Palavras têm força. Assim, no Dia Internacional das Florestas, 21 de março, cabe refletir sobre o significado da origem da palavra floresta.
Forestis em latim, é adjetivo de foris, que em português significa fora. Forasteiro, por exemplo, também vem daí. Na Europa antiga, florestas eram áreas fora do limite da comunidade, onde só monarcas e senhores de posses podiam caçar e extrair madeira. Isso, de pronto, carrega em si dois significados: o da floresta como algo externo à, ou distinto, da sociedade; e a floresta como uso, como commodity.
Curiosamente, ao contrário de outras línguas modernas – latinas ou não (forest em inglês, forêt em francês, foresta em italiano) – o português insere um “l”: floresta. Teria alguma relação com a palavra flor? Flor vem do latim flos, que alguns sugerem vir de uma fonte indo-europeia – bhlo, que significaria algo como brotar. Brotar traz o sentido de nascer, renascer, gerar, regenerar. É a explosão de vida: algo que se dá de dentro para fora. Seria isso?
Estamos dentro ou fora da floresta? A floresta está dentro ou fora de nós?
Se as línguas modernas suscitam dúvidas, os idiomas dos povos originários e indígenas ao território brasileiro são mais explícitos quanto a isso.
Somos um com a floresta. Estamos dentro dela e ela está dentro de nós. Urihi-a, na língua Yanomami, seria algo como terra-floresta, a morada de espíritos. Para o povo Huni-Kuin, na floresta onde moram, também moram os espíritos: Ni Yuxibu.
Em Tupi-Guarani, Kaa é folha, planta, mato ou floresta, ou seja, é tanto as partes como o todo. Esses idiomas sugerem a percepção de floresta como espaço-tempo de mistura – do humano com o mais-que-humano, do visível com o invisível, do material com o imaterial, de tempos.
Isso talvez esteja também por trás do fato dos idiomas ameríndios não terem sinônimos diretos nem para natureza nem para sociedade. A natureza está dentro e fora de nós, assim como a floresta.
Contudo, dos últimos 500 anos de expansão colonial europeia emergiu a visão hegemônica expressa nos idiomas europeus: floresta como objeto de uso, externo à sociedade. Mais foresta que floresta.
O ser humano dito moderno está fora da floresta e ela está fora destas pessoas. Por exemplo, diante da multicrise planetária, para muitos a floresta hoje é traduzível em termos de estoque ou sequestro de carbono. Tem um preço. Fala-se até em bioeconomia (ah, as palavras!), embora muitas vezes estas mesmas vozes se esqueçam que com desmatamento, sem floresta e sem gente, não há como existir nem bio nem economia.
Como voltar à floresta? Como rebrotá-la dentro de nós? Talvez devamos perguntar aos que dela nunca saíram, povos indígenas e locais, que foram e são expostos a um histórico de massacres e injustiças.
Basta dizer que 36% das florestas do mundo em bom estado de conservação estão dentro de terras indígenas, contribuindo para a mitigação de mudanças climáticas e gerando meio de vida para seus habitantes. Se não fosse pelos “não-modernos”, mais um terço das florestas do planeta já teriam desaparecido, antes mesmo que tivéssemos chance de “voltar” a elas.
Feliz dia, Floresta! Que tenhamos sabedoria o bastante para que, algum dia, entendamos que o dia da floresta também é nosso dia. Afinal, somos floresta.
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