Mais de 200 novas espécies de peixes de água doce foram descritas em 2021: quatro delas na bacia do Xingu, como o cascudo ‘wolverine’

Mais de 200 novas espécies de peixes de água doce foram descritas em 2021: quatro delas na bacia do Xingu, como o cascudo 'wolverine'

Uma média de quatro novas espécies de peixes de água doce foram descritas em 2021, chegando a um total de 212 só no ano passado. O número é mais uma evidência de quão pouco ainda se conhece sobre a biodiversidade do planeta. “Cada nova descoberta prova que ainda há um mundo maravilhoso sob a superfície dos rios, lagos e zonas úmidas que permanece desconhecido”, ressalta o relatório “New Species 2021 Report“, produzido pela organização Shoal, em parceria com diversas instituições de pesquisa e conservação como a Academia de Ciências da Califórnia e a União Internacional para a Conservação da Natureza.

Das mais de 200 novas espécies descritas, 94 ocorrem na América do Sul, 82 na Ásia e 20 na África. Os pesquisadores envolvidos no levantamento destacam que cada nova descrição aumenta o conhecimento sobre as relações entre as espécies e como elas divergiram de ancestrais comuns, aprofundando nossa compreensão da evolução. Além disso, ajuda os profissionais da área de conservação a priorizar onde focar seu trabalho para obter mais retorno ao implementar ações de campo.

Dentre as espécies que receberam destaque no relatório estão uma enguia cega – sem olhos, barbatanas, ou escamas, encontrada num rio em Mumbai, na Índia, o translúcido e minúsculo Danionella cerebrum, que vive em córregos na cadeia de montanhas Bago Yoma, em Mianmar, e quatro cascudos brasileiros, observados na região da bacia do Rio Xingu, entre eles, o cascudo-wolverine (Hopliancistrus wolverine), na imagem logo abaixo.

Mais de 200 novas espécies de peixes de água doce foram descritas em 2021: quatro delas na bacia do Xingu, como o cascudo 'wolverine'

Esses tipos de peixes medem cerca de 15 cm

Na verdade, até então, acreditava-se que essas quatro novas espécies eram todas de Hopliancistrus tricornis, mas após análises morfológicas, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) chegaram à conclusão de havia diferenças entre elas, ou seja, agora sabe-se que são cinco espécies do gênero Hopliancistrus.

Esses peixes têm uma peculiaridade. Eles possuem três ‘odontódeos’, espécies de dentes ou garras muito fortes e afiadas, localizadas nas laterais externas, e que são usadas para atacar seus predadores. Na região onde eles vivem os pescadores também os chamam de acari-alicate ou acari-unha.

Mais de 200 novas espécies de peixes de água doce foram descritas em 2021: quatro delas na bacia do Xingu, como o cascudo 'wolverine'

Os odontódeos do cascudo-wolverine
(Foto: Leandro Melo de Sousa)

Os nomes científicos de três das quatro novas espécies homenagearam etnias indígenas da área do Xingu onde elas são observadas: Hopliancistrus munduruku (na foto que abre este post), os Hopliancistrus xavante e os Hopliancistrus xikrin.

Por último, os cientistas decidiram batizar uma das espécies, por causa de suas garras afiadas como Hopliancistrus wolverine, que lembram as do raríssimo mamífero carnívoro (gulo-gulo) em que foi inspirado o personagem da Marvel (leia mais aqui).

O gênero Hopliancistrus ocorre apenas no Brasil, nos rios Xingu e Tapajós, com uma distribuição muito restrita. E apesar da aparência nada amigável, esses peixes são herbívoros e se alimentam de algas e outros detritos encontrados no fundo dos rios.

Abaixo um vídeo super-bacana do pesquisador da Universidade Federal do Pará, o biólogo Leandro Souza, que é um dos co-autores do estudo que identificou as novas espécies e em que ele explica mais sobre esses peixes:

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Fotos: M. Sabaj and L. Sousa (cascudo wolverine e mundukuru)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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