Salgueiro leva luta do povo Yanomami para a Sapucaí com apoio de Leonardo DiCaprio

Salgueiro leva luta do povo Yanomami para a Sapucaí com apoio de Leonardo DiCaprio

“O ritmo do samba pulsa para ajudar a proteger o maior grupo indígena da Amazônia que vive em relativo isolamento: o povo Yanomami”. É assim que o ator e ativista Leonardo DiCaprio e sua ONG, a Re:wind, iniciam, nas redes sociais, a apresentação do samba-enredo da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que homenageia os mais de 27 mil indígenas do povo Yanomami – que vivem nos estados de Roraima e Amazonas – e seu líder e xamã, Davi Kopenawa.

Intitulado Hutukaraque, na língua yanomami significa “o céu original a partir do qual se formou a terra” -, o samba escrito pelo carnavalesco Edson Pereira exalta a mitologia Yanomami e “levanta a bandeira” em defesa desse povo e da Amazônia.

Parceira do Salgueiro neste Carnaval, a organização Re:wind – fundada por DiCaprio – é “uma apoiadora comprometida dos Yanomami e está animada por participar desta celebração de resiliência e ativismo indígena diretamente do coração da floresta amazônica”, destaca o ativista

A intenção com a parceria é mostrar “o poder transformador da união entre arte, cultura e conservação, na luta pela proteção da Amazônia e de seus habitantes”, diz a escola em nota enviada à CNN.

“É um apelo à ação, tanto dentro quanto fora da passarela, em defesa de um dos tesouros mais preciosos do planeta [a floresta] e das comunidades que dele dependem para sua sobrevivência e bem-estar”, conclui.  

No post (que você pode ver no final deste texto) a voz de Davi Kopenawa destaca: “Queremos a sua ajuda. Queremos que defendas o nosso planeta Terra, a nossa saúde, a nossa língua, o nosso xamã, a nossa sabedoria, a nossa música, a nossa alegria. Esta música [o samba-enredo] é muito importante para todos ouvirem”.

Uma mensagem de alerta ao mundo

“É muito importante o significado da palavra Hutukara, que fala que nós sobrevivemos, nós estamos vivos, estamos aqui”, destaca Edson Pereira, do Salgueiro. “E, hoje, falar dessa essência tão forte, que dá origem ao nosso povo, não é somente falar de carnaval, é falar sobre quem somos, de onde viemos e como chegamos até aqui” […] Temos “uma dívida enorme com esse povo que é o verdadeiro dono desta terra”.

“A gente precisa conscientizar todo o povo sobre o que é devastação, o que ela tá trazendo para esse povo. Aliás, ela está matando os nossos povos”, acrescenta.

Para Pedro Ribeiro, biólogo que integra o Salgueiro, “este é o momento certo para trazer este debate. A escola vai abordar questões como o aquecimento global, odesmatamento e outras ações do homem que impactam diretamente na vida dos indígenas”. E completa:

“É mais do que um enredo, é uma grande pauta e uma grande causa […] Essa é uma questão atual que a gente tá vivendo, como o aquecimento global. A gente está vendo a consequência direta da ação do homem no ambiente”. 

Pereira ainda diz que acredita no potencial de levar essa mensagem de alerta para várias partes do mundo: “Temos um grande público expectador no Sambódromo, e os telespectadores da TV, e há pessoas assistindo no mundo inteiro. Então, a mensagem [do samba-enredo] tem o potencial de avançar, sair do nosso desfile e tocar as pessoas em diferentes partes do mundo”.

Para a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, o desfile e o samba-enredo do Salgueiro, ajudarão “a colocar ainda mais em evidência a situação do povo Yanomami, o que vai ajudar a aumentar muito a visibilidade e o apoio”. E ele completa: “Antes de você cantar o enredo, canta da Terra, canta da floresta, canta da agua, canta da nossa vida e canta dos nossos filhos”. Lindo! 

Letra do samba-enredo: decore e cante!

A seguir, a letra de ‘Hutukara’ e o vídeo publicado por DiCaprio, pela Associação Hutukara e pela Re:wild no Instagram.

“É HUTUKARA! O chão de Omama
O breu e a chama, Deus da criação
Xamã no transe de yakoana
Evoca Xapiri, a missão… 

HUTUKARA, ê! Sonho e insônia
Grita a Amazônia, antes que desabe
Caço de tacape, danço o ritual
Tenho o sangue que semeia a nação original

Eu aprendi português, a língua do opressor
Pra te provar que meu penar também é sua dor
Falar de amor enquanto a mata chora, (bis)
É luta sem Flecha, da boca pra fora! 

Tirania na bateia, militando por quinhão,
E teu povo na plateia, vendo a própria extinção
“Yoasi” que se julga: “família de bem”, (bis)
Ouça agora a verdade que não lhe convém: 

Você diz lembrar do povo Yanomami em dezenove de abril,
Mas nem sabe o meu nome e sorriu da minha fome,
Quando o medo me partiu

Você quer me ouvir cantar em Yanomami pra postar no seu perfil
Entre aspas e negrito, o meu choro, o meu grito, nem a pau Brasil!

Antes da sua bandeira, meu vermelho deu o tom
Somos parte de quem parte, feito Bruno e Dom
Kopenawas pela terra, nessa guerra sem um cesso,
Não queremos sua “ordem”, nem o seu “progresso” 

Napê, nossa luta é sobreviver!
Napê, não vamos nos render!
YA TEMI XOA! aê, êa! (bis)

Meu Salgueiro é a flecha
Pelo povo da floresta
Pois a chance que nos resta
É um Brasil cocar!”.

Leia também:
– Após um ano de operações do governo federal em território Yanomami, garimpo persiste e saúde colapsa

Fontes: Instagram Leonardo DiCaprio, G1, UOL

Foto: reprodução do vídeo

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.