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Xingu em chamas! Terra Indígena Capoto-Jarina, no Mato Grosso, tem mais de 10% de sua área devastada pelo fogo

Por Camila Garcez*

Ao sobrevoar a Terra Indígena Capoto-Jarina, no Mato Grosso, a visão é devastadora: um grande território, antes verde e vivo, agora reduzido a cinzas e labaredas. Paredões de fumaça se erguem, enquanto o fogo devora hectares de floresta e o horizonte se torna imperceptível em meio à névoa densa e cinza. 

A destruição é imensa: 73,7 mil hectares já foram consumidos pelas chamas, o que representa 11,6% de todo o território. Esse cenário desolador ilustra o impacto das queimadas que assolam a Amazônia, atingindo especialmente as Terras Indígenas, Unidades de Conservação e Florestas Públicas, áreas que historicamente resistem à pressão da expansão agropecuária, do garimpo e do desmatamento.

Entre agosto e 6 de setembro, o território registrou 611 focos de calor, ocupando o segundo lugar no ranking das Terras Indígenas com mais ocorrências no bioma Amazônia, ficando atrás apenas da Terra Indígena Kayapó

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Floresta queimando na TI Capoto-Jarina
Foto: © Marizilda Cruppe / Greenpeace

Produção devastada

As aldeias, que abrigam 1.589 indígenas distribuídos em 13 comunidades, enfrentam uma realidade de destruição e medo. Entre os locais mais afetados estão as aldeias Kremoro, Kromaré, Tonhoré, Kretiré, Jatobá e Piaraçu, todas situadas ao longo do rio Xingu, fonte de biodiversidade e vida para diversos povos, incluindo indígenas e ribeirinhos [a Terra Indígena Capoto-Jarina é habitada por indígenas Mebêngôkre (Kayapó), Mebêngôkre (Kayapó) Metyktire e Tapayuna, segundo o ISA – Instituto Socioambiental].

A devastação não afeta apenas a floresta. Os povos indígenas da Terra Indígena Capoto-Jarina estão sendo forçados a abandonar temporariamente suas aldeias. O fogo não discrimina: destrói plantações, moradias e força mudanças drásticas no modo de vida dessas comunidades.

Na Aldeia Piaraçu, por exemplo, metade da produção de mandioca, alimento essencial para a sobrevivência da população local, foi devastada pelas chamas. Os moradores relatam que o que restou só será suficiente para alimentar a comunidade por cerca de dois meses, antes que a escassez se torne crítica. Durante nossa visita, seria tempo de festa, para celebrar a colheita, mas agora não há frutos e nem motivos para comemoração.

Combate ao fogo

No combate a essa tragédia ambiental, destaca-se o trabalho incansável dos brigadistas do PrevFogo, um programa do Ibama que, na TI Capoto-Jarina, conta com 42 brigadistas, entre indígenas e não indígenas. Eles enfrentam, diariamente, a árdua tarefa de conter o avanço das chamas, que consomem rapidamente a vegetação e colocam em risco a vida de todos ao redor. Um dos desafios é a dimensão do território: com 634.915 hectares, a TI Capoto-Jarina equivale a quase 900 campos de futebol, e exige uma estrutura de combate ao fogo que vai além do trabalho terrestre.

Kanã Waura, chefe de brigada do PrevFogo
Foto:  © Marizilda Cruppe / Greenpeace Brasil

Foi nessa realidade que conhecemos a brigadista indígena Kanã Waura, neta do cacique Megaron Txucarramãe, e chefe de brigada. Kanã compartilha os desafios de coordenar a luta contra os incêndios florestais: “Não há uma estimativa de horário de trabalho por dia, depende muito de como o fogo está. Criamos escalas para evitar desgaste excessivo dos nossos brigadistas, mas o trabalho é cansativo e perigoso”. Seu relato ressalta a exaustão física e emocional que o combate ao fogo impõe aos brigadistas, que, apesar das dificuldades, seguem firmes na missão de proteger suas terras.

No entanto, a perda de Uellinton Lopes dos Santos, um brigadista do Ibama, lembra a todos que o perigo é real e iminente. Seu corpo foi encontrado no final de agosto, dentro da TI Capoto-Jarina, após desaparecer durante o combate aos incêndios no Parque Nacional do Xingu. Esse trágico episódio trouxe à tona a necessidade de reforçar a segurança dos combatentes, o que fez Kanã expressar sua crescente preocupação com a segurança da equipe.

Frota aérea

“Depois que a gente passou por essa situação aqui, eu sinto muito medo pela segurança dos brigadistas, principalmente de quem eu convivo desde o começo, que é o pessoal do meu esquadrão, do meu território aqui, mas a gente segue firme. É muito difícil continuar nessa rotina, é cansativo, mas a gente persiste juntos e é muito bom, é muito gratificante quando a gente consegue um bom resultado. Até lá nós vamos trabalhar de pouquinho em pouquinho para chegar onde nós queremos”, contou.

Apesar do esforço dos brigadistas em campo, a situação clama por mais apoio. Em uma tentativa de aliviar a situação, o Greenpeace Brasil entregou aos moradores da Aldeia Piaraçu 600 kg de cestas básicas e equipamentos de combate ao fogo, além de reforçar seu apelo por uma mobilização mais ampla. O Greenpeace Brasil pede pela criação de uma frota aérea organizada, equipada com aeronaves específicas para o combate a incêndios florestais, como ocorre em países com situações similares. Sem essa resposta, o Brasil continuará a assistir à destruição de seus biomas, especialmente na Amazônia, de maneira irreversível. 

Fogo não espera

A cada ano, as secas tornam-se mais severas, como o recente boletim do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicou: 73 municípios do Mato Grosso, incluindo a área da TI Capoto-Jarina, estão sofrendo com a intensificação da seca. Isso agrava a situação, tornando o fogo ainda mais difícil de controlar.

A Terra Indígena Capoto-Jarina é apenas um exemplo de um problema muito maior que assola a Amazônia. As queimadas não afetam apenas a fauna e a flora, mas destroem modos de vida, culturas ancestrais e ameaçam a própria sobrevivência dos povos indígenas. Sem uma ação coordenada, que envolva governo, instituições e sociedade civil, o futuro da Amazônia, dos seus biomas e dos seus habitantes, estará em risco.

O Greenpeace Brasil e as lideranças indígenas continuam a pressionar o governo para que intervenha com urgência. Precisamos de políticas públicas que tratem essa crise com a seriedade que ela exige. As Terra Indígenas clamam por proteção, e é nossa responsabilidade como sociedade garantir que sua devastação não se torne irreversível. O Brasil, como detentor de uma das maiores biodiversidades do planeta, tem a responsabilidade de proteger não apenas a floresta, mas também os povos que nela vivem. O fogo não espera, e cada dia sem uma resposta efetiva é um dia a mais de devastação.

*Texto publicado originalmente no site do Greenpeace Brasil em 17/09/24

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Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace Brasil

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