Roseline Orwa, pelos direitos das mulheres do Quênia

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Me parece que as mulheres – me incluo nessa -, cultivam uma estranha mania de não valorizar suas histórias com a verdade, a beleza e as tristezas que trazem consigo. Quase sempre precisamos de alguém pra nos mostrar o quão inspiradoras somos – ou podemos ser – e como fomos capazes de passar pelos desafios e pelas conquistas da vida com a leveza que só quem mora fora da gente consegue enxergar.

Mas, nesse universo de mulheres invisíveis em sua própria caminhada, tive a sorte de conhecer uma queniana de sorriso largo e abraço acolhedor, Roseline Orwa, que se apresenta com a imponência de uma rainha africana, turbante, cores e o ruído apaixonante de uma longa risada sem motivo.

Dirigindo um carro antigo rumo ao vilarejo de Wagoma, no interior do Quênia, ela parava algumas vezes na estrada para comprar mangas pras crianças. Em cada oportunidade perguntava às mulheres vendedoras “suas crianças estão na escola?” e, se a resposta fosse negativa, logo nos preparávamos para um breve discurso sobre a importância libertadora da educação.

Durante os primeiros anos de casamento, Rose descobriu que não poderia ser mãe. A dor da incompreensão veio acompanhada de estigmas, abuso e muita violência, que culminou com seu pedido de divórcio, algo pouco comum entre os habitantes de zonas rurais e bastante conservadoras da África. Uma escolha ainda mais sofrida que inflamou julgamentos e preconceitos de sua própria família. Uma mulher estéril e divorciada mais parecia uma maldição para a reputação do vilarejo.

Rose teve sua casa e escritório incendiados, perdeu seu emprego no governo e uma bolsa de estudos. Contrariando quem costuma se achar vítima das circunstâncias, ela resistiu fortemente a ponto de se permitir um novo amor. Casou-se de novo e, não muito depois, aos 32 anos, se tornou viúva.

Os estigmas do passado retornaram com ainda mais força. Foi quando Rose se percebeu em meio a uma cultura de punição e violência direcionada às mulheres, especialmente às viúvas e divorciadas.

No Quênia, ainda que 80% da mão de obra rural seja composta por mulheres, apenas 5% delas tem direito de propriedade sobre as terras. Nas zonas remotas do país, deixar de ter um marido, seja lá qual for a razão, faz da mulher um ser desconsiderado pela lei e pela sociedade. A família do homem tende a confiscar os bens da viúva e deixá-la absolutamente sem nada, quase sempre só com os filhos.

Foi diante disso que Rose decidiu resgatar sua história e colocá-la a serviço de outras mulheres que vivem situações semelhantes. Criou um grupo de diálogo e fortalecimento entre viúvas e logo em seguida fundou o Rona Foundation, que acolhe e suporta viúvas e órfãos produzidos por uma sociedade conservadora, patriarcal e um tanto irracional.

O Fe e eu temos o privilégio de fazer parte do Conselho da Rona e acompanhar de perto seus desafios e conquistas. Desde sua fundação, Rose já levantou fundos suficientes para construir mais de 20 casas para viúvas e subsidiar os estudos de mais de 160 crianças e jovens.

Hoje, ela é reconhecida no mundo todo como uma das porta vozes dos direitos das mulheres no Quênia, além de estar à frente também da campanha #StopWidowAbuse (#FimDoAbusoàsViúvas). Seu maior legado é transformar a vida de dezenas de famílias e dar luz aos direitos fundamentais das mulheres quenianas.

Rose me ensinou que, pra mudar o que está errado não se precisa de dinheiro, mas sim de coração. E isso ela tem de sobra.

O relato completo da nossa experiência em Wagoma Village – que aconteceu em janeiro de 2015 – está em nosso site, o Think Twice Brasil. Abaixo, seguem uma foto minha e outra do Fe em ações da Rona, e um vídeo com gravações que fizemos na cidade, além de um depoimento forte e emocionado da Rose.

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Sonhadora, feminista e apaixonada por pessoas e histórias. Trabalhou por dez anos como advogada e em 2014 deixou o escritório para empreender o Think Twice Brasil, cujo primeiro projeto – Experiência de Empatia – foi uma viagem de 400 dias por 40 países para se aprofundar no aprendizado e identificação de soluções para desigualdade social e de gênero. De volta ao Brasil, está à frente do Instituto Think Twice Brasil e de projetos ligados à justiça social e de gênero.

Gabriele Garcia

Sonhadora, feminista e apaixonada por pessoas e histórias. Trabalhou por dez anos como advogada e em 2014 deixou o escritório para empreender o Think Twice Brasil, cujo primeiro projeto – Experiência de Empatia – foi uma viagem de 400 dias por 40 países para se aprofundar no aprendizado e identificação de soluções para desigualdade social e de gênero. De volta ao Brasil, está à frente do Instituto Think Twice Brasil e de projetos ligados à justiça social e de gênero.

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