A natureza selvagem e pouco conhecida de Utah

A natureza selvagem e pouco conhecida de Utah

Desde que começou a pandemia, milhares de pessoas do mundo inteiro, que amam viajar, assim como eu, tiveram que fincar seu pezinhos em casa. Nada de estrada, avião, conhecer lugares novos. Mas quem disse que pra viajar é preciso realmente sair de casa? Nos últimos meses, tenho devorado livros e revistas e com eles, estado em outros lugares, aprendido novas experiências e histórias. Por isso, depois de um longo tempo, decidi que era hora de escrever novamente aqui no blog. A viagem não é recente, mas pra quem ainda não conhece Utah, fica a dica para incluir na lista “pós-pandemia”.

Imagine-se no cenário de um filme de faroeste americano: montanhas em tons avermelhados, descampados, o sol escaldante batendo sobre plantas desérticas. Ao fechar os olhos, é possível ver índios cavalgando no horizonte. Essa é apenas uma das sensações que pode-se ter ao estar em Moab, Goblin Valley ou alguma outra atração de Utah pela primeira vez.

A região não está entre os roteiros mais visitados pelos turistas brasileiros. Uma pena. Os vizinhos Arizona, onde fica o Grand Canyon, e Nevada, com a capital Las Vegas, são mais procurados. Entretanto, com custos bem menores, Utah oferece um leque enorme de atrações naturais, atividades esportivas e passeios históricos.

Quando se menciona o estado, uma das primeiras referências recebidas é que ali fica a sede da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – os Mórmons. A presença deles é dominante, capelas e templos podem ser vistos por toda parte e bebidas alcóolicas e café nem sempre são encontrados facilmente. Crenças religiosas à parte, o que o turista descobre ao desembarcar nesse estado americano da região das Montanhas Rochosas é uma natureza imponente, exuberante mas também, inóspita.

A natureza selvagem e pouco conhecida de Utah

Vista do alto do Bryce Canyon

A natureza selvagem e pouco conhecida de Utah

Visitantes explorando os canyons

Utah: o estado dos parques

Estão localizados em Utah cinco parques nacionais e 45 estaduais, além de canyons, vales, florestas, desertos e os chamados monumentos naturais. Salt Lake City, a capital, é o ponto mais fácil de chegada. De lá, o ideal é cruzar o estado de carro pela I-15. Com poucas horas de estrada vê-se como a vegetação muda rapidamente. Em algumas áreas as montanhas são verdes com árvores altas e subitamente elas desaparecem por completo e dominam a paisagem formações rochosas.

No aeroporto de Salt Lake City, as roupas esportivas e mochilas nas costas de quem desembarca já revelam que esse é um destino de quem busca explorar a natureza. Zion, Bryce Canyon, Arches, Canyonlands e Capitol Reef são os cinco parques nacionais localizados no estado de Utah. Poucos dias não são suficientes para visitar todos. Zion e Arches estão separados por mais de 500 quilômetros de distância. E na maioria desses parques, é necessário mais de um dia para conhecê-los por completo.

Arches é provavelmente o mais famoso deles. É o parque com a maior quantidade de arcos naturais de arenito do mundo: 2.500 na última contagem. Isso porque esse é um cenário esculpido e transformado diariamente pela natureza nos últimos milhões de anos. É através da ação da água, do gelo e do vento que os arcos se modificam. Arches fica ao lado de Moab, uma cidade que se resume basicamente a uma rua principal onde ficam localizados hotéis, restaurantes e lojas.

A natureza selvagem e pouco conhecida de Utah

Balanced Rock, no Arches Park

Nos meses de verão, para poder aproveitar o passeio e suportar o calor nas caminhadas, a dica é acordar cedo. O ideal é estar em Arches no mais tardar às 8 da manhã. Quando o sol está a pino, ao meio-dia, todos concordam com a recomendação. Para iniciar o passeio são essenciais boné ou chapéu, protetor solar, sapato próprio para terrenos instáveis e água – 4 litros por pessoa é o recomendado, afinal Arches é um deserto.

A chegada ao parque através da via pavimentada já causa impacto. Imensas torres e prateleiras de arenito de uma beleza espetacular acompanham o trajeto. A medida que a luz do sol vai mudando de posição, muda também a cor das pedras, que oscilam do laranja ao rosa e  ao vermelho intenso. Um folheto gratuito mostra os melhores horários e locais para fotos. O início e o final do dia sempre reservam a melhor iluminação para capturar imagens únicas.

A natureza selvagem e pouco conhecida de Utah

Utah é um paraíso para os amantes da natureza selvagem e intocada

São diversas trilhas espalhadas ao longo do parque, divididas pelo grau de dificuldade e esforço. Algumas não exigem mais do que 15 minutos de caminhada, como a que dá acesso a Balanced Rock, uma pedra gigante equilibrada sobre um monte, parecendo estar prestes a cair. Mas são os arcos que realmente atraem a curiosidade dos visitantes.

Devils Garden é a mais longa das trilhas, com 11 km de extensão e duração de três a cinco horas. Em algumas partes o caminho é estreito com pedregulhos, mas nada menos que oito arcos podem ser vistos por ali. Entretanto, o mais fotografado e que se tornou símbolo do estado é o Delicate Arch. Há dois locais em que ele pode ser visto de longe, mas para tocá-lo é preciso encarar uma caminhada de mais de duas horas, entre ida e volta. O esforço vale a pena quando se chega ao topo, ao lado dessa obra da natureza.

