
Em 2012, a anta foi considerada extinta na Caatinga. Essa “sentença” começou a ser escrita em reunião de pesquisadores que avaliaram o status de conservação de espécies de ungulados ameaçados no Brasil, entre eles a anta, a queixada (ou porco do mato) e espécies de cervídeos (ungulados são mamíferos dotados de cascos, como os citados aqui).
O encontro resultou na publicação da primeira Lista Vermelha Nacional do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que decretou a extinção da anta nesse bioma.
“Naquele momento, realizamos uma avaliação em nível de Brasil e em nível de biomas. Os profissionais que estavam presentes, eu inclusa, listaram a anta como Regionalmente Extinta na Caatinga, pois os poucos dados que vieram para a mesa, naquele momento, apontavam para isso”, conta Patrícia Médici, coordenadora da INCAB – Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, programa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, e uma das maiores especialistas em antas do mundo.
“De lá para cá, temos refletido sobre essa tomada de decisão tão importante com base em pouquíssimas informações. Surgiu, então, uma grande vontade de percorrer a Caatinga em busca de informações mais consistentes sobre o histórico da anta, seu passado e presente na região”, explica a conservacionista. “Em busca da anta perdida”.
Foi assim que, onze anos depois, em março de 2023, a ideia se concretizou. Patrícia e equipe de pesquisadores da INCAB-IPÊ realizaram a primeira Expedição Caatinga – Em Busca da Anta Perdida, atrás de registros e vestígios históricos e atuais da anta nesse bioma. Os recursos financeiros para a viagem foram captados por meio de crowdfunding ou financiamento coletivo (contamos aqui).
Em 31 dias, percorreram 10 mil quilômetros, passando por diferentes regiões do bioma em Minas Gerais, Bahia e Piauí, onde houvesse qualquer indício da existência histórica ou atual do animal.
O trabalho baseou-se especialmente em entrevistas com moradores locais. “Queríamos resgatar a memória das pessoas sobre a potencial ocorrência do animal no bioma: a anta existiu? Onde? Desapareceu? Se sim, por quê?. E também investigar sua presença atual”, conta a especialista.
A primeira expedição, então, comprovou que a anta viveu na Caatinga, mas não eliminou dúvidas a respeito de sua existência na região, hoje (em vídeo, no Instagram, Patrícia Medici relembra a primeira expedição e conta detalhes).
Pegadas, avistamentos e mais informações
Um ano depois, no mês passado, Patrícia foi pra estrada de novo na companhia de três mulheres – as veterinárias Fernanda Jacoby e Alexandra Tiso e a comunicadora Raquel Alves -, novamente em busca da anta brasileira no único bioma exclusivamente brasileiro e o mais desconhecido.

Sua missão era investigar relatos de avistamentos recentes do animal na Bahia e no Piauí.
Elas viajaram mais de seis mil quilômetros em 20 dias pela região oeste da Bahia e no entorno do Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí. E identificaram a presença da anta, com vestígios, avistamentos pelas integrantes da equipe e mais relatos históricos de moradores.


mostrando uma foto da espécie
Foto: divulgação/INCAB-IPÊ
Para Patrícia, essa descoberta é uma excelente notícia para subsidiar futuras avaliações sobre o estado de conservação da anta, tanto em nível nacional como global. E também para celebrarmos o Dia Mundial da Anta, amanhã, 27 de abril.
“A importância dessa descoberta está no fato de que uma extinção local, para qualquer espécie, é uma situação muito séria. Declínios populacionais e extinções locais apontam para o comprometimento e depauperação do estado de conservação de uma dada espécie”, explica a conservacionista.
“Agora, com base nesta última expedição, temos dados robustos o suficiente para afirmar que a anta não se extinguiu na Caatinga. Sabemos que devem ter ocorrido declínios populacionais importantes, associados com o processo de desertificação do bioma. Esses animais devem ter se afastado da área em busca de água em habitats ao redor. Mas, tudo aponta para o fato de a anta nunca ter se extinguido, de fato, nesse bioma”, destaca.
Além de provar a existência atual da espécie, a expedição coletou informações adicionais sobre as principais ameaças à sobrevivência da anta na região. São elas: a caça, o fogo, a perda de habitat para a expansão do agronegócio e a desertificação.

Listas vermelhas
Agora, os pesquisadores da INCAB/IPÊ estão compilando os dados coletados durante a expedição, que serão utilizados para a próxima avaliação da Lista Vermelha do ICMBio e, também, para a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), atualizada anualmente.
As informações obtidas ainda serão utilizadas no desenvolvimento do próximo Plano de Ação Nacional (PAN) para os Ungulados Ameaçados de Extinção.
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Foto (destaque): divulgação/INCAB-IPÊ (Fernanda Jacoby, Patrícia Medici, Zé Preto – mateiro que as acompanhou -, Alexandra Tiso e Raquel Alves)