Um dia, caminhando pela praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, Jorge comenta com o filho que viu um vídeo meu na internet. Chamava-se Perigos na Selva – porque a gente merece saber a verdade. Comentou aquilo que é: uma jornalista ambiental, muito apaixonada pela Amazônia, começou a publicar vídeos no You Tube falando sobre os medos e as crenças que temos em relação à floresta.
O filho mais novo, de 12 anos, não entendeu. Respondeu com um ah, é? e correu atrás da bola de um grupo de futebol que havia errado o gol, em um jogo de praia. Final de tarde é assim no Rio de Janeiro, as pessoas ainda estão na praia.
– Filho, então… – falou o pai, interessado em investigar se o que eu conto no episódio Wikipedia é mesmo verdade.
– Fala, pai.
– Você sabe o que é Amazônia? Sabe, Amazônia, aquela… (tentou se contar para não responder a própria pergunta)
– Ah, sei, é uma floresta.
Alívio para o pai, o filho sabia que era uma floresta.
– O que mais você sabe sobre ela, filho?
– Ai, pai, você quer mesmo falar disso agora? – respondeu, enquanto observava com atenção o grupo de jovens no futebol.
– Está bem, falamos depois – disse o pai, intrigado. O filho não queria falar no assunto porque não interessava ou por que ele não sabia nada além do fato de a Amazônia ser uma floresta?
Quando chegou em casa, reviu o vídeo e se deu conta de que, ao perguntar para o filho o que ele sabia sobre a Amazônia, na verdade ele também fazia esta pergunta para si mesmo. Refletiu sobre as informações que já leu, sobre o que já sentiu. Soltou um ai, caraca e colocou a mão na testa, no escritório.
Pesquisou notícias sobre a floresta na internet e sentiu, pela primeira vez, um incômodo enorme em ler tudo aquilo de novo, porque ele já tinha ouvido tanto falar em desmatamento, morte de pessoas inocentes, extinção de espécies, manobras políticas, aumento de pastagens… que ele não aguentou chegar nem ao terceiro parágrafo da terceira notícia.
Só que o incômodo trouxe uma reflexão para ele: ao ler mais do mesmo, percebeu que pensava que sabia o suficiente sobre a Amazônia, quando, na verdade, não sabia. Ele não tinha ideia do que era aquela floresta.
Em meio a estes pensamentos, uma lembrança de seus doze anos retorna à sua memória com a força de um trovão. Se viu correndo pelo sítio dos avós, entre as árvores, brincando de esconde-esconde com os primos, em um daqueles raros encontros de família.
Lembrou-se que, uma vez, começou a chover. Todos os primos correram de volta para casa, mas ele não. Ficou batendo bola sozinho, entre as árvores, recebendo os pingos de chuva por todo o corpo, enlameado, sentindo-se vivo, como nunca: vivo, tão vivo! Tão feliz! Quando foi a última vez que se sentiu assim? Não lembrava. Neste momento, uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
Ele então respira fundo, volta novamente ao escritório de casa, ao tempo presente, onde estava. Retoma o vídeo sobre o impacto de ações negativas sobre a Amazônia. Assiste de novo alguns trechinhos.
Levanta da cadeira, procura pelo filho.
– Filhão, você já correu no meio das árvores, com chuva e tudo?
– Eu não, pai!
Olhar distante, volta à lembrança de si mesmo no sítio dos avós, volta o nó na garganta. Com um abraço, ele agacha, olha nos olhos do pequeno e diz: “Quer tomar chuva comigo na Amazônia?”.
Foto: Jordan Whitt/Unplash