Parece inacreditável que alguns peixes escolheriam justamente o animal no topo da cadeia alimentar dos oceanos para dar uma esfregadinha e se livrar de sujeiras, parasitas incômodos ou pele morta em seu corpo. Mas foi isso exatamente o que descobriram pesquisadores da University of Western Australia ao analisar diversas interações entre esses animais e tubarões.
Em um artigo científico divulgado na publicação internacional Plus One, eles relatam como esse comportamento foi registrado entre grandes peixes pelágicos, aqueles que vivem nas “colunas de água”, nem perto da costa, nem muito ao fundo do mar, geralmente até os 200 metros de profundidade, e que tendem a formar cardumes como forma de proteção.
“Parasitas podem afetar negativamente a aptidão de seus hospedeiros, drenando recursos e desviando a energia do crescimento, reprodução e outras funções corporais. Os peixes pelágicos são hospedeiros de uma gama diversificada de parasitas, no entanto, seu ambiente oferece poucas opções para sua remoção”, explicam Christopher Thompson e Jessica Meeuwi, co-autores do estudo.
Ainda segundo os cientistas, a pele do tubarão é feita de pequenas estruturas semelhantes a dentes, chamadas de “dentículos dérmicos”, com uma textura semelhante a de uma lixa. No passado, inclusive, a pele desse animal chegou a ser utilizada para esse fim. É por isso que os peixes observados na pesquisa acham essa superfície ideal para se esfregarem.
Inicialmente com o objetivo de monitorar as populações de peixes nos oceanos, as milhares de horas de imagens analisadas pelos pesquisadores, gravadas com a ajuda de câmeras subaquáticas, foram feitas em três bacias oceânicas – do Atlântico, Pacífico e Índico – e envolveram atuns, tubarões azuis e makos.
“Notamos que em geral esses peixes preferem esfregar a cabeça, os olhos, a cobertura branquial e superfícies laterais – áreas onde os parasitas são comumente encontrados e onde os danos provavelmente teriam um impacto substancial na aptidão”, afirma Meeuwig.
Obviamente que esse tipo de comportamento foi percebido entre peixes maiores e tubarões com menos temor de serem devorados por esses últimos.
“O oceano aberto é o maior habitat do planeta, mas é um desafio estudá-lo. Como resultado, há muito poucas observações diretas do comportamento natural dos animais em mar aberto. As interações entre esses animais não são apenas intrigantes porque podem ser novas para nós, mas também por causa de suas possíveis implicações”, dizem os pesquisadores num artigo para o site The Conversation. “A remoção de parasitas tem claros benefícios de aptidão, e os animais mais aptos são mais propensos a se reproduzir e passar seus genes para a próxima geração. Isso levanta a questão do que aconteceria se o número de tubarões se tornasse muito baixo para os peixes encontrarem seus esfregadores. Haveria uma perda líquida de aptidão nesses peixes?”.
Para os cientistas da universidade australiana esta é uma questão importante, dado o rápido declínio das populações de tubarões em todos os oceanos do planeta. Só na costa de Queensland, na Austrália, algumas espécies desses animais diminuíram mais de 90%.
Algumas das interações percebidas pelos pesquisadores
(Fotos: reprodução artigo científico Plus One)
Em maio deste ano também escrevi sobre outro estudo que mostrava como golfinhos esfregam o corpo em corais medicinais para tratar doenças de pele. O comportamento até então desconhecido pela ciência foi observado por pesquisadores que coletaram amostras dos corais e descobriram que eles possuíam propriedades antibacterianas, antioxidantes e hormonais.
Foto de abertura: Christopher D. H. Thompson/The Conversation