O muralista brasileiro Kobra, um dos maiores nomes da arte de rua no mundo, é retratado em documentário sensível dirigido por Lina Chamie, que estreia em 17/11

O muralista brasileiro Kobra, um dos maiores nomes da arte de rua no mundo, é retratado em documentário sensível dirigido por Lina Chamie, que estreia em 17/11
Foto: reprodução do filme

Atualizado em 13/11/2022 devido à exibição do documentário no DOC NYC
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“Se eu não pintar, significa morrer. Não sou feliz fazendo outra coisa. Os meus cadernos eram todos cheios de desenhos. Eu só queria pintar e desenhar”, conta o muralista brasileiro Kobra no documentário Kobra — Autorretrato, dirigido por Lina Chamie, que estreia em 17 de novembro. 

Antes da estreia, o filme já participou do Festival do Rio, na capital fluminense, e da 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (o cartaz a mostra é criação do artista e inspirou a vinheta: veja no final deste post), ambos em outubro.

O documentário também foi selecionado para participar do DOC NYC, um dos maiores festivais de documentários do mundo, realizado em Nova York, em 13 e 14 de novembro.

O cartaz do filme destaca o mural pintado por Kobra na fachada da City-As-School, uma escola pública em West Village, em Manhattan. Ele mostra retratos de “cinco imigrantes reais que chegaram a Nova York cerca de 100 anos atrás e passaram pela Ilha Ellis, o principal ponto de entrada de estrangeiros que vieram para os Estados Unidos entre o fim do século 19 e o início do século 20, conta Kobra

No relato registrado de maneira sensível por Chamie, durante uma noite de insônia, ele revela que precisou “encontrar maneiras de ser autossuficiente” para driblar o preconceito que sofreu devido ao estilo de sua arte: “Na sociedade, de uma forma geral, sempre alguém ia me chamar de vagabundo”. 

O filme conta a história do artista desde a infância difícil na periferia, passando pela grafitagem ilegal pelos muros de São Paulo, a insônia e a depressão que o acompanharam durante boa parte da vida, como também a entrega ao álcool e a medicamentos que – ao avesso – o ajudavam a prosseguir, até o reconhecimento mundial. 

Hoje, ele assina mais de três mil murais em 35 países! Esse número poderia ser bem maior não fosse a pandemia, que o levou a recusar cerca de 40 convites do exterior.

Muito além das formas e das cores

Os primeiros desenhos em muros foram feitos por Kobra em 1987, aos 12 anos, em Campo Limpo, sem o apoio da família, que não aceitava o grafite como um trabalho e o expulsou de casa. 

Ao longo de sua trajetória, Kobra compreendeu que sua obra vai muito além das formas geométricas e das cores intensas que se transformaram em marca registrada, tornando qualquer trabalho pintado por ele rapidamente reconhecido em qualquer parte do mundo. 

Foto: reprodução do documentário

“O que mais apareceu no meu trabalho foram as formas e as cores. Mas eu tenho uma busca muito mais intensa do que isso. Por trás do que eu pinto, tem algo que quero dizer, tem alguma mensagem, tem história. Também é uma busca interior, minha”. 

A arte que produz a céu aberto é uma voz política e democrática, que encanta, ao mesmo tempo que alerta o público para temas urgentes da humanidade

Arte engajada pelo mundo

Quem se lembra do mural Todos Somos Um (Etnias) pintado por Kobra nas paredes de um antigo armazém na zona portuária do Rio de Janeiro e que entrou para o Guiness, o livro mundial dos recordes

Em 2016, o artista se inspirou na mensagem de união transmitida pelos cinco anéis do logotipo dos Jogos Olímpicos, que começariam em seguida, e escolheu etnias dos cinco continentes, pintando um representante de cada uma em 3 mil m2 (15 metros de altura por 170 metros de comprimento): lá estão os huli (Oceania), os mursi (África), os kayin (Ásia), os supi (Europa) e os tapajós (Américas/Brasil). 

