
Uma expressão em português diz que “um copo pode estar meio cheio ou meio vazio”. Tudo vai depender da perspectiva de quem o olha.
Nesse final de 2019, ano que foi assolado por más notícias na área ambiental, é preciso ter um olhar positivo sobre a mais recente atualização da chamada Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), que avalia as condições de sobrevivência de centenas de animais e plantas no planeta.
Criada em 1964, a lista é hoje o maior catálogo sobre o estado de conservação das espécies, que as classifica conforme o grau de risco diante da extinção (entenda melhor como funcionam as categorias ao final deste post).
O novo relatório da IUCN, divulgado no início de dezembro, em Gland, na Suíça, destaca que a recuperação de dez espécies, que melhoraram seus status de classificação, traz esperança em meio à crise da biodiversidade.
As histórias de sucesso, que envolveram reprodução em cativeiro com cuidadosa gestão das populações selvagens, são de oito espécies de aves e dois peixes de água doce.
Entre as aves que conseguiu ‘dar a volta por cima’ está o Guam Rail (Hypotaenidia owstoni), o segundo pássaro na história a se recuperar após ter sido declarado extinto na natureza, depois do Condor da Califórnia (Gymnogyps californianus)*. No passado bastante comum na ilha de Guam, no Pacífico, seus números diminuíram depois que um tipo de cobra (Boiga irregularis) foi introduzido acidentalmente no final da Segunda Guerra Mundial.
Em 1987, o último Guam Rail selvagem foi morto por esse predador invasor. Graças a um programa de reprodução em cativeiro de 35 anos, a ave está agora estabelecida na ilha vizinha de Cocos. No entanto, o pássaro ainda é classificado como criticamente em perigo – a um passo da extinção -, todavia, não é mais considerado extinto na natureza.
Outro caso citado é o periquito das Ilhas Maurício (Psittacula eques). Graças aos esforços de conservação, incluindo um programa de reprodução em cativeiro de grande sucesso. Atualmente, existem mais de 750 periquitos livres na natureza e, com essa atualização, a espécie foi reclassificada como vulnerável, após sua melhoria de criticamente ameaçada para ameaçada em 2007.
“As histórias por trás das dez melhorias genuínas no status desses animais provam que a natureza se recuperará se houver uma chance. A mudança climática está aumentando as múltiplas ameaças que as espécies enfrentam e precisamos agir com urgência e decisão para conter a crise”, alerta Grethel Aguilar, diretora geral da IUCN.
“Os resultados de determinadas ações de conservação demonstram que, quando governos, organizações de proteção animal e comunidades locais trabalham juntas, podemos reverter a tendência de perda de biodiversidade“, completa Jane Smart, diretora global do Grupo de Conservação da Biodiversidade da organização.
Infelizmente, não há só boas notícias
A Lista Vermelha da IUCN agora inclui 30.178 espécies ameaçadas de extinção e há evidências crescentes dos efeitos negativos das mudanças climáticas. Atualmente 112.432 estão listadas no levantamento.
Na Austrália, 37% das espécies de peixes de água doce estão em risco de extinção, das quais pelo menos 58% são diretamente afetadas pela crise climática. Os peixes são altamente suscetíveis a secas extremas causadas pelo declínio das chuvas e aumento das temperaturas. Ao longo dos últimos anos, o país tem enfrentado ondas recordes de calor e incêndios florestais devastadores.
Já a população de um tubarão nativo do Oceano Índico Ocidental (Pseudoginglymostoma brevicaudatum) diminuiu em aproximadamente 80% em 30 anos. O desaparecimento do animal se deve não apenas à pesca industrial sem controle, mas também pela alteração do clima no planeta. Ele vive em águas rasas e está perdendo seu habitat devido à degradação dos recifes de coral causada, em parte, pelo aquecimento do oceano.O tubarão passou de vulnerável para criticamente em perigo.
Para o papagaio-imperial (Amazona imperialis), ave símbolo da Dominica, no Caribe, a ameaça vem dos furacões. Apesar do fenômeno natural ser comum naquela região, sua frequência e intensidade têm aumentado e resultam em alta mortalidade de aves e destruição de habitats, além de impactos devastadores sobre as pessoas.
A espécie mudou de ameaçada de extinção para criticamente ameaçada após o furacão Maria em 2017, o mais forte já registrado na ilha. Estima-se agora que existam menos de 50 indivíduos adultos na natureza.
“Esta atualização revela os impactos cada vez maiores das atividades humanas na vida selvagem. O próximo ano será crítico para o futuro do planeta, com o Congresso Mundial de Conservação da IUCN em junho de 2020, um marco importante para definir a agenda de conservação necessária para lidar com a emergência de espécies antes das decisões a serem tomadas pelos governos na Convenção da Biodiversidade em Kunming, China, em outubro de 2020”, afirma Jane Smart.
Entenda as siglas da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas
– Extinto (EX): não existe mais nenhum indivíduo da espécie;
– Extinto na natureza ( EW): todos os indivíduos vivos da espécie encontram-se em cativeiro, não sendo possível verificá-los em seu habitat;
– Criticamente em perigo (CR): espécie apresenta chance extremamente elevada de entrar em extinção na natureza;
– Em perigo (EN): espécie possui grande chance de entrar em extinção na natureza;
– Vulnerável (Vulnerable – VU): espécie tem chance de entrar em extinção na natureza;
– Quase ameaçado (NT): espécie não está ameaçada, mas esforços devem ser realizados em prol de sua conservação;
– Pouco preocupante (LC): espécie estudada não possui grandes riscos de entrar em extinção na natureza no momento;
– Dados deficientes (DD): não existem dados suficientes que evidenciem o grau de conservação da espécie;
– Não avaliado (NE)
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A tartaruga que aparece na montagem com as imagens dos animais na abertura deste texto não faz parte das espécies citadas pela IUCN. Mas decidimos incluí-la porque ela era considerada extinta. A espécie de tartaruga gigante (Chelonoidis phantasticus) da ilha Fernandina, de Galápagos, desapareceu há mais de 100 anos – mais precisamente, em 1906. Entretanto, no começo de 2019, uma fêmea foi encontrada. Seu DNA ainda está sendo analisado (processo que pode demorar meses), mas os biólogos que a acharam tem certeza que o resultado será positivo!
*Em setembro deste ano, também houve o caso, no Brasil, da volta à natureza de uma ave considerada extinta na vida selvagem. O mutum-de-alagoas foi reintroduzido depois de extinto há mais de 40 anos.
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Fotos: divulgação IUCN, Wikimedia Commons e U.S. Fish and Wildlife Services/Creative Commons/Flickr
Muito bom artigo