Considerado uma das maiores lideranças do movimento indígena no país, no dia 18/2, Ailton Krenak recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Juiz de Fora, de MG.
O reconhecimento deve-se ao trabalho que ele vem desenvolvendo desde 2012 na instituição, tanto por meio de palestras para o Movimento Encontro de Saberes, que passou a integrar, como também em curso de especialização sobre Cultura e História dos Povos Indígenas e em disciplina sobre artes e ofícios, ministrada em outros cursos. Esse conjunto de ações tem ajudado a transformar a visão sobre a importância da pluralidade dos saberes tradicionais na academia.
No vídeo que mostra os melhores momentos da celebração, Krenak destaca o pioneirismo da UFJF ao abrir espaço para outras culturas e para essa pluralidade: “Saúdo muito o gesto da universidade porque ela está recebendo, em seus diferentes cursos, pessoas de origem indígena e de origem africana nas salas de aula. Daqui, vão sair brasileiros que, por sua origem, não frequentavam o ambiente da academia, mas que, agora, estão produzindo conhecimento e novas visões sobre a nossa realidade e sobre as nossas possibilidades como uma sociedade plural”.
Ele declarou seu desejo de que outras universidades sigam o exemplo da UFJF para que nós estejamos mais adequados e contemporâneos com o tempo que vivemos hoje:
“O mundo exige novas posturas com relação à ciência, à pesquisa e ao conhecimento. Os cânones que orientaram o conhecimento até hoje, se mantiveram limitados pela visão europeia, colonial. Nós estamos numa empreitada para descolonizar as nossas mentalidades e a universidade tem papel fundamental nisso”. E acrescentou: “Embora esse reconhecimento tenha chegado junto com os meus 63 anos, é um ponto de partida, não de chegada”.
Para Daniel Sales Pimenta, professor do departamento de Botânica da UFJF e coordenador do curso de especialização sobre os saberes indígenas, o que Krenak fez foi muito além de compartilhar seus conhecimentos e sua sabedoria – que são do povo Krenak. “Ele participa do movimento indígena há mais de 20 anos e conhece muito bem a diversidade desses povos. Por isso, o processo deu muito certo e a universidade inteira encampou”.
A cerimônia contou com a presença de outros líderes indígenas – como Daniel Mundukuru, Dauá Puri e Álvaro Tukano – e do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, que, na ocasião, disse acreditar que esta homenagem deverá ecoar positivamente por todo o Brasil.
“Reconhecer o saber indígena é uma postura profunda e talvez ajude a abrir um novo ciclo de relação com os povos indígenas. O Brasil insiste em não reconhecer esses saberes”. E acrescentou: “Enquanto os grandes laboratórios de biotecnologia, de farmácia e de alimentação do mundo veem aqui piratear os saberes indígenas – reconhecendo sua importância –, nós, brasileiros, ainda estamos atrelados a uma visão muito estreita e mesquinha. Acredito, então, que o gesto da universidade inaugure um novo ciclo de relação com esses povos”.
No mesmo vídeo, o vice-reitor em exercício, Marcos Chein, também destacou a importância do trabalho desenvolvido com Krenak na UFJF, levando em conta a relação entre poder e saber: “Ele nos ajudou a romper com o que chamamos de colonialidade do poder e do saber. A universidade não pode ter monopólio do conhecimento cientifico e, por isso, só nos resta adotar duas frentes: em uma, romper com essa ignorância, com essa colonialidade do poder, e, em outra, romper com o desconhecimento, com a falta de informação, valorizando nossa ancestralidade, nossa raiz e nossa cultura ameríndia”.
Krenak, sempre guerreiro da paz
Jornalista, ambientalista e escritor, ele é um defensor incansável dos direitos dos índios e do meio ambiente. Coordena a Rede Povos da Floresta, entre outras ações, e foi um dos brasileiros que mais lutou para garantir direitos fundamentais estabelecidos na Constituição de 1988. Na época, Krenak ficou muito conhecido pelo discurso histórico que fez no Congresso Nacional, durante o qual pintou o rosto como guerreiro, com tintura de jenipapo, como mostra o vídeo abaixo.
Leia também:
A rede que balança conta histórias de magia
Fotografar a vida é estar atento a todo acontecimento e perceber poesia em cada festo de luz
Foto: reprodução de vídeo