O painel Todos Somos Um, Etnias na zona portuária do Rio de Janeiro entrou para o livro dos recordes por ser o maior grafite do mundo / Foto: divulgação

Em suas obras – muitas aparecem no documentário, ainda que rapidamente -, Kobra fala de paz, de amor e compaixão, de educação e os livros, de empatia, de causas ecológicas como o desmatamento, a poluição do ar e o aquecimento global, brada contra a exploração dos animais como em rodeios, defende as mulheres (e pede por um planeta mais “feminino”), os trabalhadores e os refugiados

“Em qualquer guerra, estou do lado da paz”, diz o artista que pinta. esperança em suas obras / Foto: Drone Cyrillo

Na pandemia, criou um mural para ajudar os moradores de rua e homenageou todos que lutaram na linha de frente para salvar vidas, com duas obras no Hospital das Clínicas: uma entregue no aniversário de São Paulo – Ciência e Fé -, em janeiro deste ano passado, e outra em junho – Metamorfoses.

Aliada à divulgação de sua nova obra, durante a pandemia, o artista lançou a campanha ‘A Arte de Ajudar’ para arrecadar dinheiro para moradores de rua, um dos grupos mais vulneráveis à covid-19 / Foto: reprodução Facebook

Durante sua trajetória prestou muitas outras homenagens a personalidades mundiais como Anne Frank, vítima do Holocausto, o ativista indiano Gandhi e Malala Yousafzai, ativista paquistanesa, além do cantor David Bowie, do mais importante líder africano Nelson Mandela, do líder indígena Raoni, do cientista alemão Albert Einstein, do ativista Martin Luther King, do piloto Airton Senna e do arquiteto Oscar Niemeyer. 

A cidade que reúne a maior quantidade de painéis assinados pelo muralista é São Paulo, seguida por Nova York, onde, em setembro, ele pintou O Futuro é Agora! na fachada da ONU, convidado quem passa por ali a refletir sobre o futuro do clima e do planeta. 

O mural começou a ser produzido logo depois da exposição de reproduções de algumas de suas obras, realizada no saguão da organização mundial, e foi inaugurado um dia antes da Assembleia Geral realizada anualmente pela ONU, que reúne os principais líderes do mundo. 

Projeto de restauração

Em Nova York, na HighLine, também estava uma de suas obras mais famosas – O Beijo, de 2012, inspirada numa foto do norte-americano Alfred Eisenstaedt que celebrava o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas ela foi apagada – estaria desgastada pelo tempo? -, e o muro, pintado de vermelho.

Desgastado pelas intempéries está o painel gigante na zona portuária do Rio de Janeiro, como ele observou ao visitá-lo na semana passada, quando estava na cidade e declarou à reportagem de O Globo, logo após a exibição do documentário no Festival do Rio: 

“Não podemos deixar esse mural simplesmente desaparecer. É importante criar murais novos, mas estou começando um projeto para manter, preservar e restaurar os que já foram feitos”. 

O muralista ainda lembrou que, no início, a street art era considerada como “uma arte efêmera, que pode se desgastar, pode ser apagada”, mas ele tem um outro olhar sobre a questão e, por isso, procura parceiros para dar início ao projeto de restauração e manutenção de seus trabalhos pelo Brasil. 

Afinal, “não há diferença entre uma obra que é feita para um museu, para uma galeria, numa tela ou no muro. Tudo é arte!”, como Kobra destaca no documentário”. E completa: “Prefiro muito mais ser visto através dos meus desenhos. Isso já é meu autorretrato”.  

Paixão e missão

Desde o primeiro dia em que pintou um muro, Kobra nunca mais parou. “Foi uma conexão muito intensa com esse universo da rua. Desde o primeiro dia em que peguei um spray na mão, senti que faria aquilo pelo resto da minha vida, independentemente das circunstâncias”, contou ao O Globo. E acrescentou: 

“Sigo com a mesma paixão e a mesma dedicação de quando comecei. Cada convite que recebo não é apenas um trabalho, é um orgulho, uma missão”. 

A seguir, o trailer do documentário sobre a trajetória de Kobra e o cartaz que ele criou para a Mostra de Cinema de SP, que inspirou a vinheta do evento, com as cores fortes e as formas geométricas marcam toda sua obra.

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.