*Atualizado em 17/12/2018
Durante seis meses os jornalistas Lisa Cox, em Melbourne, na Austrália, e Philip Oltermann, em Berlim, na Alemanha, estiveram envolvidos em uma reportagem investigativa para o jornal britânico The Guardian, um dos mais respeitados do mundo.
Esta semana, a matéria – longa e detalhada -, foi finalmente publicada e faz uma denúncia seríssima que envolve o Brasil: a Association for the Conservation of Threatened Parrots, uma das responsáveis pela repatriação de 50 ararinhas-azuis que serão trazidas ao Brasil e reintroduzidas na natureza no ano que vem, seria um entidade de fachada para o tráfico ilegal de aves e seu proprietário, um ex-gerente de boate, teria uma longa ficha criminal.
Com o título de “A legitimate zoo? How an obscure German group cornered global trade in endangered parrots ” (Um zoológico legítimo? Como um obscuro grupo alemão encurralou o comércio mundial de papagaios ameaçados, na tradução para o português), os jornalistas descrevem passo a passo as operações de Martin Guth, que aparece abaixo, ao centro da foto, junto com o ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, em junho deste ano.
Localizada na pequena cidade de Tasdorf, a mais de 300 km da capital Berlim, a Associação para a Conservação dos Papagaios Ameaçados, possui uma das maiores coleções particulares de psitacídeos em risco de extinção do mundo. Estão nas mãos de Guth, nada menos do que 90% da população de ararinhas-azuis ainda existentes no planeta. A associação afirma ter como missão “a reprodução em cativeiro de espécies ameaçadas para a segurança de suas populações”.
A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii ) é uma espécie nativa da região de Caatinga, na Bahia. Descrita pela primeira vez em 1832, a ave tem aproximadamente 57 cm, quase a metade do tamanho da arara-azul-grande, daí o seu nome. Sua plumagem azul e seu canto estão entre suas mais marcantes características.
Infelizmente, sua beleza a fez se tornar vítima do tráfico ilegal de aves silvestres. Além disso, a destruição de seu habitat também provocou o seu desaparecimento. O último indivíduo da espécie foi visto perto do município baiano de Curaça, no ano 2000. Por isso, ela foi considerada extinta na natureza.
Em junho deste ano, o governo brasileiro anunciou, com grande celebração, a repatriação das aves, que deverão chegar ao país no primeiro trimestre de 2019.
Denúncias seríssimas
A apuração realizada pelos jornalistas do The Guardian revela que Guth ficou cinco anos na prisão por sequestro e extorsão e passou outros 20 meses na cadeia, por extorsão, novamente, em 2009. A associação administrada por ele tem uma licença do governo alemão para operar como um zoológico, todavia, não é aberta ao público. Ainda segundo a investigação, pelo menos um dos funcionários que trabalha na entidade foi acusado de envolvimento com o tráfico ilegal de aves.
Os jornalistas afirmam que o trabalho da associação já foi questionado por cientistas, conservacionistas e outros criadores e que, o governo da Alemanha tem conhecimento disso e também, de mensagens nas redes sociais que indicariam que aves australianas, supostamente importadas por Guth, estariam sendo vendidas por milhares de dólares.
Martin Guth, na esquerda da foto, já foi preso por extorsão e sequestro
A equipe do The Guardian ressalta, entretanto, que em momento nenhum questiona a maneira como os animais são tratados no local. E que a ONG tem a permissão da Agência Federal de Conservação da Natureza para importar aves.
Não é só o governo brasileiro que fez uma parceria com a associação, mas também Austrália e as ilhas caribenhas de Dominica, Santa Lúcia e São Vicente. Estes últimos exportaram papagaios e araras para a instituição de “conservação”.
De uma coleção particular do Qatar, pertencente a um sheik da família real, a ONG alemã adquiriu ararinhas-azuis. Da Austrália, saíram mais de 200 aves raras e ameaçadas de extinção com destino a Tasdorf. A concessão dos animais foi feita para que eles fossem expostos, mas como dito mais acima, a associação não é aberta ao público.
A organização alemã afirma que tem outras cinco sedes. Uma delas, na Holanda, é administrada por um colecionador de aves, que em 2015, foi considerado culpado pela compra de aves silvestes ilegais.
A reportagem do The Guardian traz muitas outras informações detalhadas e denúncias gravíssimas sobre a Association for the Conservation of Threatened Parrots, com quem o governo brasileiro fez a parceria.
Procurado pelo jornal britânico, Martin Guth negou todas as acusações. Alegou que os jornalistas estão inventando histórias e perseguindo a associação, além de que, garantiu que “é extremamente cuidadoso ao seguir todas as regras e legislações determinadas tanto pelas autoridades alemãs, quanto àquelas de outros países com que lida”.
O Conexão Planeta entrou em contato, por e-mail e telefone, com a assessoria de imprensa do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade, ICMBio, órgão do ministério do Meio Ambiente responsável pelo programa de conservação da ararinha-azul, para ter uma posição sobre a denúncia. Também perguntamos ao ICMBio se o governo brasileiro pagou pela vinda das aves e qual teria sido esse valor.
Na noite de hoje (13/12), recebemos o seguinte retorno da assessoria de Comunicação Social do ministério do Meio Ambiente:
“A matéria não trata do programa da ararinha-azul e portanto não temos elementos para nos manifestarmos. O governo do Brasil a partir de consultas e reuniões com as autoridades alemãs e autoridades de outros países tem trabalhado em parceria com os mantenedores de ararinha-azul para sua reintrodução. No que se refere à instituição ACTP, a Autoridade Administrativa CITES da Alemanha foi consultada à época e deu seu aval“.
Na sexta-feira, 14/12, o ministério também respondeu sobre a questão do pagamento ou não do Brasil à associação alemã. Segundo a assessoria de comunicação, o governo não está pagando nada pela vinda das ararinhas-azuis ao país.
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Fotos: reprodução Facebook Association for the Conservation of Threatened Parrots