Líderes indígenas são destaque no desfile do Salgueiro sobre a luta dos Yanomami

Líderes indígenas são destaque no desfile do Salgueiro sobre a luta dos Yanomami

A expectativa era enorme para o desfile da Acadêmicos do Salgueiro neste domingo (12/02), no Sambódromo, no Rio de Janeiro. Como já tínhamos contado, a  escola de samba levou para a Sapucaí a luta do povo Yanomami, com o samba enredo Hutukara – que, na língua yanomami significa “a terra floresta”. Ele foi inspirado no livro “A queda do céu – palavras de um xamã yanomami”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

A criação do samba enredo do carnavalesco Edson Pereira contou com a parceria de lideranças indígenas, como o próprio Kopenawa, que desde o começo fez uma exigência: que os Yanomami não fossem retratados como vítimas, mas guerreiros. Para ele, o respeito pelo seu povo nascerá apenas através da admiração, não da pena. Ou seja, é preciso reconhecer a essência e a humanidade yanomami.

Antes mesmo do desfile começar na Avenida Marquês de Sapucaí, o espírito indígena já se fazia presente ali. Líderes yanomami que participaram da apresentação se pintaram, cantaram e rezaram juntos para atrair boas energias para o Salgueiro.

Na avenida o que se viu foi um espetáculo belíssimo, considerado histórico por muitos, por trazer para este importante palco da cultura brasileira, um tema tão sério e necessário: a proteção dos povos da floresta. No Brasil, são mais de 27 mil indígenas do povo Yanomami, que vivem nos estados de Roraima e Amazonas, e tem como líder e xamã, Kopenawa.

Na Comissão de Frente, a escola trouxe a árvore mãe, que representa a sabedoria. De dentro dela, do caule, surgem os primeiros indígenas, ancestrais. Bailarinos interpretaram também as tragédias enfrentadas pelos Yanomami, muitos mostrando ferimentos e ligados às plantas através de respiradores.

Líderes indígenas são destaque no desfile do Salgueiro sobre a luta dos Yanomami

Coreografia dos bailarinos da Comissão de Frente
(Foto: reprodução Instagram Acadêmicos do Salgueiro/RioCarnaval)

O enredo enfatizou ainda a crise enfrentada pelos indígenas no ano passado, com as mortes provocadas pela malária e desnutrição e o avanço de garimpeiros sobre as terras indígenas. “Você diz lembrar do povo Yanomami/Em 19 de abril/Mas nem sabe o meu nome e sorriu da minha fome/Quando o medo me partiu”, diz a letra do samba.

O Salgueiro homenageou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, assassinados em 2022 no Vale do Javari. A antropóloga Beatriz Matos, viúva de Bruno, participou do desfile.

“Bruno e Dom ganham citação em nosso samba por terem sido “brancos” que entenderam verdadeiramente os povos indígenas. Mesmo que seus corpos não estejam mais aqui, seus pensamentos permanecem”, divulgou o Salgueiro em suas redes sociais.

Em vermelho vibrante, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marcella Alves e Sidcley Santos, vestiam a fantasia “Yakoana”, que representava o pó alucinógeno usado nos rituais dos xamãs. Ao inalar a substância, eles conseguem ver os xapiris, espíritos de luz protetores da floresta, que transmitem as mensagens de Omama através de cantos, colhidos das “árvores sábias” das partes mais remotas da Hutukara.

No final do desfile, veio o carro “Por um Brasil Cocar”, que trazia os representantes dos Yanomami, como Davi Kopenawa.

Líderes indígenas são destaque no desfile do Salgueiro sobre a luta dos Yanomami

Mestre-sala e porta-bandeira em vermelho: representando o pó alucinógeno usado pelos xamãs
(Foto: divulgação Riotur)

O Salgueiro uma série de termos e frases da língua yanomami utilizados no samba enredo e seus significados. Que tal conhecer alguns?

*Hutukara: a terra-floresta.
* Omama: o demiurgo. É o Deus da criação para os Yanomami.
* Xamã: Guerreiros do mundo espiritual. Eles fazem a conexão entre o mundo visível e o mundo invisível, atuando como escudos contra os poderes maléficos oriundos dos humanos e dos não-humanos que ameaçam a vida de suas comunidades.
* Yakoana: substância extraída das raspas de uma árvore que possui efeito alucinógeno. É utilizada nos rituais xamânicos.
* Xapiris: são os espíritos de luz, defensores da terra-floresta. Só são vistos pelos xamãs após o uso da yakoana.
* Yoasi: o irmão de Omama. É o responsável pela criação da morte e da escuridão.
* Kopenawa: o sobrenome da principal liderança Yanomami significa “marimbondo”. É melhor não mexer com marimbondo!
* Napê: termo para designar todos os forasteiros, como o homem branco e os garimpeiros.
* Ya Temi Xoa: expressão de resistência que significa “Ainda estou vivo!”.

Foto de abertura: reprodução Instagram Acadêmicos do Salgueiro/RioCarnaval

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Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.