Neste domingo, 14/1, a cidade do Rio de Janeiro foi atingida por fortes chuvas, deixando pelo menos 12 mortos e muitas pessoas desabrigadas. Muita gente perdeu o que tinha; alguns perderam também pessoas queridas. Tocada por mais esta tragédia, Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, comentou a situação em suas redes sociais, chamando-a de “fruto dos efeitos do racismo ambiental e climático“:
“Estou acompanhando os efeitos da chuva de ontem nos municípios do Rio e o estado de alerta com as iminentes tragédias, fruto também dos efeitos do racismo ambiental e climático. Vou procurar conversar com o Ministro das Cidades para entender o que o Governo Federal pode fazer de assistência. Por enquanto, se possível, o ideal é evitar o deslocamento”.
Foi o que bastou para que centenas de pessoas desprovidas de conhecimento fizessem chacota dela em seu post ou notícias a respeito do fato. “Só faltava essa! Ela chamou São Pedro de racista!’ é uma das pérolas, entre outras barbaridades.
Mas Anielle está certíssima! Usou esse termo científico, ainda pouco conhecido, de forma muito pertinente para definir a situação que assola a população menos abastada, periférica e, em sua maioria, negra depois da chuva que desabou na cidade.
Em geral, as regiões mais afetadas por tragédias ambientais são distantes do centro, têm baixa ou nenhuma infraestrutura e muitas carências. Isto porque o poder público não chega até elas, perpetuando a pobreza e a exclusão.
Isso é racismo ambiental! Uma desigualdade socioambiental que, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos da FioCruz, afeta principalmente comunidades marginalizadas – entre as quais vivem pessoas negras (quilombolas), indígenas e pobres.
“Essas comunidades sofrem os impactos negativos da degradação ambiental e da falta de acesso a recursos naturais e serviços ambientais, enquanto as populações mais privilegiadas usufruem de uma maior proteção ambiental e melhores condições de vida”.
“Não tem a ver com São Pedro! É desigualdade social!”
Tal tipo de segregação se manifesta em comunidades rurais, pobres e periféricas de formas diversas como na poluição do ar, na localização de aterros sanitários e lixões e na falta de acesso à água potável e saneamento básico (só para citar alguns casos).
Essas pessoas estão sendo e continuarão sendo as mais afetadas pelas tragédias climáticas que estão cada vez mais frequentes.
“Isso é um projeto de poder de todos os governos que prometem mudança, mas se favorecem dessa carência que eles mesmos criam”, destaca Marco Rocha, doutor em biotecnologia vegetal, professor e escritor. Ele gravou e publicou vídeo em seu perfil no Instagram para esclarecer seus seguidores, que foi compartilhado pelo perfil da ministra e você pode ver no final deste post.
O mesmo aconteceu com Bárbara Carine, escritora, professora e doutora no Instituto de Química da UFBA – Universidade Federal da Bahia (@uma_intelectual_diferentona, no Instagram), que também saiu em defesa de Anielle.
“Racismo ambiental é quando existem esses desastres ambientais e as populações menos abastadas, periféricas, negras, faveladas são as que sofrem mais fortemente os impactos em virtude da ausência de poderio econômico, em virtude da ausência da intervenção devida do Estado, que só intervém no braço armado, mas que deveria também intervir em condições de moradia, de habitação, de saneamento básico”.
“Isso não vai atingir a zona sul [do RJ], quer dizer, vai chover, mas não vai alagar, não vai ter prédio desmoronando, por quê? Porque estes são reflexos de uma sociedade que estabelece uma necropolítica territorial, que define que, nesta área da cidade vai tudo muito bem; na outra, a vida é menos importante. O único impacto que as fortes chuvas geram na zona sul é quando a empregada não chega pra trabalhar. Aí gera um impacto tremendo!”.
E finaliza: “Isso é racismo ambiental. É o modo como esses desastres ambientais afetam de modo muito díspare áreas da sociedade, da cidade, do estado, e essa disparidade está associada ao poderio econômico e à intervenção do estado de garantia da dignidade humana. Isso é que é racismo ambiental. Não tem a ver com São Pedro, não! É sobre desigualdade social!”.
Quer saber mais?
Para quem tem interesse em se aprofundar no assunto, recomendo o livro organizado pela jornalista e ambientalista Mariana Belmont: ‘Racismo Ambiental e Emergência Climática no Brasil”, que apresenta artigos de lideranças e especialistas negras e negros, publicado em 2023 pela editora Oralitura, com apoio do Instituto de Referência Negra Peregum.
“O racismo ambiental é um fenômeno em que comunidades de minorias étnicas e raciais são desproporcionalmente expostas a riscos ambientais, incluindo poluição do ar, falta de acesso a recursos naturais e a ambientes insalubres”, destaca Mariana
“Invalidar qualquer formulação do movimento negro [como fizeram com Anielle Franco] é clássico, da esquerda e da direita. São racistas que, no fundo apoiam as políticas de deixar morrer. Deixar morrer sem adaptação climática. A defesa do meio ambiente esquece das cidades, esquece que natureza também é proteger as pessoas e a biodiversidade nas cidades. A política nacional de proteção ambiental não é só combate ao desmatamento, é urgente olhar para os direitos humanos nas cidades”, completa ela.
“Não há justiça climática, sem justiça racial”, nos lembra Anielle.
A seguir, assista aos vídeos da ministra, de Marco Rocha e de Bárbara Carine sobre o episódio e racismo ambiental:
Foto: Ricardo Stuckert