas. Uma inclusive, leva seu nome: a fruta-do-lobo.
Onça-pintada: o maior felino das Américas
A onça-pintada (Panthera onca), também chamada de jaguar, originalmente era encontrada desde o sudoeste dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Atualmente, a espécie está oficialmente extinta em território americano, é muito rara no México, mas ainda pode ser vista na Argentina, Paraguai e Brasil.
Devido à perda de habitat e a fragmentação da mata, provocados pelo desmatamento, pesquisadores chegaram a afirmar que a onça-pintada pode desaparecer da Mata Atlântica, como mostramos aqui, neste outro post.
Onças-pintadas podem ter de um a quatro filhotes por vez, sendo mais comum um ou dois. Depois do nascimento, eles ficam com a mãe por aproximadamente dois anos, quando então partem para buscar seu próprio território. A espécie vive cerca de 12 anos na natureza.
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*Os filhotes encontrados órfãos foram levados gratuitamente do Mato Grosso para Brasília por meio do programa Avião Solidário, do Grupo LATAM
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Fotos: Ivan Mattos/Zoológico de Brasília (filhotes de onça-pintada) e Paulo Cavera/Inframérica (lobo-guará)