O jovem indígena Edivan Guajajara estava no lugar certo, na hora certa, no início de 2020, quando a pandemia da covid-19 foi confirmada no Brasil. Há três meses, ele participava da produção de um documentário sobre defensores da floresta amazônica – projeto dos diretores Chelsea Greene e Rob Grobman, dos Estados Unidos. Chamado para colaborar com a logística e a tradução para o tupi, durante entrevistas, logo se tornou camera man devido a seu interesse pelas filmagens.
Com o alerta da doença e a determinação da OMS – Organização Mundial de Saúde para que todos ficassem em quarentena, os cineastas voltaram a seu país, e fizeram um pedido muito especial à Edivan: que continuasse as filmagens. Foi ele, inclusive, quem deu nome ao filme: Somos Guardiões (We are Guardians).
“Os diretores americanos decidiram me nomear como diretor porque o prazo estava acabando. Foi uma responsabilidade muito grande naquele momento, porque o filme não podia parar”, contou à Agência Brasil. Chelsea e Bob retornaram ao Brasil próximo do final da montagem.
O documentário conta as histórias de guardiões indígenas e líderes que lutam pela proteção da Amazônia contra invasões de madeireiros, garimpeiros e agricultores. Como protagonistas, a liderança Puyr Tembé (que atua como secretaria de povos indígenas do governo do Pará) e o guardião florestal Marçal Guajajara (os dois estão na foto de destaque).
Produzido pela Fisher Stevens, vencedora do Oscar 2010, com o documentário The Cove (A Enseada), o documentário conta com produção executiva de Leonardo DiCaprio e a presença de ativistas indígenas e ambientais e lideranças como Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, dando voz também a invasores e a empresas globais como JBS, Cargill e Bunge, a fim de explorar, em detalhes, a gravidade do desmatamento na região.
Premiado como melhor documentário em festivais de cinema internacionais e nacional (Autochtone First People’s, em Montreal, Raindance, em Londres, e 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo), o primeiro trabalho audio-visual de Edivan, também conquistou o público da COP 28 (Conferência do Clima da ONU), em Dubai, nos Emirados Árabes, em novembro e dezembro de 2023, onde foi exibido em sessões especiais.
Na última sexta-feira (26), foi aplaudido pelo ator e ativista Mark Ruffalo, logo após exibição em Nova York.

E ainda passou por algumas capitais no Brasil com sessões únicas: em Cuiabá, Mato Grosso (25), em Belém do Pará e em São Paulo (27), onde contou com as presenças de Puyr e Edivan (assista aos discursos de ambos no final deste post).
E, hoje, 28 de janeiro, estreia na plataforma de streaming Netflix, para a América Latina.
“Estou emocionado. Queremos mostrar que a luta não é só nossa”, declarou Edivan à Agência Brasil. “Tratamos de mudanças climáticas, da invasão dos territórios, depolíticas públicas e, também, das empresas multimilionárias que fornecem e apoiam grandes destruições. Então, este é um filme que fala de muitas coisas muito importantes”.
E ele destaca: “O filme retrata a vida dos povos indígenas como os primeiros protetores dos seus territórios. Só que a proteção dos territórios que os indígenas fazem não é só para eles. É uma proteção que serve para toda a humanidade. O sentido do filme é que todos devemos ser guardiões”.
Por isso, muito além de um filme, os envolvidos (diretores, protagonistas e produtores) querem que o documentário seja um movimento em prol dos territórios indígenas. Edivan entende que Somos Guardiões pode ajudar a conscientizar e educar os espectadores da Netflix, não só no Brasil, como na América Latina.
Locações e protagonistas
As gravações foram realizadas principalmente em dois territórios – no Arariboia, no Maranhão, e Alto do Rio Guamá, no Pará -, mas também em outros locais mantidos em sigilo. “A humanidade é culpada por certas coisas estarem acontecendo hoje em dia, como o aquecimento global, o desmatamento e essas queimadas descontroladas”, declara Edivan, oriundo da aldeia Zutiwa (Arariboia).
Muito orgulhoso de contar a história de Marçal Guajajara, guardião da floresta do território Arariboia, ele destaca que o indígena lidera o monitoramento e a fiscalização de seu território para expulsar invasores, como caçadores.

Sobre Puyr Tembé, o cineasta conta que a ativista saiu de seu território para também defender os povos indígenas na cidade, transitando muito bem entre os dois espaços.
Ele conta, ainda, que a câmera ficava ligada o tempo inteiro e que pedia que todos esquecessem que estavam fazendo um filme. “A gente acompanhava o dia a dia deles normalmente. Nada de ficção. Foi tudo acontecendo”.
Ao ser perguntado sobre a cena que mais o impactou, ele diz ter dificuldade, mas, em seguida, diz que a parte final é muito emocionante. “A gente espera que as pessoas se sintam sensibilizadas para as causas indígenas e que podemos lutar juntos. A gente está fazendo nosso trabalho”.
Primeiro diretor indígena na Netflix
Muito satisfeito com o lançamento e a repercussão de seu primeiro trabalho para o cinema, Edivan já pensa no próximo: “Sou o primeiro indígena que tem um filme na Netflix e essa visibilidade é importante. O meu povo está muito feliz de estar mostrando seu trabalho mundo afora. Não há preço nenhum que possa pagar por essa felicidade que a gente está sentindo agora”.
A história do cineasta indígena estreante com a imagem começou quando aprendeu a fotografar e a filmar com o celular, em 2015, e foi de puro encantamento.
Dois anos depois, quando integrou o coletivo Mídia Índia em parceria com outros comunicadores indígenas, sonhava em dar mais visibilidade à luta do seu povo para garantir a proteção territorial e a defesa ambiental.
Agora, assista ao trailer de Somos Guardiões e, em seguida, aos discursos de Puyr Tembé e Edivan Guajajara, durante o lançamento em São Paulo: