Morre Paulo Marubo, líderança da Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do estado do Amazonas

Morre Paulo Marubo, líderança da Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do estado do Amazonas

Por Leanderson Lima, com colaboração de Elaíze Farias*

Uma das maiores lideranças indígenas da Amazônia, o ex-coordenador da Univaja – União dos Povos do Vale do Javari, Paulo Dollis Barbosa da Silva, o Paulo Marubo, morreu neste sábado (3), às 10h20, na Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, em Manaus, no Amazonas.

Paulo Marubo tinha 44 anos e lutava contra uma hepatite crônica decorrente de “diversas epidemias e surtos epidemiológicos, e teve falência múltiplas de órgãos”, informou a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Familiares planejaram para ontem a remoção do corpo da liderança para o município de Atalaia do Norte (distante 1.137 km de Manaus), onde fica localizada a Terra Indígena Vale do Javari. O corpo deve ser enterrado hoje (5).

Paulo estava internado no hospital de Medicina Tropical desde 30 de janeiro. Ele sofria de hepatite há muitos anos, umas das enfermidades que mais vitimam indígenas do Vale do Javari. Há décadas que os indígenas da região denunciam que a ocorrência da doença atinge quase toda população do território e pedem medidas para reduzir a infecção.

Antes da internação, ele ficou durante dois dias no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, também em Manaus. Havia sido transferido para lá do município de Tabatinga (AM), no Alto Solimões. Na semana passada, Manoel Chorimpa, irmão de Paulo, fez apelos para agilizar a transferência dele para Manaus, quando já estava em situação crítica. Paulo passou mal em sua aldeia, no final de 2023, e chegou a ser enviado para um hospital de Cruzeiro do Sul, no Acre, no início de 2024.

Em nota publicada em rede social, a Coiab se manifestou sobre a morte do líder indígena. “[A Coiab] recebe com profunda tristeza a notícia do falecimento de Paulo Marubo, liderança da Terra Indígena do Vale do Javari (TIVJ), no Amazonas”. 

A Coiab lembrou que Paulo Marubo atuou como professor na TI Vale do Javari e foi coordenador-geral da Univaja, “contribuindo para a implantação de projetos importantes de proteção territorial da TI, criando condições para que a floresta e as vidas que ali habitam sigam em pé”.

O procurador jurídico da Univaja, Eliésio Marubo, sobrinho de Paulo, lamentou a morte do líder.

x“Paulo Marubo vem de uma escola política alinhada com os princípios da nossa tradição. Ele criou uma nova forma da Univaja trabalhar, de enfrentar os desafios da nossa região, e nos deixa com muita dor no coração”, lamentou. Nossa região está de luto, a nossa região perde muito com alguém que teve muita importância na condução dos interesses coletivos da nossa região”. 

Paulo Marubo, cujo nome na língua de seu povo era Kenampa, nasceu na aldeia Maronal, à margem do rio Curuçá, na TI Vale do Javari, lugar para onde voltava regularmente, mesmo morando em Atalaia do Norte devido à sua atuação no movimento indígena, do qual foi um dos nomes de maior destaque.

Ele conduziu a Univaja por quase uma década, além de ter participado das buscas ao indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, quando ambos desapareceram no Vale do Javari, em 5 de junho de 2022. Os dois foram assassinados de forma brutal, por denunciarem a invasão do território indígena.  

Ao lado de Bruno, Paulo Marubo participou da criação da Equipe de Vigilância da Univaja (EVU), que é um sistema pioneiro de monitoramento territorial junto ao mapeamento das invasões.

Além das complicações causadas pela hepatite, Paulo Marubo também enfrentou ameaças por denunciar as invasões no território indígena. Como coordenador da Univaja e uma das principais lideranças do Vale do Javari, denunciou invasões de pescadores ilegais, caçadores e garimpeiros.

A Funai – Fundação Nacional dos Povos Indígenas lamentou a morte de Paulo Marubo e ressaltou que o líder indígena deixa um legado de luta diante de sua incansável defesa dos povos indígenas do Vale do Javari. “A Funai expressa profundo pesar pela perda e solidariza-se com familiares, amigos e o povo Marubo neste momento de tristeza”, diz trecho da nota, divulgada no site do órgão.

O líder indígena Kora Kanamari disse que Paulo foi um dos responsáveis pela reconstrução do movimento indígena do Vale do Javari. “Ele nasceu no centro da terra indígena, se preparou como professor na sua aldeia. Migrou para o movimento num momento de crise que passávamos”. Para ele, Paulo “foi um herói” por ter reconquistado a confiança dos povos do Vale do Javari.

“Ele articulou parcerias e fortaleceu a política pelos direitos dos povos do Vale do Javari. Na sua humilde pessoa, a Univaja está fortalecida hoje graças ao Paulo”, diz Kora, que é coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena do Vale do Javari (Dsei-Vale do Javari).

Alertas de invasões 

Morre Paulo Marubo, líderança da Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do estado do Amazonas
Base flutuante de fiscalização da Funai no rio Ituí, na TI Vale do Javari, que foi atacada a tiros (Foto Bruno Kelly/Amazônia Real)

Em dezembro de 2018, quando a Base da Funai no rio Ituí e Itacoaí foi atacada a tiros por invasores e pescadores, Paulo Marubo já havia alertado para o avanço da violência dentro do território, afirmando que a situação poderia piorar com a recém-eleição de Jair Bolsonaro (PL) para a presidência do país.

Em entrevista à Amazônia Real na ocasião, ele disse: “O que a gente tem ouvido aqui, em Atalaia do Norte, das conversas em comércios, nas praças, nas ruas, é que agora a Funai vai acabar. É assim que eles dizem. Eles afirmam que o novo presidente deu aval para invasores, que a Funai vai ser extinta. Isso que eles ficam argumentando. Todo esse discurso do presidente fragiliza os indígenas e a situação dos isolados fica mais preocupante”.

Ele também alertou que a ação dos invasores poderia entrar em outras áreas indígenas devido à dimensão da Terra Indígena Vale do Javari. “Esses caras [invasores] botaram para matar. Estão mais armados. Talvez vai acontecer de novo e ninguém vai ficar sabendo. Ou então vão dizer que não aconteceu”, afirmou Paulo.

Devido à sua coragem, recebeu inúmeras ameaças de morte e, nos últimos anos, procurou se resguardar para proteger sua integridade física e cuidar da sua saúde. O líder Marubo também se preocupou com a presença de missionários nas áreas de indígenas isolados, fato que ele chegou a denunciar em 2019.

A segurança dos grupos isolados era uma das principais preocupações de Paulo. Em 2016, quando as frentes etnoambientais foram enfraquecidas no governo de Michel Temer (MDB), ele também se pronunciou.

“Nossa terra indígena é um dos poucos redutos do mundo que habita uma grande concentração de indígenas isolados que estão ameaçados com a real possibilidade de fechamento das bases de proteção da Funai no interior da Terra Indígena Vale do Javari por falta de recursos financeiros e humanos”, disse.

O advogado Eliesio Marubo ressaltou que seu tio deixa um legado, uma escola de líderes diferenciados que tem atuado em favor dos povos indígenas do Vale do Javari. “Paulo Marubo sempre será uma figura de extrema importância para todos nós, e acreditamos que um dia nos encontraremos em outros planos celestiais. Seguiremos firmes na condução de seus ensinamentos”, disse Eliésio.

“Ele teve a sagacidade de dar vida a Univaja. Se a Univaja hoje é conhecida nacional e internacionalmente foi muito pela força política criada pelo Paulo. Foi ele que teve a inteligência de criar uma representatividade em Brasília. Ele me deu força para falar sobre a Univaja no mundo. Ele foi um heroi para nós”,  disse Beto Marubo, em declaração postada pela Coiab.
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* Este texto foi publicado originalmente no site a Amazônia Real em 3/2/2024

Foto: Alberto César Araújo/Acervo Amazônia Real 2016

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