Governo libera mais 31 registros de agrotóxicos e bate novo recorde: agora, são 197 novos venenos no mercado, este ano

No inicio de abril, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, negou que exista uma corrida desenfreada, sem critério, para a liberação de agrotóxicos no Brasil, afirmando que o governo tem trabalhado para substituir progressivamente os pesticidas mais perigosos por outros, considerados menos tóxicos. Disse isso para os representantes da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento da Câmara dos Deputados. Dias depois, seu ministério (da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o MAPA) liberou mais 31 venenos, alterando o quadro de horror para 152 novos pesticidas comercializados no país.

No dia 30, do mesmo mês, foram liberados mais venenos, resultando em 166 novos registros este ano. E, ontem, 21 de maio, más noticias novamente: o governo liberou o registro de outros 31 venenos, batendo mais um recorde: 197 novos agrotóxicos envenenam o ar, a comida e o corpo dos brasileiros. São cerca de três venenos liberados a cada dois dias. E, agora, são 2263 produtos comercializados no país.

Cabe aqui uma observação: alguns veículos da imprensa estão destacando que são 169 agrotóxicos liberados, até agora. A questão é que todos os atos publicados pelo Ministério da Agricultura, este ano, totalizam 197 agrotóxicos autorizados. Mas, entre eles, estão 28, cujos registros foram concedidos em 2018 e só formalizados em janeiro deste ano.

O Robotox iniciativa que é fruto da mesma parceiro e sobre a qual falei, aqui, na semana passada – divulgou o novo número e também a liberação, como dá pra ver pelos seus tweets publicados abaixo:

A lista completa é bastante heterogênea: tem compostos (produto formulado), “genéricos” desses compostos (produto formulado equivalente) e princípios ativos (produto técnico) e suas “cópias” quando caem as patentes (produto técnico equivalente).

A nova leva de venenos deste mês, registrada no dia 29 de abril, tem 31 produtos técnicos equivalentes, ou seja, reproduções de princípios ativos que já estavam autorizados no país. Sendo que, três deles são do polêmico e tóxico glifosato, que está no centro de processos bilionários movidos contra sua fabricante, a Bayer/Monsanto, nos Estados Unidos e na Europa (veja os links dos textos que publicamos a respeito, no final deste post). Os dois restantes são produtos finais: Compass e Troia, feitos à base de ametrina e mancozebe, respectivamente. Com um detalhe: tais substâncias estão presentes na composição de outros pesticidas já comercializados.

Vale ressaltar a reportagem publicada no especial Por Trás do Alimento (parceria da Agência Pública e Repórter Brasil) sobre a origem dos agrotóxicos aprovados: a maioria é fabricada por empresas estrangeiras. Tereza Cristina, também conhecida, em Brasília, como a “musa do veneno”, está fazendo um ótimo trabalho para elas.

E quanto à sanha pela aprovação ágil de tantos agrotóxicos em tão pouco tempo? Em 2018, foram 450. O ministério alega que se deve a ganhos de eficiência graças a “medidas desburocratizastes” implementadas nos três órgãos fiscalizadores – MAPA, Ibama e Anvisa -, em especial neste último. De acordo com o site G1, a Anvisa confirmou seus esforços para diminuir a fila dos produtos em análise. Diante das diretrizes deste governo, que, obviamente permeia todos os ministérios – as alegações do MAPA e da ANVISA podem ser interpretadas de diversas formas. Em 2015, foram aprovados 139 venenos. Em 2018, 450. Neste, em apenas cinco meses, quase 200.

Vamos de mal a pior. Quanto mais veneno, menos saúde, sabemos. No campo e nas cidades.

Leia também:
CONDENAÇÕES DA BAYER/MONSANTO

Justiça condena, pela terceira vez, Monsanto, fabricante de agrotóxicos, que terá que pagar US$ 2 milhões a casal com câncer

AGROTÓXICOS LIBERADOS
Governo libera mais 28 registros de agrotóxicos e principios ativos altamente perigosos
Após negar aprovação desenfreada de agrotóxicos, governo libera mais 31 venenos

ÁGUA ENVENADA
Coquetel de 27 agrotóxicos contamina a água de 1 em cada 4 cidades brasileiras

ABAIXO ASSINADO
Debate no Senado sobre a proibicao de novos agrotóxicos e a proteção das abelhas

Foto: Ulleo/Pixabay

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta