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Onças-pintadas encontradas mortas no Pantanal foram envenenadas com agrotóxico proibido no país, declara a PF, que indiciou os responsáveis

Na foto acima, a onça-pintada macho, de 4 anos e 120 kg, ainda estava viva: passava por análise de um dos pesquisadores do Instituto Reprocon que a batizaram de Sandro desde que começaram a monitorá-la.

Um tempo depois, em maio de 2021, o radio-colar que usava indicava que ela estava parada no mesmo lugar há muito tempo. Das duas, uma: poderia ter morrido ou o colar se soltara de seu corpo (leia a reportagem sobre o caso). 

Quando os pesquisadores chegaram ao local, na região do Passo do Lontra, em Corumbá, Mato Grosso do Sul, encontraram Sandro morto e, próximo dele, outro macho de onça-pintada (ao qual deram o nome de Taurus) também sem vida. Não havia sinais de briga. Desconfiados, a equipe deixou o local e denunciou o caso à Polícia Federal e ao Ibama.

Foto: Divulgação/Reprocon

Dias depois, guiaram policiais e agentes até Sandro e Taurus e nova surpresa: encontraram mais 17 bichos mortos: uma vaca, 14 urubus, um gavião carcará e um cachorro do mato, além de muitas moscas. 

A situação os levou a suspeitar de que se tratava de envenenamento, o que alguns moradores de comunidades próximas confirmaram, e arriscaram que certamente seria por carbofurano, agrotóxico proibido no país desde 2017 e facilmente encontrado no Paraguai, usado por fazendeiros da região como forma de retaliação pela predação do gado.

Suspeita confirmada 

Na semana passada, quase um ano depois do início das investigações, a Polícia Federal confirmou a suspeita: as onças foram envenenadas por carbofurano e os responsáveis são o arrendatário da fazenda onde os animais foram encontrados (que já tinha pago multa no valor de R$ 18.500 em junho de 2021), um funcionário e “uma terceira pessoa que auxiliou no crime”, de acordo com apuração do site O Eco. 

O laudo policial aponta que “o uso do carbofurano para envenenamento intencional de animais domésticos e selvagens tem sido frequentemente descrito em publicações científicas, como um dos praguicidas mais comuns para esse fim”. O exame pericial foi realizado em Brasília a partir de porção do fígado de Sandro colhido no local da morte.

Detalhe do corpo da onça-pintada Sandro / Foto: Divulgação/Polícia Federal

Os nomes dos responsáveis pelo envenenamento não foram revelados pela PF devido a uma norma de proteção: “A Polícia Federal não divulga nomes e não publica imagens nas quais se possa identificar pessoas ou empresas, isso se dá para garantirmos a privacidade e a inviolabilidade da imagem da pessoa”, explicou o departamento de Comunicação Social da PF por e-mail.

Com a conclusão das investigações, os três foram identificados e indiciados pela morte das onças pintadas e dos demais animais no artigo 29 da Lei 9.605/98, que trata de crimes ambientais. A pena mínima é de seis meses de prisão e pode chegar a um ano, além de multa

Agora, os acusados aguardam a decisão da Justiça, que começará a analisar o caso somente após a finalização do relatório do inquérito policial, segundo a PF.

No entanto, em seu site, o órgão declara que “não é possível afirmar categoricamente que a intoxicação por carbofurano foi a causa determinante da morte do animal”. E que “um dos elementos que embasaram o indiciamento foi a apreensão do celular do arrendatário de uma fazenda, que mostra uma conversa que indica ele que estava ciente do envenenamento”. Embalagens de carbofurano também foram encontradas na casa do indiciado. 

Impunidade: “vivemos a pior fase”

Instituto Reprocon celebrou a notícia do indiciamento dos três acusados e parabenizou a PF e o Ibama em suas redes sociais – Instagram e Facebook assim que a notícia do indiciamento foi divulgada, em 25 de maio.

Antonio Carlos Csermak Jr., veterinário do Reprocon e um dos pesquisadores da equipe que encontrou Sandro morto, considera esta notícia muito importante para que o caso avance e, também, para que a prática de envenenamento se torne mais conhecida e iniba quem faz uso dela.

“Esperamos que a Justiça puna os responsáveis devidamente. A gente sabe que, mesmo com esse caso, mais a ‘radio-peão e o monitoramento dos animais, tem gente que vai continuar matando os animais porque acredita na impunidade, mas outros vão pensar duas vezes”.

“Para quem trabalha na área ambiental, de quatro anos para cá vivemos a pior fase. Existe muita impunidade em relação ao desmatamento e à destruição da fauna. Por isso, é um pouco difícil acreditar que os responsáveis pela morte do Sandro sejam realmente punidos. Vamos aguardar”. 

Ele lembra que a equipe do Reprocon já passou por uma situação semelhante à de Sandro. “Já tínhamos vivido isso em Nhecolândia, com outro macho: o encontramos morto com um tiro. Por envenenamento, é a primeira vez, e sabemos que alguns fazendeiros adotam esse costume para evitar que as onças continuem matando seu gado”. 

Csermak salienta que, no Pantanal, “todo dia onças são abatidas, ou seja, esse crime é recorrente. A estimativa do Instituto Onça Pintada é de que cerca de 2,5 a 3 mil onças-pintadas são mortas por ano devido a esse tipo de conflito”.

“Essa situação preocupa um pouco a gente voltar lá para observar capturar onças para monitoramento porque não sabemos com quem estamos lidando. Que respaldo teremos ao circularmos sozinhos?”, declara, acrescentando:

“Nunca fomos ameaçados por fazer a denúncia, que é obrigação nossa, claro. Mas sabemos que algumas pessoas da região não ficaram contentes. Por isso, a visibilidade do caso, a declaração da PF e a repercussão na mídia são fundamentais”.

Rádio-colar: muito além da proteção

Quando Sandro foi morto, o Reprocon sempre fez questão de salientar que a investigação só seria possível porque a onça-pintada usava colar e estava sendo monitorada. “Se Sandro não estivesse usando o colar, seria apenas mais uma onça morta e certamente ninguém saberia”.

Em primeiro plano, o colar de telemetria que Sandro usava junto às cabeças dele e de Taurus / Foto: Divulgação/Reprocon

Csermak também destaca que a proteção do animal é uma das funções do aparelho, mas não a primeira! “Com ele, compreendemos melhor a ecologia da espécie, a dinâmica populacional, acompanhamos sua saúde…. E isso é imprescindível para que tenhamos cada vez maior conhecimento sobre esses animais”. 

Um radio-colar custa cerca de 2.500 dólares ou 15 mil reais! E, para obter os aparelhos suficientes para manter pesquisas e monitoramento, organizações como o Instituto Reprocon dependem de recursos próprios (muitas vezes os pesquisadores colocam dinheiro do próprio bolso!) e doações constantes do público e de parceiros.

O dinheiro arrecadado não só ajuda na compra de colares de GPS, como também na manutenção de sua estrutura, que é bastante custosa: sede com todas as suas despesas diárias, carros, combustível, anestesia, entre outros materiais.

É só lembrar (contei na reportagem de junho de 2021) que a equipe de pesquisadores do Reprocon, quando identificou o sinal de mortalidade emitido pelo radio-colar, não pode ir imediatamente até o Passo do Lontra, onde Sandro foi morto, porque não tinha combustível suficiente para chegar lá.  

Devido à repercussão e à visibilidade do caso, na ocasião da morte de Sandro, o Reprocon promoveu uma campanha de crowdfunding para atender às necessidades urgentes da organização, entre elas a compra de radio-colares. Tinha como meta cerca de 28 mil reais, mas chegou a pouco mais de 17 mil reais, que ajudaram a comprar um colar e a pagar algumas despesas.

Mas muitos seguidores e simpatizantes do trabalho do Reprocon preferiram fazer doações diretas via PIX, que ajudaram a arrecadar o valor necessário para a compra de mais um colar.

Indico, aqui, o número do PIX do instituto – CNPJ 39.247.082/0001-09 – e convido os leitores a colaborar também. Qualquer quantia é bem-vinda pela equipe. Em seu Instagram, a organização tem mais de 28 mil seguidores. Já pensou se cada um doasse 10 reais mensais?

Foto: Gustavo Fonseca/Reprocon

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