Olhando assim ele até parece um pássaro comum. Mais uma espécie de canário, que vemos em nossos quintais. Mas não. Essa pequena ave de tom esverdeado e de garganta amarela estava na lista internacional daquelas desaparecidas, as Dez Mais Procuradas no Mundo, a Search for Lost Birds. Desde 1999, que nenhum indivíduo do Xanthomixis tenebrosa era avistado em Madagascar, o único lugar do planeta onde ele é encontrado. Foram 24 anos desaparecido.
Mas graças a uma expedição de cientistas realizada nesse país insular, situado perto da costa sudeste da África, o Bernieria tenebrosa foi redescoberto. Pesquisadores da organização The Peregrine Fund acharam dois espécimes dele, um em dezembro do ano passado e outro, agora em janeiro.
“Agora que encontramos o Bernieria tenebrosa e entendemos melhor o habitat em que vive, podemos procurá-lo em outras partes de Madagascar e obter informações importantes sobre sua ecologia e biologia”, diz Lily-Arison Rene de Roland, diretor do Peregrine Fund e líder de expedição. “Ainda há muita biodiversidade a descobrir em Madagascar”.
Os pesquisadores relatam que, infelizmente, grande parte da paisagem por onde a expedição passou sofre com desmatamento. Árvores foram derrubadas para dar espaço às plantações de baunilha, já que o país se tornou o maior produtor mundial dessa iguaria, uma das mais cara do mercado global.
O passarinho misterioso, que tem o hábito de pular pelo chão, foi avistado próximo a uma área densa de floresta, perto de um rio.
“Se essas aves sempre preferem áreas próximas a rios, isso pode ajudar a explicar por que a espécie foi negligenciada por tanto tempo”, afirma John C. Mittermeier, diretor do Programa de Pássaros Perdidos da American Bird Conservancy. “A observação de pássaros em florestas tropicais tem tudo a ver com ouvir seus canto e, portanto, você naturalmente tende a evitar passar o tempo perto a rios caudalosos, onde não consegue ouvir nada”.
O outro espécime observado foi através do uso de redes de captura, mas logo em seguida, foi libertado. Os ornitólogos suspeitam que a espécie tenha como habitat esse tipo de ambiente úmido, vegetação ao lado de cursos d’água, por ser mais fácil de encontrar alimentos, como insetos.
Lily-Arison Rene de Roland segurando brevemente o pássaro raríssimo
(Foto: John C. Mittermeier)
Agora os cientistas pretendem realizar uma nova expedição, entre setembro e outubro, quando é a época de reprodução das aves, e assim descobrir mais sobre seus hábitos e comportamento.
O projeto Search for the Lost Birds foi iniciado em 2021 e conta com a participação da Re:wild, American Bird Conservancy e BirdLife International. Na lista estão incluídas aves que não foram avistadas por pelo menos dez anos. Este é o segundo pássaro que foi redescoberto até o momento.

Área onde o pássaro foi redescoberto
(Foto: John C. Mittermeier)
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Foto de abertura: John C. Mittermeier