
É bem possível que este seja o único caso no mundo em que um governo defende veementemente a vida selvagem e a proteção do meio ambiente. Mas porque teve visão e ouviu os cientistas. Estes estavam preocupados com a perspectiva de extinção total dos pinguins-azuis, que era o que revelava a pesquisa que haviam realizado por lá. E o governo sabia que há ameaças econômicas na degradação ambiental. Sabia que a região dependia do turismo e que, sem a natureza preservada, sem seus recursos naturais, sofreria impactos econômicos negativos porque o turismo não poderia se desenvolver.
Esta não é uma notícia nova porque aconteceu nos anos 80, mas o resultado da decisão radical do então governo de Summerland Estate, confirma que vale sempre apostar na natureza, inclusive para poder manter o equilíbrio e o desenvolvimento econômicos. Por isso, esta iniciativa serve de exemplo para o mundo, inclusive para o Brasil de hoje, infelizmente. Vamos à história!
Em 1985, o governo da Península Summerland, no sudeste da costa australiana, decidiu comprar todas as propriedades e devolver as terras para seus donos originais: os pinguins-azuis ou pinguins-fada (Eudyptula minor). Sim, devolver, porque, antes de ser um vilarejo, aquele era o habitat desses pequenos pinguins, os menores do mundo, entre as dezessete especies existentes.
Essa espécie de pingüim – a menor do mundo – dominava a região e representava uma das principais atrações turísticas do local, desde os anos 1920. O que mais atraia os turistas era seu belo “desfile noturno”. Assim que o sol baixava, milhares de pinguins-azuis saiam das ondas e iam para a praia, caminhando para suas tocas. Como fazem até hoje.
A paixão dos turistas por esses bichos tão singelos fez com que alguns quisessem construir casas de veraneio e o vilarejo surgiu, levando muito movimento, empreiteiras, carros e animais domésticos para a Ilha Phillip.
Os pinguins-azuis se acostumaram a conviver com os humanos, mas, não demorou muito para que os especialistas notassem a diminuição de sua população. Eles perderam o terreno onde se reproduziam: nele foram feitas 190 construções, a maioria casas que integraram o Summerland Estate. E o plano era construir muito mais.
Mas havia uma outra razão para a diminuição dos pinguins: raposas que haviam sido levadas para lá por colonos europeus, que não tinham nenhum conhecimento dos impactos que esse animal invasor e predador poderia causar.
Pra se ter ideia da dimensão do caso, no início do desenvolvimento urbano de Summerland, havia dez colônias de pinguins, hoje há apenas uma, que ainda é considerada a maior colônia de pinguins-azuis do mundo.
Por isso, o governo não teve outra opção que não tomar uma decisão tão radical: acabar com o vilarejo. E, assim, começou a comprar as propriedades, e começou o processo de desmonte, que terminou apenas em 2010. E ele estava certo. A proteção dos pinguins-azuis rendeu bons frutos: de 12 mil indivíduos reprodutores nos anos 80, hoje existem cerca de 31 mil. E, assim, foi criado o Parque Natural da Ilha Phillip, que é o destino turístico mais popular no estado de Victoria, no que refere à observação de vida silvestre. O parque é, hoje, um ponto turístico internacional.
Mas o que torna esta notícia ainda mais saborosa é que, na semana passada – portanto, depois de nove anos em que a última propriedade foi adquirida pelo governo e demolida – a Ilha Phillip celebrou a remoção do único sinal que ainda restava da existência do vilarejo: o antigo centro de visitantes que ocupava quase 25 mil m² do habitat dos pinguins-azuis. Isto significa que a população desta espécie tem espaço suficiente para reproduzir e inserir mais 1.400 indivíduos na colônia.
Fontes: Folha de Sao Paulo, Portal dos Animais e Superinteressante
Foto: Divulgação