A guerra na Faixa de Gaza (iniciado em 7 de outubro, quando o grupo terrorista Hamas invadiu Israel, matando 1.139 pessoas e levando 220 reféns, e este revidou com violência extrema) tem mobilizado o mundo devido à crise humanitária e a questões econômicas. E, agora, também traz alertas sobre seu impacto ambiental e climático.
Em apenas dois meses, as emissões de carbono na região foram superiores à pegada de carbono de mais de 20 entre as nações mais vulneráveis ao clima do mundo, por ano.
É o que revela investigação inédita realizada por pesquisadores da Universidade de Londres (QMUL) e da Universidade de Lancaster, ambas do Reino Unido, e do Climate and Community Project (CCP), dos EUA.
A análise foi publicada em 9/1, na revista Social Science Research Network: A Multitemporal Snapshot of Greenhouse Gas Emissions from the Israel/Gaza Conflict (Um instantâneo multitemporal das emissões de gases de efeito estufa da guerra Israel/Gaza).
De acordo com esse estudo – que não incluiu emissões de metano – nos primeiros 60 dias, mais de 281 mil toneladas métricas de dióxido de carbono (equivalente a CO2) foram geradas pelo bombardeamento aéreo e à invasão terrestre da Faixa de Gaza por Israel.
Ou seja, são provenientes da ação de aeronaves e tanques, além de combustível de outros veículos, mais as emissões geradas na produção e explosão de bombas, artilharia e foguetes. Quase metade das emissões pode ser atribuída a aviões de carga enviados pelos EUA – aliado de Israel – com suprimentos militares.
Sendo assim, o custo climático nesse período – na resposta militar de Israel ao Hamas, que já matou mais de 25 mil palestinos! – foi equivalente à queima de, pelo menos, 150 mil toneladas de carvão.
Os foguetes disparados pelo Hamas contra Israel durante o mesmo período – todos interceptados – geraram cerca de 713 toneladas de CO2, o que equivale a aproximadamente 300 toneladas de carvão, o que revela a potência de cada lado.
O resultado da análise foi compartilhado com o jornal britânico, com exclusividade, e revela uma primeira estimativa do impacto climático da guerra em Gaza, que tem causado danos materiais e uma catástrofe socioambiental sem precedentes.
Pegada bélica
Interessante notar que tais dados surgem em meio a apelos (abafados) para que as forças militares de cada país controlem suas emissões de gases de efeito estufa, responsáveis por grande parte da crise climática atual, mas que não contabilizadas nas negociações anuais da ONU por ações climáticas, nas COP.
Ou seja, todos – em especial os mais vulneráveis – estamos pagando a conta climática de conflitos e guerras pelo mundo.
Benjamin Neimark, professor sênior da Universidade de Londres (QMUL) e coautor da pesquisa explicou ao The Guardian: “Este estudo é apenas um instantâneo da pegada militar mais ampla da guerra… um quadro parcial das enormes emissões de carbono e dos poluentes tóxicos mais amplos que permanecerão muito depois do fim dos combates”.
Segundo ele, a verdadeira pegada de carbono dos conflitos militares poderia ser muito maior (de 5 a 8 vezes) caso os cálculos contemplassem toda a cadeia de abastecimento de guerra. E destaca a impunidade:
“O excepcionalismo ambiental dos militares permite-lhes poluir impunemente, como se as emissões de carbono emitidas por tanques e aviões de combate não contassem. Isto tem de parar, para enfrentar a crise climática precisamos de responsabilização”.
O The Guardian também ouviu David Boyd, relator especial da ONU para os direitos humanos e o ambiente, que declarou:
“Esta investigação ajuda-nos a compreender a enorme magnitude das emissões militares – desde a preparação para a guerra, a realização da guerra e a reconstrução após a guerra. O conflito armado empurra a humanidade ainda mais para perto do precipício da catástrofe climática e é uma forma idiota de gastar o nosso cada vez menor orçamento de carbono”.
De acordo com o estudo, para a reconstrução de 100 mil edifícios danificados em Gaza, com base em técnicas de construção contemporâneas, o custo climático será de, pelo menos, 30 milhões de toneladas métricas de gases de efeito estufa, o que equivale “às emissões anuais de CO2 da Nova Zelândia e é superior ao de 135 outros países e territórios, incluindo o Sri Lanka, o Líbano e o Uruguai”, conta o jornal.
A reconstrução de casas, escolas, mesquitas, hospitais e lojas ficaram de fora do cálculo de emissões.
Antes de 7 de outubro, os palestinos já sofriam com a subida do nível do mar, a seca e o calor extremo, que ameaçavam o abastecimento de água e a segurança alimentar. Agora, então, o cenário ambiental é de total catástrofe! A infra-estrutura energética e hídrica foi destruída e poluída, respectivamente, e muitas terras agrícolas arrasadas, o que implica em impactos avassaladores na saúde nas próximas décadas.
Mortos e feridos
O bombardeio praticamente ininterrupto (houve apenas um cessar-fogo) de Israel sobre a Faixa de Gaza desde o ataque do Hamas, tem causado destruição e mortes sem precedentes. Não à toa que a situação vivida pelos palestinos está sendo chamada de ‘Segunda Nakba’.
Nakba é uma palavra árabe que significa catástrofe ou ‘desastre’ e designa o êxodo vivido por esse povo palestino em 1948, quando, pelo menos, 711 mil árabes palestinos (dados da ONU) fugiram ou foram expulsos de seus lares devido à criação do Estado de Israel e aos ataques de seu governo.
De acordo com o Ministério da Saúde Palestino, a Palestine Red Crescent Society (Sociedade Palestina Crescente Vermelho) e Israeli Medical Services, na Faixa de Gaza (dados atualizados ontem), 25.105 palestinos foram mortos (entre eles 10.400 crianças), mais 8 mil estão sob os escombros e há 62.681 feridos.
Cerca de 85% da população teve que se deslocar – sob ameaça dos militares, muitas vezes através de papéis lançados pelos aviões – para um “local mais seguro ao sul”, mas a verdade é que não existe local seguro em Gaza. Os soldados israelenses também matam palestinos no sul, para onde foram orientados a seguir.
Segundo a ONU, todos enfrentam falta de água e de alimentos, já que a maior parte da ajuda humanitária enviada por diversos países não chega aos palestinos. Caminhões abarrotados de mantimentos e equipamentos são impedidos de entrar pela Passagem de Rafah, que liga a Faixa de Gaza ao Egito e é controlada por Israel.
Dos 220 reféns que o Hamas levou para Gaza, pouco mais de 100 ainda permanecem cativos. Apesar dos diversos pedidos da comunidade internacional, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, continua irredutível: nega cessar-fogo e a troca de ‘prisioneiros’.
Em recente declaração, ele também afirmou que não aceita a “solução de dois países” e que seu governo vai continuar controlando Gaza, mesmo que pare definitivamente os ataques.
A Cisjordânia Ocupada – apesar de não ter a presença do Hamas -, também está sob ataque de soldados e colonos israelenses. Até ontem foram registrados 369 palestinos mortos (98 crianças), 4.212 feridos e 615 presos.
Do lado de Israel, são 1.326 mortos (sendo 1.139 em 7 de outubro, também soldados) e 8.730 feridos (a maioria, soldados israelenses).
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Fonte: The Guardian
Foto: Palestine Red Crescent Society/reprodução Facebook)