Napoleão de Joaquin Phoenix usa chapéu vegano

Napoleão de Joaquin Phoenix usa chapéu vegano

Quando o figurinista David Crossman, especializado em roupas militares, foi convidado para criar os trajes e acessórios dos personagens do filme Napoleão, de Ridley Scott (em exibição nos cinemas), compreendeu que teria um grande desafio pela frente. Afinal, o ator Joaquin Phoenix, que faz o papel de protagonista da história, é vegano e não usa artigos de origem animal.

Ou seja, o icônico chapéu do líder francês – o chapéu bicórnio preto com roseta azul, branca e vermelha, pelo qual colecionadores pagam caro (um deles pagou US$ 2,1 milhões ou R$ 10,2 milhões, este mês) -, não poderia ser produzido com feltro de lã, como o original. 

Na verdade, são três os modelos de bicórnio usados por Phoenix no filme, cada um indicando uma fase da trajetória de Napoleão: do oficial iniciante, passando pelo do general/cônsul (veja os dois, abaixo) e culminando com o do imperador (na foto de abertura), que variam em tamanho e opulência

Napoleão de Joaquin Phoenix usa chapéu vegano
O chapéu de oficial iniciante / Foto: Apple/Columbia Pictures
Napoleão de Joaquin Phoenix usa chapéu vegano
O chapéu de general / Foto: Apple/Columbia Pictures

Crossman, então, incumbiu sua equipe de pesquisar materiais naturais e encontrar o mais perfeito para a missão. 

Foi assim que o tecido feito com casca de uma árvore originária de Uganda – Mutuba (Ficus natalensis, foi encontrado e revelou ter a textura ideal para a produção das peças. O figurinista contou ao NY Times: “Eu estava preocupado que o resultado fosse algum material sintético, de poliéster, mas a pesquisa nos trouxe uma textura de superfície adorável para o chapéu”.

E graças à maciez e fácil manipulação, o tecido de Mutuba foi escolhido não só para produzir os chapéus de Napoleão (foram diversos exemplares devido ao desgate que pudessem ter nas gravações), mas também uma grande variedade de chapéus para generais, aliados e inimigos.

A sustentabilidade da Mutuba

O tecido feito da casca interna da árvore Mutuba é chamado de tapa ou kapa e, certamente, foi um dos primeiros a serem utilizados pela humanidade. 

Para sua fabricação, a casca interna da árvore é colhida durante a estação chuvosa e, depois, num processo longo e extenuante, batida com diferentes tipos de marretas de madeira, conferindo-lhe textura macia e fina e uma cor terracota uniforme. 

Trata-se de uma técnica pré-histórica que antecede a invenção da tecelagem e os artesãos trabalham num galpão aberto para evitar que a casca seque rapidamente. 

Napoleão de Joaquin Phoenix usa chapéu vegano

Sua cor é determinada pelo nível de exposição à luz solar – quanto mais sol, mais escuro fica o tecido -, mas ele também pode ser tingido e estampado.

Depois de extraída a casca, o tronco é protegido por folhas de bananeira para que ela possa se regenerar. E cada árvore pode fornecer o material durante 60 anos!

Estima-se que a técnica para a fabricação do tecido Mutuba tenha sido iniciada com o povo Buganda, que vive no sul de Uganda, e é adotada até hoje por diferentes comunidades que, com o tempo, descobriram os segredos de sua sustentabilidade.

Tradicionalmente, artesãos do clã Ngonge, chefiados por um kaboggoza, o principal artesão hereditário, fabricam tecidos da casca dessa árvore para a família real Baganda e sua comunidade. 

Resistente e encorpado, o tecido é utilizado na produção de uma espécie de blazer usado por mulheres (marcada por faixa na cintura) e homens chamado Barkcloth. Geralmente, a cor adotada é terracota, mas, quando destinado às peças de reis e chefes, o tecido pode ser tingido de branco ou preto e usado de um jeito diferente para marcar seu status

Adotado principalmente em cerimônias de coroação e cura, funerais e reuniões culturais, o tecido de Mutuba hoje é utilizado na produção de peças de roupa variadas, como também lençóis, cortinas, decoração de parede e sacos de armazenamento.

Em 2008, a produção do tecido de Mutuba foi declarada Património Cultural Imaterial pela UNESCO, dando-lhe maior visibilidade no mundo, e sua produção também foi incentivada para gerar renda principalmente para mulheres artesãs.

Hoje, a Mutuba também é encontrada em Bornéu, Índia, Colômbia, Equador e Peru.

Foto (destaque): Apple e Columbia Pictures (divulgação)

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.