Desmatamento na Amazônia cresce mês a mês e Bolsonaro diz que dados do Inpe são ‘mentirosos’

Desmatamento na Amazônia cresce mês a mês e Bolsonaro diz que dados do Inpe são ‘mentirosos’

As áreas de desmatamento de corte raso na Floresta Amazônica nos últimos três meses (abril, maio e junho de 2019) acumularam um total de 1.907 mil km2. Em 2018, foram registrados 1.528 mil km2 no mesmo período, ou seja, observa-se um crescimento de 24,8%. Levando em conta somente a comparação entre o mês de junho deste ano e o mesmo período do ano passado, o aumento seria de 88%.

Os dados acima foram divulgados no começo de julho pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), subordinado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Historicamente, o governo federal sempre levou em conta os índices de deflorestamento da Amazônia publicados pelo Inpe. Eles eram considerados os ‘oficiais’. Nunca antes foram contestados.

Números apresentados pelo Inpe

Todavia, desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência, o atual governo tem se mostrado desconfortável com as taxas de desmatamento (em franco crescimento) apontadas pelo Inpe. Há algum tempo, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mencionou que estaria pensando em contratar empresas privadas para realizar o monitoramento da Amazônia. E não foi só ele. Diversos outros integrantes do atual governo tentam, de qualquer forma, desqualificar o trabalho do instituto.

A situação chegou a um nível tão constrangedor, que na semana passada, cientistas refutaram as declarações do governo contra o Inpe, em nota à sociedade e carta a Bolsonaro. No documento, mais de 50 integrantes da Coalizão Ciência e Sociedade defendem o instituto, que é estratégico não só para o controle do desmatamento e a regulação das mudanças climáticas, mas também para a preservação da biodiversidade e a sustentabilidade da economia, incluindo o agronegócio.

Críticas e insultos ao Inpe

Como se não bastassem todos os ataques sofridos até então, na última sexta-feira, Bolsonaro decidiu criticar em público, de maneira vil e baixa, não apenas o Inpe, mas seu diretor, Ricardo Magnus Osório Galvão.

“Se for somado o desmatamento que falam dos últimos 10 anos, a Amazônia já acabou. Eu entendo a necessidade de preservar, mas a psicose ambiental deixou de existir comigo”, disse o presidente. E ele foi além. “A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão… Mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”.

Insultado com as afirmações do presidente, Galvão se defendeu e afirmou que não deixará o cargo. “Tenho 71 anos, 48 anos de serviço público e ainda em ativa, não pedi minha aposentadoria. Nunca tive nenhum relacionamento com nenhuma ONG, nunca fui pago por fora, nunca recebi nada mais do que além do meu salário com o servidor público”.

O diretor também falou sobre o trabalho do instituto, muito respeitado não só no Brasil, como no exterior também*. “Esses dados sobre desmatamento da Amazônia, feitos pelo Inpe, começaram já em meados da década de 70 e a partir de 1988 nós temos a maior série histórica de dados de desmatamento de florestas tropicais respeitada mundialmente”.

Ao comentar a troca de acusações, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, disse que “tinha grande apreço pelo Inpe, mas que também compartilhava da estranheza (sobre os dados do desmatamento)”.

Hoje (22/07), Pontes divulgou uma nota informando que solicitou ao Inpe dados consolidados sobre o desmatamento da Amazônia nos últimos 24 meses e que teria convidado Galvão para um encontro, em que ele poderia prestar “esclarecimentos e orientações”.

No final de semana, o o Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgou um manifesto de apoio ao Inpe. Os funcionários do instituto também se posicionaram contra as críticas recebidas nesta segunda, em frente à sua sede, em São José dos Campos.

O desmatamento é real!

O monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais revela que desde 2015 a destruição da Floresta Amazônica vem apresentando uma curva ascendente. O pico aconteceu em 2016, quando foram detectados 6,25 hectares de desmatamento, mas no ano seguinte houve uma leve redução.

O mais alarmante, todavia, é que os gráficos do instituto indicam que em julho de 2019 já foi desmatado praticamente o mesmo volume de floresta do que no ano de 2018 inteiro.

E não é só o Inpe que mostra o aumento do desmatamento. O Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) também faz um levantamento mensal da destruição da floresta. Organização, sem fins lucrativos, formada por pesquisadores brasileiros e fundada em Belém há 29 anos, usa o sofisticado Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), há mais de uma década, para monitor e divulgar dados sobre o desmatamento e degradação da Amazônia Legal.

No final de junho, o Imazon anunciou que a Amazônia teve quase 800 km2 de desmatamento em maio: aumento de 26% em relação a 2018. E essa tendência vem sendo registrada mês a mês pela entidade.

Não há como esconder a realidade. Entretanto, o presidente Jair Bolsonaro parece que pretende controlar o que deve ou não ser divulgado parar não “manchar”, ainda mais, a imagem do Brasil no exterior. Ele disse que quer ser informado, em primeira mão, sobre os números da devastação.

Deveria estar preocupado em combater a derrubada de árvores na Amazônia e não em contestar dados de órgãos sérios e que sempre mereceram a confiança de governos e da sociedade brasileira.  

* O PRODES, sistema pioneiro do INPE baseado em satélites para monitorar o desmatamento da Amazônia, possui mais de mil citações na literatura científica pela excelência de seus dados. O INPE monitora constantemente a qualidade dos dados sobre desmatamento, que atualmente apresentam índice superior a 95% de precisão. A política de transparência dos dados, adotada pelo INPE desde 2004, permite o acesso completo a todas as informações geradas pelos sistemas de monitoramento, possibilitando avaliações independentes pela comunidade usuária, incluindo o governo em suas várias instâncias, a academia e a sociedade como um todo.

Como instituição pública de pesquisa, o INPE acompanha as inovações científicas e tecnológicas na área de observação da terra por satélites, para a constante melhoria de seus sistemas de monitoramento e, desde 1972, coordena um curso de pós-graduação em sensoriamento remoto com o mais alto conceito da CAPES.


A transparência e a consistência da metodologia do INPE são reconhecidas internacionalmente. Os dados sobre desmatamento estão disponíveis à sociedade pelo Portal TerraBrasilis.

Foto: CIFOR/ Neil Palmer/CIAT/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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