Proibido pelo STF, em 2017, por ser cancerígeno, amianto pode voltar a ser produzido no Brasil

Há dois anos, o Supremo Tribunal Federal proibiu a extração, manipulação e comercialização de amianto ou arbesto no país. Estudos conduzidos pela Organização Mundial de Saúde comprovam que o mineral é cancerígeno e pode adoecer não só pra quem o extrai, mas também quem o manipula.

O uso mais comum se dá na produção de telhas e caixas d’água, mas outros setores também o utilizam. Quem corre risco: trabalhadores das minas de amianto, da construção civil, da indústria automobilistica (manutenção de freios), da limpeza urbana e do comércio de materiais de construção. Segundo dados da OMS, mais de 107 mil profissionais do setor morrem todos os anos em decorrência de doenças relacionadas ao material.

No final deste post, reproduzo o documentário Não respire, contém Amianto, produzido pela ONG Repórter Brasil. Vale assistir pra entender porque é um crime querer liberar o minério no país.

Agora, contra todas as evidências cientificasalém do Brasil, outros 65 países condenam seu uso – e tomando por base apenas os interesses de mineradores, quatro senadores podem levar a questão para votação no Senado e ajudar a derrubar a decisão do STF, retomando a extração de amianto em Goiás.

Os empresários e políticos se reuniram, na semana passada, para visitar as instalações da mineradora Sama, em Minaçu, extremo norte de Goiás, e disseram que, mesmo que a fabricação de produtos e sua comercialização no país continuem desautorizadas, é importante retomar sua extração para exportação. Eles alegam que a região se ressente muito da desativação da mina de amianto já que sua economia sempre dependeu desse negócio. Oras, já não estava na hora de pensarem em outro tipo de produção para esquentar a economia local?

E quem são os senadores que lideram esse movimento no Congresso e julgam equivocada a decisão do STF? É bom que guardemos seus nomes para não esquecer deles jamais: Davi Acolumbre (DEM), que é presidente do Senado, Vanderlan Cardoso (PP), Luis do Carmo (MDB) e Chico Rodrigues (DEM). Eles prometeram tentar reverter a decisão do Supremo em breve. Vejam como Alcolumbre defendeu a volta do amianto:

“Não é possível que a frieza de uma alínea de lei possa se sobrepor à vida das pessoas que trabalham, que tiram o seu sustento com dignidade nessa mineradora, fazendo com que riquezas sejam transferidas para este município, para o estado de Goiás e para o Brasil. A minha presença é para assegurar que o poder constituído da República, a partir de hoje, está com os olhos voltados a esse drama que vivem as famílias de Minaçu”.

Vale lembrar que foi Alcolumbre que recebeu indígenas em seu gabinete, durante o Acampamento Terra Livre, e prometeu – assim como Rodrigo Maia – lutar por eles, pela demarcação de terras e pela Funai no Congresso. Dá pra acreditar nisto, diante de sua atitude em relação ao amianto?

E, quer dizer que, mesmo que aqui seja proibido fabricar produtos e comercializa-los, por razões relacionadas à saúde, sua venda para outros países tem o caminho livre? Para países asiáticos, certamente, apesar do movimento forte liderado por inúmeras instituições, entre elas a Rede Asiática de Banimento do Amianto (Abam). No inicio deste ano, uma carta foi endereçada à Eternit, que exporta para aquele continente, com o titulo: Parem! Vocês estão nos matando!

Outro mercado possível é o dos EUA, já que a EPA – Agência de Proteção Ambiental recentemente liberou a reintrodução do fibra natural por meio de produtos e materiais domésticos comuns. , mesmo com a estimativa de que cerca de 40 mil pessoas morrem nos EUA todos os anos por causa da substância. Contra-senso.

Porque essa fibra natural é tão devastadora

Durante a votação no STF, em 2017, o ministro Celso de Mello declarou, assim, seu voto: “O que está efetivamente em jogo neste processo é, em última análise, a vida de trabalhadores e a indispensável defesa de seu inalienável direito de proteção à saúde. Direitos que não podem ser desprezados ou desconsiderados pelo Estado”.

De lá até hoje, mineradores e políticos não sossegaram para burlar ou derrubar a proibição. Entre eles, está o atual governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que recebeu os senadores em Minaçu.

Mas o que, afinal, o amianto provoca de tão devastador à saúde do ser humano? Quando inalado, o pó do amianto estimula mutações celulares no organismo, que podem dar origem a tumores e a certos tipos de câncer no pulmão. Uma das principais doenças – e incurável – é a Asbestose, que resulta da deposição de fibras de amianto (ou asbesto) nos alvéolos pulmonares. Isso reduz a capacidade respiratória e promove a perda da elasticidade pulmonar.

O mais cruel é que a contaminação por amianto é lenta e as doenças surgem após muitos anos de contato direto. Essa constatação coloca em dúvida a capacidade de um controle rígido e a efetividade dos equipamentos de segurança. Isto sem falar nos impactos ao meio ambiente: a contaminação é para sempre.

Agora, assista ao documentário Não respire, contem Amianto, divulgado pelo Repórter Brasil em 2017, que revela o que, de fato, essa substância causa ao organismo humano:

Foto: Reprodução

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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