Eduardo Kobra tem cerca de três mil murais espalhados pelo Brasil e por mais 35 países nos cinco continentes. Em todos os trabalhos que realiza, o artista busca democratizar a arte, transformando ruas, avenidas, estradas e montanhas em galerias a céu aberto.
No início deste mês, ele pintou mais uma obra de destaque, desta vez no Walt Disney World Resort, na Flórida (EUA), a convite do Disney Springs Art Walk: a Canvas of Expression, projeto que reúne murais de artistas de diversas partes do mundo.
O mural mede 29 metros de comprimento e 5 metros de altura – cerca de 145m² – e apresenta sete crianças que simbolizam “a infância e a alegria do brincar”. Com ele, Kobra torna-se o primeiro artista brasileiro presente no parque de entretenimento mais famoso do mundo.
“Sou fascinado pela atmosfera de sonhos realizados do complexo, e me inspirei nisso para criar a obra. Ao mesmo tempo que o mural é feito para todos, fico particularmente orgulhoso em saber que os brasileiros encontrarão um pedacinho do nosso país na Disney”, conta ele, revelando uma curiosidade sobre a pintura:
“O menino de chapéu [paixão de Kobra!] é inspirado no meu filho. A imagem dele se conecta com a minha criança interior. Foi a sensação que tive desde o primeiro momento em que pisei aqui. Então, aquele menino no mural é o meu filho e, também, sou eu. No mural, estão simbolicamente todas as crianças e todos os adultos do mundo”.

E Kobra ainda revela que o convite para esse trabalho coincide com um momento muito bonito de sua trajetória. “Pintar na Disney carrega um significado especial: o primeiro lugar em que pude mostrar meu trabalho foi em um parque de diversões, em 1992, na cidade de São Paulo”.
Trata-se do extinto Play Center, sobre o qual o artista conta no documentário Kobra: Autorretrato, da diretora Lina Chamie, que estreou em 17 de novembro nos cinemas brasileiros (como contei aqui) – e, exatamente hoje, também em Miami, nos EUA (ele contou em seu Facebook).
“Foi lá [no parque], inclusive, que conheci, em 95, minha esposa, Andressa. Então, pintar um mural no Walt Disney World ao lado da Andressa e do meu filho, Pedro, dá uma sensação de coerência, de trabalho e de realização não apenas pessoal, mas da minha família e dos amigos que há tantos anos acreditam no meu trabalho e torcem por mim”, acrescenta.
Homenagem à Senna e Hamilton
Neste mês, também, Kobra fez uma homenagem a um sujeito mundialmente famoso, engajado em causas e projetos sociais: o piloto britânico Lewis Hamilton, heptacampeão de Fórmula 1.
Ele esteve no Brasil para participar do Grande Prêmio, realizado no Rio de Janeiro, mas antes passou em Brasília para receber o título de Cidadão Brasileiro, na Câmara dos Deputados, e em São Paulo a convite do Instituto Ayrton Senna para se emocionar mais um pouquinho.
Hamilton é conhecido dos brasileiros não só por ser campeão mundial sete vezes, mas também pelo amor e admiração que ele sempre declarou ao piloto Ayrton Senna, seu ídolo.
Kobra reuniu os dois campeões numa mesma obra, que doou para o instituto e para a Escola Estadual Lasar Segall: pintou Hamilton segurando o capacete de Senna numa das paredes da escola, que tem sete metros de comprimento por 12 metros de altura ou cerca de 84 m² (quem quiser conhecer, fica na Rua Dr. Tirso Martins, 211, Vila Mariana, na zona Sul de São Paulo).

Nesse dia, Hamilton conversou com as crianças e as motivou – revelou que sofria bullying na escola porque era não era um bom aluno – e, em seguida, participou da inauguração do mural. Muito emocionado, pediu uma lata de spray para também assinar a obra. “Espero que isso traga motivação e cor para os alunos daqui”, declarou.
Os dois maiores murais do mundo
Entre os três mil murais que Eduardo Kobra já pintou pelo mundo, estão dois gigantes, que entraram no Guinness Word Record (Livro Mundial de Recordes) como o “maior mural do mundo” do ano.
Um deles é Etnias – Todos Somos Um, executado na fachada de um antigo armazém, na região da Zona Portuária da capital fluminense, em virtude dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016. Ele tem três mil m² e, para sua produção, foram usados três mil latas de spray, 700 litros de tinta colorida e 1.800 litros de tinta branca para o fundo.

Para entregar a pintura antes da Rio-2016, Kobra e sua equipe trabalharam 12 horas diárias durante dois meses. E o artista ainda estima que, para chegar ao resultado final do desenho, levou cerca de três meses, devido à pesquisa profunda que teve que realizar sobre os povos nativos que vivem em regiões diversas do planeta.
Ele também se inspirou na mensagem de união transmitida pelos cinco anéis olímpicos e escolheu representantes de cinco tribos, uma de cada continente – huli (Oceania), mursi (África), kayin (Ásia), supi (Europa) e tapajós (Brasil/Américas) -, que continuam sendo uma grande atração. O mural é belíssimo!
O outro “maior mural do mundo” da carreira de Kobra – também incluído no Guinness – é Cacau, pintado em 2017 na fachada da fábrica de chocolates Cacau Show e que pode ser admirado por quem passa pela Rodovia Castelo Branco, em Itapevi (SP). Ele ocupa 5.742 m², com um detalhe: continua nas laterais, repare.
Causa uma sensação boa ver essa obra gigante a caminho de qualquer destino via Castelo Branco. Quem passa por essa estrada todos os dias certamente nem a nota mais, mas sempre há novos viajantes que devem se maravilhar diante da dimensão de Cacau, principalmente à noite.
Lina Chamie escolheu fazer filmagens noturnas para apresentar o mural, bem iluminado, em seu documentário sobre a trajetória do artista. Confesso que fiquei encantada ao revê-la na tela do cinema.
O Davi de Kobra
E ainda quero destacar aqui, uma obra do artista que não está no Guinness, mas me encanta sempre que vejo as imagens porque me faz viajar, me faz imaginar a sensação de estar nas pedreiras de Carrara, na Itália, no local onde Michelangelo e outros artistas italianos buscavam esse material para produzir suas esculturas.
Já pensou como deve ser pintar no mármore, a mil metros de altitude?
Não sei como Kobra foi parar lá. Imagino que alguém o convidou para essa aventura maravilhosa, que aconteceu em 2017 – antes do mural Cacau.
Lá, ele “traduziu” o Davi de Michelangelo, com seu talento, num espaço de 12 metros de largura por 20 de altura. Esta deve ser mais uma história fascinante que o artista tem para contar ao Pedrinho, seu filho, quando ele crescer mais. O mural que pintou num paredão da sede da ONU, em Nova York, em setembro deste ano, Kobra já mostrou a ele, dia desses (foto abaixo).
Foto (destaque): Walt Disney World Resort/divulgação