Nova espécie de ‘sapinho-pingo-de-ouro’ é descoberta em unidades de conservação, na Mata Atlântica, em São Paulo

Nova espécie de 'sapinho-pingo-de-ouro' é descoberta na Mata Atlântica, em São Paulo

Acaba de ser publicado, na revista científica norte-americana Herpetologica, um artigo sobre a descoberta de uma nova espécie de sapinho-pingo-de-ouro na Mata Atlântica, em Unidades de Conservação no trecho paulista da Serra do Mar, em São Paulo: a Brachycephalus ibitinga.

Seu nome científico se deve à” junção de duas palavras indígenas de origem tupi-guarani – yby + tinga – que significam terra branca em referência à neblina que recobre de branco as florestas da Serra do Mar nas adjacências da capital paulista”, explica a bióloga Thais Condez, pesquisadora da Universidade do Estado de Minas Gerais, primeira autora do artigo e líder do estudo.

O estudo teve a participação e co-autoria do biólogo Leo Malagoli, gestor de Unidades de Conservação da Fundação Florestal de São Paulo, entre outros colaboradores. Ele é autor da foto de destaque deste post, que mostra uma fêmea adulta da Brachycephalus ibitinga, proveniente do Núcleo Curucutu do Parque Estadual Serra do Mar, município de Itanhaém.

Menos de dois centímetros

Esta é a sexta espécie de sapinho-pingo-de-ouro, descrita pelos pesquisadores após análises detalhadas do esqueleto, de vocalizações e de material genético da espécie.

A descoberta foi considerada ainda mais interessante devido a seu tamanho diminuto: os sapinhos têm menos de dois centímetros, quando adultos, e podem ser encontrados no chão das florestas.

O sapinho-pingo-de-ouro é conhecido por ter a região da cabeça e do dorso cobertas por placas ósseas fluorescentes sob iluminação ultravioleta, o que certamente favorece sua comunicação com outros sapos e pode afastar predadores já que sinaliza que, em sua pele, há substâncias tóxicas perigosas, que podem ser fatais.

Unidades de conservação

A nova espécie vive a altitudes entre 700 a mil metros acima do nível do mar, geralmente em matas entremeadas por denso nevoeiro ou “cerração”, que são típicos da região.

E ocorre apenas em “remanescentes florestais maduros e preservados” que, em geral, se restringem a áreas legalmente protegidas como parques estaduais, municipais ou reservas privadas.

A espécie Brachycephalus ibitinga é encontrada em Unidades de Conservação localizadas nas bordas das regiões metropolitanas de São Paulo e da Baixada Santista, como o Parque das Neblinas (típico da espécie, usado como referência pelos pesquisadores), o Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba, a Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba, o Parque Estadual Serra do Mar (núcleos Bertioga, Caminhos do Mar, Itutinga-Pilões e Curucutu), como também no Parque Natural Municipal Varginha, no extremo sul paulistano, às margens da Represa Billings.

O pesquisador Leo Malagoli destaca que “a descoberta de uma nova espécie de vertebrado nas margens da região metropolitana de São Paulo – uma das mais populosas das Américas -, reforça ainda mais a importância das Unidades de Conservação nas áreas urbanas e periurbanas, principalmente as de Proteção Integral“.

Em geral, essas áreas, que abrigam remanescentes florestais preservados, estão muito próximas e ao lado de áreas que sofrem intensa pressão decorrente da expansão urbana.

Isso acontece nos limites sul da capital paulista, onde há desmatamento e ocupações irregulares, como também extração ilegal de plantas, despejo de resíduos e esgoto e intenso pisoteio, “entre outras perturbações que são pouco toleradas pelos animais silvestres, incluindo os minúsculos sapinhos-pingo-de-ouro”.

Sobrevivente

As “cristas da Serra do Mar”, onde foi encontrado o novo anfíbio, são “ambientes de extrema singularidade”. Por isso, por menor que seja a intervenção humana, ela sempre resulta em alterações nas condições ambientais do habitat de espécies como esta, que podem ser dizimadas localmente.

Portanto, o sapinho-pingo-de-ouro recém-descoberto é um sobrevivente do crescimento indiscriminado da metrópole sobre as áreas naturais.

Não faz muito tempo, as áreas que hoje estão ocupadas pelas cidades abrigavam natureza exuberante – cadeias de montanhas e vales de rios, e, consequentemente, grande diversidade de plantas e animais. Mas o avanço da metrópole reduziu a biodiversidade de forma drástica, deixando muitas espécies “ilhadas” nessas áreas protegidas que ainda resistem.

“Neste processo é possível que algumas espécies tenham sido extintas antes mesmo de serem estudadas e conhecidas, mas nossa descoberta ressalta mais do que nunca a importância da manutenção das áreas naturais protegidas, tais como as Unidades de Conservação, para a proteção da biodiversidade”, acrescenta a bióloga Thais.

A seguir, veja alguns registros de indivíduos da nova Brachycephalus ibitinga feitos pelos pesquisadores em áreas distintas.

Nova espécie de 'sapinho-pingo-de-ouro' é descoberta na Mata Atlântica, em São Paulo
Neste registro, é possível ver a fluorescência das placas ósseas sob iluminação ultra violeta,
na espécie Brachycephalus ibitinga. no município de São Bernardo do Campo
Foto: Juliane P. C. Monteiro.
Nova espécie de 'sapinho-pingo-de-ouro' é descoberta na Mata Atlântica, em São Paulo
Macho da nova espécie, proveniente do Parque Natural Municipal das Nascentes
de Paranapiacaba, município de Santo André / Foto: Thais H. Condez.
Nova espécie de 'sapinho-pingo-de-ouro' é descoberta na Mata Atlântica, em São Paulo
Fêmea adulta da Brachycephalus ibitinga, proveniente do Parque das Neblinas,
município de Bertioga / Foto: Thais H. Condez.

Com informações da Fundação Florestal de São Paulo

Foto (destaque): Leo R. Malagoli

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta