Cerca de 80 ativistas do grupo britânico Led by Donkeys* enfileiraram mais de 11 mil roupas infantis ao longo da praia da cidade de Bournemouth, no condado de Dorset, no sul da Inglaterra, que representam as crianças assassinadas em Israel (36) e na Faixa de Gaza e na Cisjordânia (mais de 11 mil**), desde 7 de outubro de 2023.
Foi em 6 de fevereiro, marcando quatro meses do ataque do Hamas em Israel e dos ataques desproporcionais iniciados, logo em seguida, por Israel, com bombardeios pelo ar e mar, e ataques de snippers e tanques em terra.
“Todas as crianças são inocentes, sejam elas palestinas ou israelenses”, declarou organização, justificando o ato. “Por isso, construímos este memorial”.
As roupinhas formaram uma linha de 5 km, que levou cinco horas para ser finalizada e se estendeu de Canford Cliffs, no oeste, até quase Boscombe, no leste.
Para acompanhar a ‘instalação’ do início ao fim, seria necessário dedicar uma hora – um bom momento para reflexão sobre a desumanidade que tem marcado os palestinos, em especial.
“Isso deveria ser um alerta para todos nós”, declarou James Sadri, organizador do ato. “Estamos tentando comunicar a escala dessa matança”.
Para ele, o impacto não acontece quando se lê ou se ouve “esse número em um artigo ou num boletim de notícias! Você tem que ver, você tem que sentir!”.
Segundo Sadri, este é mais um apelo aos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido para que parem de incentivar a guerra e pressionem Israel por um cessar-fogo imediato.
Depois de ficarem expostas durante quase todo o dia, as roupas foram retiradas, limpas e distribuídas para instituições de caridade e lojas de segunda mão da cidade.
Sem dó
Israel insiste em falar do Hamas, mas a realidade é que o que o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, está liderando em Gaza é um genocídio.
Neste momento, quase 2 milhões de palestinos estão encurralados em Rafah (última cidade de Gaza, na fronteira com o Egito) e, além de não cessar bombardeios e fuzilamentos, o premiê deu ordens para que os soldados evacuem todos da região. Evacuar para onde?
Desde o início dos ataques de Israel em Gaza, os palestinos têm sido orientados/ameaçados a se dirigirem para o Sul, “onde é mais seguro”, mas não há mais lugar seguro no país.
E, embora o governo de Israel diga que tem se esforçado para evitar vítimas civis, as imagens divulgadas diariamente mostram exatamente o contrário. E não há qualquer empatia por crianças e bebês.
Ontem, um grupo formado por adultos e crianças foi fuzilado ao lado de um caminhão de ajuda humanitária, que distribuía água.
Esta semana, menina que pediu ajuda à ONG Crescente Vermelho depois do ataque que matou seus familiares no carro em que estava, sumiu juntamente com os voluntários, que chegaram até ela.
Além disso, são chocantes os vídeos produzidos e publicados pelos próprios soldados nas redes sociais. Cantam, dançam e fazem chacota depois de destruírem casas e edifícios residenciais.
Uma das cenas mais terríveis que viralizaram esta semana nas redes e foi apresentada em coletiva de imprensa nos EUA com representante do governo Biden, mostra um civil palestino algemado, sentado em uma cadeira seminu, com uma das pernas sangrando por ter levado um tiro; à sua frente, um soldado israelense de pé, armado com fuzil. Foi o soldado quem compartilhou, primeiro, a cena monstruosa.
Hoje, gravações de crianças mortas em Rafah, no único hospital ainda ativo da cidade, inundam o Instagram: sozinhas em macas ou veladas por suas mães em estado de choque.
A seguir, veja dois vídeos gravados pela Led by Donkeys, que mostra as roupas enfileiradas na praia.
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* A ONG Led by Donkeys foi criada em 2018 como um grupo anti-Brexit e, desde então, tem realizado performances – às vezes, quase acrobacias – com cunho político e anti-guerra;
* Segundo o Ministério da Saúde Palestino, a Sociedade Palestina Crescente Vermelho e a Israeli Medical Services, já são mais de 12.150 crianças mortas em Gaza e Cisjordânia (no total: 27.870 palestinos assassinados).
Fotos: Led by Donkeys