
Faz uma semana que um filhote de macaco-prego foi entregue pela equipe do Jardim Botânico do Rio de Janeiro ao Instituto Vida Livre. Seu corpo estava totalmente queimado – braços, pernas, cauda, ventre e face – e com ferimentos decorrentes da queda após o choque na rede de distribuição elétrica da Light.
Ele foi logo sedado, “recebeu soro e todas as medicações necessária. E, como está com a boca muito machucada, recebeu alimento direto, de forma líquida”, contou o instituto em seu Instagram.
Ao ver seu estado grave – as imagens são de cortar o coração – era difícil acreditar que ele sobreviveria, mas a torcida era grande e a equipe do Vida Livre lutou durante sete dias, com tratamento intensivo, para salvá-lo.

Foto: reprodução de vídeo
Três dias depois de sua chegada, o instituto publicou vídeo (veja no final deste post) do filhote balançando a cabeça e explicou que tais movimentos eram sintomas neurológicos decorrentes da eletrocussão e da queda. Mas que ele resistia às queimaduras e ao sofrimento.
“Ele está amplamente medicado, alimentado e aquecido por nossa equipe que se organizou para garantir cuidados intensivos para ele”, relataram. “É muito doloroso vê-lo nesse estado”.
Mas, ontem (31) à noite, exatamente sete dias depois de ser acolhido pela equipe amorosa do instituto, o macaquinho morreu. Mesmo com todo o cuidado que recebeu, ele começou a sofrer os efeitos das infecções, inflamações e com o excesso de dor. E o processo de cicatrização ainda formou cascas duras em seu corpo. Durante o atendimento, ele teve uma parada cardíaca e se foi.
“Nós vivemos essa tristeza todos os dias e nos perguntamos se é justo”, escreveu o instituto. “Mas ele sofreu muito mais. Sofreu as dores físicas das queimaduras, da queda e do tratamento. Sofreu a falta da mãe e do bando. Sofreu o estresse do atendimento diário”.
Bastante tocado, Roched Seba, fundador e diretor do Vida Livre, declarou em vídeo:
“Hoje, infelizmente, o macaquinho que a gente tava cuidando, que foi eletrocutado, não resistiu. Ele passou por uma série de tratamentos, por um tratamento intensivo, dia e noite […]”.
E prosseguiu: “Aquele macaquinho perdeu a vida e nós todos perdemos com isso. Ele é mais um macaco que perde a vida, mais um macaco dentro de um freezer agora, mas é menos um macaco na floresta, menos todos os filhos que ele teria que nunca vão nascer e menos tudo que ele compunha na biodiversidade brasileira que é nossa. A gente perde biodiversidade todos os dias por conta de uma distribuição de energia irresponsável”.
Símbolos do impacto da eletrocussão
Com muita frequência, o Vida Livre recebe animais feridos por eletrocussão na rede da Light. Os mais conhecidos são os macacos-prego Marcelinho e Marcelinha, feridos com um ano de diferença (ele, em janeiro de 2022; ela, em fevereiro de 2023) e que sobreviveram, mas perderam membros: ele, os dois braços, e ela, um, portanto, não podem voltar a viver livres na natureza.

Fotos: reprodução de video
A equipe do instituto conseguiu aproximá-los, os dois se gostaram (contamos aqui…) e hoje vivem juntos numa área cedida pela atriz Gloria Pires, madrinha da instituição, onde foi construído um recinto só pra eles (… e aqui). Marcelinho e Marcelinha se tornaram símbolo do impacto da Light na fauna da cidade.

os dois em área cedida pela atriz Glória Pires
Foto: reprodução de vídeo
Ainda bem que, na cidade do Rio de Janeiro, há pessoas dedicadas como Roched Seba, todos os integrantes do instituto, além dos padrinhos (Ney Matogrosso foi o primeiro), madrinhas e doadores que tornam possível a luta pela recuperação e reintrodução de tantos animais agredidos pela irresponsabilidade humana. Por vezes, os esforços não são suficientes para driblar a violência com a qual esses animais são atingidos.
Por tudo isso, é inaceitável que a Light – todas as empresas de energia do país, na verdade – e os poderes Legislativo e Judiciário continuem ignorando o impacto das redes de distribuição de energia na fauna silvestre.
“O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta, mas não a conhece e não a respeita”, declarou o Vida Livre nas redes sociais.
Doação e Projeto de Lei
Antes de você assistir aos vídeos que registram a batalha para salvar a vida do macaquinho, quero lembrar que o instituto é uma organização não-governamental, que trabalha com reabilitação e soltura de animais em situação de risco no Rio de Janeiro, entre outras atividades (veja mais aqui). E que depende de doações para continuar realizando esse lindo trabalho.
Então, se você ama os animais e pode ajudar, doe qualquer quantia pelo PIX 15234307000124 ou faça uma doação mensal pelo Catarse. E compartilhe nas redes sociais para que mais pessoas possam se inspirar e colaborar.
Outra forma de ajudar os animais silvestres é apoiando o Projeto de Lei 4278/2023 (assine e compartilhe! e também participe a da enquete na página) para pressionar deputados federais e senadores a votarem a urgência de sua tramitação.
Idealizado por Roched Seba e sua equipe do Vida Livre, em parceria com o deputado federal Marcelo Queiroz (PP/RJ), que o inscreveu na Câmara dos Deputados, o PL propõe a alteração da Lei de Crimes Ambientais (nº 9605/1998), com base em debates, outros projetos e iniciativas legislativas, além de pesquisas com especialistas e agentes de fiscalização.
Em vigor desde 12 de fevereiro de 1998, essa lei considera qualquer crime contra a fauna brasileira, independente do grau de crueldade, como um crime menor, o que resulta em penas leves ou praticamente nulas e inviabilizainvestigações.
O PL foi divulgado em setembro do ano passado com a campanha ‘Vozes’, apoiada por Maria Bethânia, Gloria Pires, Xuxa, Vera Holtz, Dira Paes, Agnes Nunes e Fabiula Nascimento, como contamos aqui.
Agora, assista aos três vídeos publicados pelo Instituto Vida Livre, que mostram os esforços de sua equipe multidisciplinar para salvar o macaquinho e o sofrimento pelo qual ele passou.