A maldição das hidrelétricas do PAC


Tem, pelo menos, uns 10 anos que a gente avisa.

Quando foi lançada a segunda parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2010,  já acumulando mais de 50 usinas hidrelétricas (UHEs) com, pelo menos, algum tipo de ação preparatória, muita gente já estava rouca de gritar que era de uma insensatez descomunal trocar os maiores rios do mundo por energia elétrica. O colapso da matriz energética baseada em água que, em algum momento, iria parar de vir dado o ritmo de degradação da vegetação nativa no país, era límpido e cristalino como as corredeiras que um dia existiram na volta grande do Xingu.

Avisamos que a escolha por UHEs não era escolha por energia limpa nem renovável porque obstruíam as artérias por onde corre o sangue das florestas, ao mesmo tempo em que aumentavam os conflitos em torno da água, já escassa em várias regiões. Anunciamos que usinas a fio d’água só resolviam, e parcialmente, o menor dos problemas ambientais envolvidos, que é o desmatamento (ou afogamento) da floresta na área do reservatório, tendo efeito nulo em mitigar os catastróficos impactos sobre os pulsos de inundação das várzeas e lagoas marginais, sobre as taxas reprodutivas, sobre o colapso do fluxo gênico de populações separadas pela barragem ou sobre a mera passagem de fauna. E que, ao mesmo tempo, sacrificavam a grande vantagem das UHEs, de atuar como uma imensa bateria capaz de liberar energia de forma rápida e “barata” nos momentos de baixa da produção.

Falhamos miseravelmente em publicizar as denúncias na mesma proporção em que acertamos a previsão dos impactos.

Os reservatórios do país alcançaram o fim de 2017 em absoluto colapso, acompanhando o colapso de seus respectivos rios. A represa de Sobradinho, no São Francisco, que na época de lançamento do PAC 1 passava a estiagem com 70% do volume, deve chegar, ainda este ano, ao volume morto (nível 0, sim, zero!) pela primeira vez na história, quando terá as turbinas desligadas.

O Velho Chico já agoniza há vários anos, alternando entre secar na nascente e não ter forças para alcançar o mar, não cumprindo satisfatoriamente nenhum dos usos a que se destina: irrigação, navegação, pesca, geração de energia ou abastecimento. Uma consulta ao Google mostra a penúria dos rios e reservatórios de todo o nordeste e sudeste, e de parte do sul e centro-oeste. De maneira inacreditável ainda tem “técnico” e “especialista” (em cimento) defendendo uma transfusão do rio Tocantins, que também enfrenta severa e quase inédita estiagem, para o Velho Chico, cujas próprias obras de transposição caminham para atingir a maioridade sem terem levado água a lugar algum – aliás, isso foi falta de aviso, amigo? Não foi não, né?

Parêntese: mais de R$ 10 bilhões já se foram nessa brincadeira de transposição, enquanto um projeto autônomo de distribuição de cisternas rurais no nordeste brasileiro, criado por um pedreiro baiano que instalava piscinas em São Paulo, é eleito como a melhor iniciativa de combate à desertificação no mundo. O programa contava com algum apoio do governo até este ano, mas já foi anunciado pelo atual governo que será praticamente extinto em 2018.

A esquizofrenia da política do Brasil assassina rios colossais com tomada de decisão à revelia da ciência, ao mesmo tempo em que toca obras faraônicas que se justificariam pelo colosso de seus rios.

Nesta agenda da destruição, desastres como o da Samarco, que operava à revelia de qualquer regulamentação, são apenas o golpe final. O próprio Rio Doce já estava condenado com a receita de construção de barragens em qualquer massa de água que ouse se mover na Mata Atlântica, de preferência com fraude no licenciamento ambiental, somada ao retalhamento da legislação de proteção às áreas de recarga de aquíferos, beiras de rios e encostas (o Código Florestal), ao incentivo a um modelo predatório exportador de commodities agrícolas e minerais cujo grande mérito tecnológico culminou em jogar agrotóxico de avião e ao inesgotável lançamento de esgoto in natura nos corpos hídricos.

O colapso da disponibilidade hídrica e a falência da aposta brasileira na matriz hidrelétrica já tem como resultado o aumento exponencial do uso de termelétricas como emergência, e já se considera que elas ocuparam o lugar das UHEs como o backup para os momentos em que as fontes mais ‘limpas’ deixam de produzir: a solar quando chega a noite, a eólica quando falta vento e, agora, as UHEs, desde que começou a faltar água no país mais aguado do mundo.

O resultado é uma matriz muito mais poluente após investimentos horripilantes no incentivo a um modelo vendido como mais limpo. Enquanto o Brasil reclama da crise culpando a burocracia e a resistência cada vez maiores na hora de dizimar floresta para construir usina, a Inglaterra comemora que as eólicas em alto mar já são mais baratas que a energia nuclear depois de maciço investimento do governo.

Dilma nos ensinou que não dá para estocar vento. O século XXI nos ensina que não vai rolar de estocar água. Pelo menos dez anos se passaram e continuamos parados no mesmo lugar, choramingando que o país que mais tem potencial para hidráulica, solar e eólica no mundo precisa parar de investir todo o seu patrimônio material e imaterial em uma fonte só, uma grande fraude, que nunca foi barata, nunca foi limpa e nunca foi renovável! Que soterrou o Parque Nacional das Sete Quedas, criou Balbina e destruiu as corredeiras do Xingu. Que só é viável quando ignora os custos ambientais mais elementares e condena milhares de brasileiros à miséria sem nenhum tipo de assistência.

Acima de tudo, que ignora que sua matéria prima – a água – é como o almoço de um liberal da USP daqueles que faz videozinho em defesa de Belo Monte: ela não existe grátis. Produzir água significa expandir as áreas protegidas sobre áreas potencialmente “produtivas”, reforçar e fazer cumprir a legislação ambiental e investir maciçamente em saneamento e energia alternativa.

Daqui um punhado de décadas vamos lamentar os tempos insanos em que matamos nossos rios e florestas, de maneira irreversível em vários aspectos, por uma fonte de energia de custo-benefício injustificável e que já dava sinais claros de que estaria obsoleta rapidamente.

Foto: Reprodução do documentário “Belo Monte depois da inundação”, de Todd Southgate

Biólogo e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG, é especialista em políticas públicas para a conservação da biodiversidade. Trabalha com financiamento e gestão de projetos socioambientais e áreas protegidas, mas sempre acha tempo pra conhecer, descrever, fotografar e observar a vida no Brasil

André Aroeira

Biólogo e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG, é especialista em políticas públicas para a conservação da biodiversidade. Trabalha com financiamento e gestão de projetos socioambientais e áreas protegidas, mas sempre acha tempo pra conhecer, descrever, fotografar e observar a vida no Brasil

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