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Indígenas participaram ativamente das buscas de Bruno e Dom, mas foram ignorados em coletiva de imprensa que confirmou o assassinato dos ativistas

Com pesar, nós, do Conexão Planeta, expressamos grande tristeza pelo assassinato do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, e solidariedade com suas famílias e amigos, neste momento tão delicado e também pela agonia vivida desde 6 de junho, quando os indígenas da Univaja denunciaram seu desaparecimento às autoridades.
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Embora a perícia dos dois corpos encontrados ontem, pela Polícia Federal do Amazonas, ainda não tenha sido concluída (chegaram hoje ao Instituto de Criminalística, em Brasília), já se pode afirmar que são de Bruno Pereira e Dom Phillips. O local apontado por um dos suspeitos é o mesmo onde foram recolhidos materiais orgânicos (em análise) e pertences pessoais dos dois (confirmados), na semana passada. 

Agora, o indigenista e o jornalista inglês se somam ao grupo de ativistas ambientais e de direitos humanos executados por defenderem a floresta amazônica brasileira e seus povos como o ambientalista Chico Mendes, a missionária Dorothy Stang, o casal Zé Cláudio e Maria e a primeira vítima da Funai no Javari sob o governo Bolsonaro: o indigenista Maxciel Pereira dos Santos, executado em Tabatinga, em 2019.

Chico Mendes, Dorothy Stang, Bruno Pereira e Dom Phillips em ilustração de Carlos Latuff para o site Brasil 247

O crime e o esquecimento dos indígenas

A PF foi guiada até o local do crime por Amarildo Oliveira (vulgo ‘Pelado’), que confessou ser cúmplice. Ele estava preso desde 9 de junho, mas negava qualquer participação no sumiço dos dois. Na véspera da confissão, seu irmão, Oseney Oliveira (vulgo ‘Dos Santos”), também havia sido detido, mas negou participação na emboscada. E, de acordo com testemunhas, ainda há um terceiro envolvido. 

O crime foi declarado oficialmente, ontem à noite em Manaus, durante coletiva de imprensa, por seis representantes da PF, da Marinha, do Exército e da Secretaria de Segurança Pública, que “esqueceram” de incluir um assento à mesa para um dos líderes da Univaja, organização que reúne as etnias Marubo, Matis, Kanamari, Matsés, Korubo, Tsohom-dyapa e os povos isolados do Vale do Javari.

Depois de contarem detalhes das investigações, sobre a confissão de Amarildo, a descoberta dos corpos e agradecerem ao Corpo de Bombeiros, ao Ministério Público do Amazonas e às Forças Armadas, entre outros órgãos – devido à sua atuação nas buscas e à elucidação do caso -, nenhum dos integrantes da mesa citou os indígenas. 

Durante as buscas, um registro da participação dos indígenas / Foto: Exército/Divulgação

A primeira a se manifestar na coletiva foi uma jornalista inglesa, que questionou Alexandre Fontes, superintendente da PF: “Os indígenas ajudaram muito nas buscas, mas ninguém aqui mencionou isso”. E acrescentou: “E os dois foram mortos durante o trabalho, não foi “uma aventura não recomendada” como o presidente disse. Quando os jornalistas poderão fazer o seu trabalho com segurança? Por que numa área tão conflituosa há pouca presença policial?”.

Fontes admitiu o “esquecimento” ao não citar “a participação de indígenas e ribeirinhos”, mas não disse que a UNIVAJA esteve com eles, nem que os orientou.

Esquecimento ou estratégia para dar continuidade ao processo de silenciamento e apagamento sobre a importância desses povos na região? 

Em programa da Globo News, ontem à noite, o jornalista André Trigueiro declarou, indignado, que “o desprezo histórico oficial do Brasil pelos indígenas se materializou nessa coletiva” (…). “Esse desprezo histórico pelos indígenas, que o Brasil oficial reproduz, desde a chegada dos portugueses, e chegou ao século XXI, era contra o que Bruno Pereira lutava”. 

E Trigueiro acrescentou: “Toda aquela região vasculhada pelas autoridades representadas nesta coletiva foi objeto de uma atuação sistemática dos indígenas guiando essas autoridades”.

Sim, sem a participação preciosa dos indígenas do Vale do Javari, não teria sido possível chegar aos corpos em tão pouco tempo, ainda mais devido ao atraso do governo em autorizar os órgãos competentes participar das buscas e aos requintes de crueldade com que foram mortos e enterrados. 

E uma parte da imprensa tem contribuído com essa falta de reconhecimento em suas reportagens, seja por identificação (nem todos os veículos são imparciais infelizmente), falta de cuidado ou desconhecimento. 

A indignação dos indígenas

Esta semana, no Twitter, Beto Marubo, membro da Univaja, já havia comentado que a maioria da imprensa que acompanha as buscas de Atalaia ou junto às equipes ignorava o protagonismo dos indígenas, em suas reportagens: 

Pessoal, ouvi e li até o momento poucos jornais, exceto The Guardian e Estadão, falarem do protagonismo dos indígenas do Vale do Javari na busca por Bruno e Dom. A área de busca atual foi mapeada e indicada às autoridades pelos indígenas”, disse.

Por outro lado, assisti a uma reportagem do correspondente Guillermo Gualdos, do Canal 4, do Uruguai, que apresenta uma das ações de busca no local no qual indígenas haviam encontrado sinais dos dois ativistas, e dá destaque à participação de 20 indigenas voluntários na operação, entre eles Benin Matis.

Também nesta semana, Eliésio Marubo, assessor jurídico da UNIVAJA, se pronunciou a respeito da falta de reconhecimento da Polícia Federal do Amazonas, em live transmitida pelo Instagram: “A PF foi soberba, assumiram para si como se estivessem fazendo todo o trabalho e não foi”.

Hoje, em nota pública de pesar pela morte de Bruno e Dom, a organização destacou que os indígenas participaram ativamente das buscas desde 5 de junho, com os integrantes de sua Equipe de Vigilância (EVU), e que somente o 8º Batalhão em Tabatinga, os reconheceu como parceiros e protagonistas.

“Fomos os primeiros a percorrer o rio Itaquaí atrás de Pereira e Phillips, ainda no domingo, primeiro dia do desaparecimento. Desde então, a única instância que esteve ao nosso lado, como parceira nas buscas, foram os policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM)”. 

E a UNIVAJA descreveu suas ações: “Fomos nós, indígenas, através da EVU, que encontramos a áreaque, posteriormente, passou a ser alvo das investigações por parte de outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército, a Marinha, o Corpo de Bombeiros etc. Foi a equipe de vigilância da UNIVAJA que entrou na floresta em busca de Pereira e Phillips para dar uma satisfação aos seus familiares. Foi a equipe de vigilância da UNIVAJA, a EVU, que indicou para as autoridades o perímetro a ser vasculhado em profundidade pelos órgãos estatais”. 

E complementou: “Para isso, nós contamos com a colaboração e proteção constante dos policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga, os únicos a nos tratarem como verdadeiros parceiros na buscavalorizando o nosso conhecimento e a nossa sabedoria enquanto povos indígenas, conhecedores do nosso território. Viemos a público prestar agradecimentos ao Coronel Cavalcante, aos policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga que nos acompanharam nas buscas, e também à imprensa nacional e internacional que foi nossa parceira, nos ajudando a levar para o mundo inteiro a nossa voz e conhecer o que está acontecendo em nossa região”.

Crime político e futuro 

O Brasil é um dos países que mais matam ativistas ambientais no mundo. De acordo com o levantamento Defending Tomorrow (Defendendo o Amanhã) da ONG internacional Global Witness, em 2019, foram assassinados 212 ativistas ambientais e de direitos humanos (4 a mais que em 2018).

