Todos os anos, a Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Rio de Janeiro, homenageia pessoas e Instituições que se dedicam à saúde pública e à educação em saúde com as medalhas do mérito médico científico Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. A celebração geralmente acontece no final do Congresso de Saúde Pública e Formação Humana que, este ano, destacou a saúde indígena.
Depois de participarem do debate Saúde indígena: da metáfora à conquista de direitos pelo protagonismo indígena, a ministra Sonia Guajajara, o secretário de saúde indígena Weibe Tapeba (ao centro da foto acima), o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Eloy Terena, e o líder Júnior Hekurari Yanomami (última foto, abaixo), presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e da Associação Uhiri, em Rondônia, foram agraciados com a honraria.
O congresso, que durou três dias, comemorou o centenário da Sociedade Brasileira de Higiene e Saúde Pública (SOBRAHSP).
Reconhecimento
“Tratamos sobre o direito de acesso à saúde pelos povos indígenas, além dos saberes ancestrais praticados pelos nossos povos”, disse Sonia. “Fiquei muito feliz por esse reconhecimento, que também se estendeu aos meus parceiros de luta, Weibe e Eloy”.
Júnior Yanomami, por sua vez, destacou o protagonismo dos indígenas: “Hoje, ainda nos reerguendo dos tempos difíceis que enfrentamos, onde fomos assolados por uma invasão garimpeira devastadora apoiada por um desgoverno, é importante o reconhecimento do protagonismo dos povos indígenas frente a preservação e proteção das nossas florestas“. E finalizou:
“Há mais de 500 anos, resistimos a diários ataques covardes e violentos, perdemos filhos, sobrinhos, irmãs, e estamos aqui, de pé, mostrando que não vamos nos render. A nossa luta continua!”.
Júnior é um dos jovens e líderes do povo Yanomami mais atuantes. Ele vive na região de Rondônia da maior terra indígena do Brasil, homologada e demarcada há mais de 30 anos (a aldeia do xamã e líder Davi Kopenawa fica no Amazonas).
A região tem sido constantemente invadida por garimpeiros, cenário que piorou com o governo de Bolsonaro. Júnior esteve à frente da divulgação de diversos episódios de grande violência contra o povo Yanomami de Rondônia em especial mulheres e meninas, vítimas – às vezes fatais – de estupros coletivos, como aconteceu com uma menina em abril do ano passado.
Júnior e a associação que preside – Uhiri – também ajudaram a divulgar a crise humanitária vivida por seu povo por meio de imagens de indígenas desnutridos – principalmente crianças e idosos -, registradas por agentes de saúde, que chocaram o mundo em dezembro de 2022 e levaram o presidente Lula e diversos ministros à Boa Vista, em janeiro deste ano. Desde então ele também acompanha as mobilizações do Ministério da Saúde e da Sesai, que atendem os Yanomami doentes por malária e outras doenças, além de muito impactados pela desnutrição.
Em março deste ano, Júnior protagonizou campanha de conscientização sobre o garimpo ilegal em terras indígenas no Brasil, que distribuiu estatuetas da divindade Omami, do povo Yanomami, para os vencedores do Oscar, feitas de madeira.
Num filme – divulgado pelas redes sociais – ele chama a atenção para o fato de que o troféu que alguns profissionais do cinema receberiam naquela noite é de ouro, levantando a suspeita de que o minério poderia ter sido obtido de maneira ilegal e contribuído para dizimar seu povo.
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Foto (destaque): divulgação