A Lagoa Rodrigo de Freitas, o canal do Jardim de Alah e outras paisagens aquáticas do Rio de Janeiro continuam sendo cartões postais da cidade, apesar de moradores e turistas não poderem desfrutar de suas águas devido à poluição. Mas você já imaginou algumas delas com águas translúcidas e balneáveis?
O arquiteto e urbanista Pedro Évora não só imaginou, mas, com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), recriou essas paisagens, com o intuito de apresentar os dois locais com águas translúcidas e próprias para banho, enriquecendo o debate sobre a importância da despoluição do canal do Jardim de Alah – localizado entre os bairros de Ipanema e Leblon – para a vida da famosa lagoa.
“Não faz sentido a Prefeitura do Rio licitar o Jardim com um canal fedorento!”, protestou o arquiteto, em entrevista ao Diário do Rio. O canal está assoreado e impede a renovação de água da lagoa. “É de interesse público alargá-lo para muito além do próprio Jardim, e, finalmente, tentar salvar a Lagoa”, destaca ele em seu Instagram.
De acordo com o Diário do Rio, por conta do assoreamento que vem de décadas, o canal não atende nem 20% da demanda de troca hídrica e, por isso, vive entupido. O paliativo encontrado pela Prefeitura para sua desobstrução foi a instalação de retroescavadeiras que ficam de plantão no local.
Em meio século, a retirada da areia movida pelo mar para a boca do canal já chega a cerca de 1,5 milhões de metros cúbicos das praias de Ipanema e Leblon. E há quem defenda a continuidade dessa atividade! Estes alegam que, para resolver definitivamente o problema, é preciso alargar o canal ou colocar dutos subterrâneos para fazer a ligação.
Em março, a Prefeitura lançou edital de concessão do jardim para a iniciativa privada. O projeto contempla área de lojas, restaurantes e mais áreas verdes, mas a maioria dos moradores do entorno é contra a concessão.
Lagoa Balneário
O resultado do trabalho imagético realizado por Évora – batizado de ‘Lagoa Balneário‘ – foi exposto no Alalaô Kiosk, no bairro do Arpoador, em 2 de julho, e fez parte de evento organizado por ele, o economista Mauro Viegas Neto e o produtor cultural Marcus Wagner para debater a urgência da despoluição do canal.
“A exposição procura lançar luz sobre este gargalo centenário”, escreveu ele. “É construída com história, tecnologia e fantasia — com o auxílio da Inteligência Artificial gerou-se imagens da Lagoa idealizada. Para urbanizá-la, foi além, evocou grandes nomes da arquitetura brasileira, simulando o traço de criadores póstumos: Niemeyer, Lina Bo Bardi, Burle Marx, Affonso Reidy, Sérgio Bernardes e Benedicto de Barros”.
Além das belas imagens de sonho, a mostra apresentou conteúdo técnico inspirado em estudos do engenheiro Paulo Rosman, professor da COPPE/UFRJ. Especialista na Lagoa desde os anos 90, ele afirma que o “estrangulamento” do canal do Jardim de Alah é um dos principais problemas que causam a poluição da lagoa, visto que dificulta a troca da água local com a do mar.
“Trabalhos de ponta da engenharia costeira brasileira, justificando com soluções técnicas todo o seu propósito: espalhar ideias para melhorar a cidade!”, completa Évora.
Esgoto e mangue
O arquiteto e urbanista ainda lembra que mudanças implementadas no descarte do esgoto de construções (eram despejados 5 milhões de litros diariamente na lagoa!) – que ainda não são suficientes para resolver a poluição, claro! -, já ajudaram a transformar visivelmente a água da lagoa, que está mais transparente.
Soma-se a isso o trabalho do biólogo Mario Moscatelli, que há mais de três décadas luta pela preservação do meio ambiente no Rio de Janeiro – enfrentando os poderosos do capital! -, em especial dos manguezais. Em post de Évora no Instagram, Moscatelli comentou:
“O manguezal diversificou o ambiente gerando nichos espaciais, reprodutivos e alimentares que não existiam antes de 1989, incrementando a biodiversidade. Além disso, atua na absorção de nitrogênio e fósforo da água, melhorando sua qualidade além de carbono da atmosfera. Associado a isso, há a nova gestão da concessionária de água e esgoto que tem, de fato, gerido a questão do saneamento na região. Portanto, são dois fatores que atuam nessa melhoria ambiental”.
O biólogo e documentarista Ricardo Gomes, do Instituto Mar Urbano, constatou a melhora da água ao mergulhar na Lagoa Rodrigo de Freitas no início deste mês:
“Tá acontecendo uma coisa que eu achei que nunca fosse ver na vida. Que um dia, com água tão limpa, eu fosse mergulhar na Lagoa. Esse dia aconteceu!”, declarou em entrevista ao G1.
Évora salienta que, de acordo com vários estudos, a questão da poluição da Lagoa Rodrigo de Freitas envolve também outros aspectos: a topografia do fundo da lagoa, a dinâmica da vegetação e o acúmulo de material orgânico, além de outras questões que só podem ser solucionadas aumentando a dinâmica de troca da água com o oceano.
O futuro desejado
A exposição Lagoa Balneário durou apenas algumas horas, mas as imagens continuam disponíveis para fazer a gente pensar. Ao organizar a exposição, o arquiteto e urbanista também queria provocar as pessoas a produzirem outras imagens da Lagoa e do Jardim ou de outros símbolos paisagísticos do Rio de Janeiro, projetando o futuro desejado. Quem sabe você se inspira e se aventura com a IA….
A seguir, mais imagens da Lagoa Rodrigo de Freitas com total balneabilidade.
Fontes: G1 e Diário do Rio
Fotos: divulgação