Delicate Arch, um dos símbolos de Utah

O penhasco do filme “Thelma e Louise”

A pouco menos de 15 quilômetros de Moab está o Parque Nacional de Canyonlands. Em uma área de mais de 1.300 km2, os rios Green e Colorado recortaram as rochas formando caminhos sinuosos. Tal é a imensidão do parque que ele foi dividido em três distritos. Em um deles fica o lago Powel, onde são praticadas atividades como pesca, caiaque e waterskiing. A vista panorâmica do alto do mirante Grandview, onde se chega de carro, tornou-se um dos lugares favoritos dos turistas.

Bem próximo de Canyolands, a aproximadamente 15 minutos de carro, fica o Dead Horse Point, um platô a mais de 600 metros de altura de onde podem ser vistos os canyons esculpidos pelo rio Colorado nos últimos 15 milhões de anos. O parque recebeu esse nome porque uma lenda conta que no passado cavalos selvagens eram encurralados ali, na beira do penhasco, e os deixados para trás ou esquecidos acabavam morrendo de sede no local. As cenas finais do filme Thelma and Louise foram gravadas aqui.

Vista do rio Colorado de cima do mirante de Deade Horse Point

Na direção oeste, a duas horas de carro de Dead Horse Point, um outro parque merece uma parada: Goblin Valley. A estrada que leva até lá fica literalmente no meio do nada. Mas como o próprio nome sugere, esse parece ser um vale de duendes. As criaturas feitas de arenito fazem lembrar os montes de areia feitos por crianças na beira da praia. Há evidências geológicas que essa área esteve próxima a um antigo mar e sofreu com as influências das marés.

Turistas caminhando entre as formações geológicas do Goblin Valley

Trilhas e mais desfiladeiros

No extremo mais a sudoeste de Utah ficam Capitol Reef, Brice Canyon e Zion, esse último sendo o mais popular dos três parques nacionais.

Formado há mais de 250 milhões de anos pela força da água, um dia Zion já foi coberto pelo mar e também um enorme deserto. Hoje as diferentes altitudes do parque oferecem o habitat perfeito para mais de mil espécies de plantas e mais de duzentas de animais.

Pelas trilhas não é raro encontrar veados, esquilos e lagartos. Um ônibus circula por dentro do parque e deixa os turistas perto das entradas das principais trilhas do canyon. Alguns paredões, que chegam a atingir 600 metros de altura, podem ser escalados.

Zion National Park: montanhas, rios e vida selvagem

Uma das atrações mais procuradas em Zion é a caminhada pelos narrows. A trilha no rio entre as paredes de pedra do desfiladeiro tem 25 quilômetros de extensão e em alguns pontos chega a ser tão estreita que somente uma pessoa passa por vez. A água gelada e as pedras escorregadias só aumentam a emoção do passeio. Entretanto, quando chove na cabeceira do rio a água ganha força rapidamente e podem ocorrer inundações relâmpagos. Sempre que há probabilidade de chuva forte, a trilha é fechada.

Em Utah, a natureza garante o espetáculo, mas também é soberana nas regras e no respeito.     

 

Caminhada pelo rio entre as montanhas

Aventura no deserto

Bastante populares, os parques estaduais de Utah oferecem atração tanto nos meses de verão como no inverno. Localizado há cerca de 50 km de Zion, Sand Hollow State Park é uma inesquecível experiência para iniciantes no deserto. No vilarejo de Hurricane várias lojas alugam veículos off-road. Instrutores dão dicas importantes de como dirigir four wheelers em terrenos arenosos e acidentados.

Será um dia inteiro dentro do parque, então nosso grupo se prepara com sanduíches leves e água, muita água. Protetor solar e óculos escuros são essenciais. Em julho a temperatura pode chegar aos 40 graus. Outro acessório primordial é a bandana no rosto, igual àquelas usadas pelos bandidos nos filmes de faroeste. Com vento e chuva forte batendo na areia, é impossível se locomover sem proteção no rosto. Com mapa na mão e um guia experiente guiando o grupo, é hora de conhecer Sand Hollow de perto.

Velocidade e adrenalina nas dunas de areia

Apesar de muito raramente chover no deserto, começamos a manhã justamente com tempo ruim e chuva fina. A areia molhada fica com um tom avermelhado. A vegetação rasteira nos acompanha e nosso grupo é o único explorando a vasta beleza dos 8 mil hectares desse parque selvagem. Emolduradas pelas montanhas ao longe, as dunas começam a aparecer e com elas chega a adrenalina.

Com velocidade subimos e descemos os morros de areia e rocha. Logo abaixo canyonse formações em arenito compõe a paisagem. Quando o sol sai por entre as nuvens, o calor chega rapidamente. As dunas e trilhas do parque também são muito procuradas por praticantes de mountain biking. Os visitantes são alertados para tomar cuidado com cobras, que podem estar escondidas em buracos nas pedras.

Para fugir da alta temperatura, rumamos para Sand Hollow reservoir, um lago artificial de águas límpidas e mornas. Deixamos o parque ao final do dia. Nuvens negras começam a se locomover pelo céu ligeriamente e tentamos escapar da chuva. Por mais que aceleremos, não conseguimos. A sensação das gotas de água caindo sobre o corpo é impressionante. Machucam, parecem estar cortando a pele. Quando chegamos encharcados em Hurricane respiramos aliviados e damos risada. Foi um dia perfeito no deserto, repleto de emoção.

Sand Hollow reservoir: um alívio para o calor

*Texto publicado originalmente, em uma versão menor, no jornal Gazeta do Povo

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Fotos: divulgação Visit Utah

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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