Os motivos? Defenderem a natureza, os lugares que habitam e enfrentarem a exploração dos recursos naturais e a corrupção”. Entre seus algozes: desmatadores, garimpeiros, caçadores e pescadores ilegais. No Brasil, foram assassinados 24 ativistas, entre eles, 10 indígenas.

Indígenas do Vale do Javari se manifestam em Atalaia do Norte: “Quem mandou matar Bruno e Dom? E Maxciel?”- Foto: reprodução das redes sociais

Mas, para a UNIVAJA, o assassinato de Bruno e Dom deve ser classificado, ainda, como um crime político, já que ambos eram defensores ambientais e dos direitos humanos e “morreram desempenhando atividades em benefício de nós, povos indígenas do Vale do Javari” e eles acreditam que suas mortes poderiam ser evitadas, caso as autoridades tivessem levado em conta suas denúncias.

A organização conta que, em 2021, “qualificou informações sobre invasões na Terra Indígena Vale do Javari”– a segunda maior do Brasil e a maior do mundo que abriga indígenas isolados – por meio da EVU ( Equipe de Vigilância da UNIVAJA). Foram enviados diversos ofícios ao Ministério Publico Federal (MPF), à Polícia Federal e à Funai relatando “a composição de quadrilhas de pescadores e caçadores profissionais, vinculados a narcotraficantes, que ingressam em nosso território para extrair recursos e vendê-los nos municípios vizinhos”.

Nenhuma providência foi tomada, o que certamente contribuiu para o assassinato de Bruno e Dom. “Eles lutavam pelo nosso direito ao bem-viver, pelo nosso direito ao território e aos recursos naturais que são nosso alimento e garantia de vida, não apenas da nossa vida, mas também da vida dos nossos parentes isolados”. 

Por isso, também, os indígenas destacam sua preocupação com o futuro, com suas vidas e a vida de pessoas ameaçadas, lembrando que o indigenista não foi o único ameaçado no Vale do Javari. Na véspera do retorno de Bruno e de Dom à Atalaia do Norte, Amarildo apareceu na sede da EVU acompanhado de dois homens armados para fazer ameaças, inclusive aos indígenas da UNIVAJA. 

“O que acontecerá conosco quando as Forças Armadas e a imprensa se deslocarem de Atalaia do Norte? Continuaremos vivendo sob ameaças?”, perguntam e concluem, em sua nota:

“É preciso aprofundar e ampliar a investigação. Precisamos de fiscalização territorial efetiva no interior da Terra Indígena Vale do Javari. Precisamos que as Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs) da FUNAI sejam fortalecidas!”. 

A morte de Bruno Pereira e Dom Phillips deveria sinalizar o início de uma grande investigação e da derrocada da criminalidade, que corre solta na Amazônia e continuará fazendo vítimas se não for contida.

Mas como isso poderá acontecer no governo Bolsonaro? É importante levar em conta que, se um estrangeiro não tivesse sumido com Bruno, certamente seu desaparecimento não teria tanta dedicação das autoridades e seria ignorada como a de Maxciel, em 2019.

Necropolitica

Como salienta o Observatório do Clima, em nota publicada hoje em seu site, neste governo, “a barbárie tem cúmplices no Palácio do Planalto e nas Forças Armadas. Além de ter deliberadamente entregue a Amazônia ao crime, o regime de Jair Bolsonaro reagiu ao desaparecimento de Pereira e Phillips com a mesma crueldade com que tratou as centenas de milhares de brasileiros mortos na pandemia”. 

“O Exército adiou o quanto pôde o início das buscas; o presidente da Funai, que havia exonerado Pereira porque este cumprira seu dever de proteger os indígenas em Roraima, lavou as mãos; e o Presidente da República culpou as vítimas, que segundo ele haviam embarcado numa “aventura não recomendável”.

E a organização finaliza: “A necropolítica, marca do atual governo, também está presente nas mortes de Dom e Bruno”.
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Imagem de destaque: reprodução de card da UNIVAJA, divulgado em suas redes sociais

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