
A equipe do Criadouro Fazenda Cachoeira está em festa. Nasceram entre os dias 14 e 17 de maio dois filhotinhos de ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii), espécie nativa da região de Caatinga, na Bahia, e infelizmente, considerada extinta na natureza desde o ano 2000.
De acordo com a divulgação feita na página do Facebook do criadouro, a reprodução foi realizada por incubação artificial dos ovos.
A mãe dos filhotes, chamada de Andrea, também é fruto de reprodução em cativeiro. Ela e outra ararinha-azul nasceram em outubro de 2014, última vez que o processo havia sido bem-sucedido no Brasil, daí tanta comemoração com o novo nascimento.

Os filhotinhos recém-nascidos
Fazenda Cachoeira, em Minas Gerais, é um criadouro científico para fins de conservação, não aberto à visitação pública, que faz parte do programa de reintrodução da ararinha-azul no Brasil, um desdobramento do Plano de Ação Nacional a Conservação da Ararinha-azul (PAN Ararinha-azul), coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave/Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade – ICMBio).
Descrita pela primeira vez em 1832, a espécie tem aproximadamente 57 cm, quase a metade do tamanho da arara-azul-grande, daí o seu nome “ararinha-azul”. Sua plumagem azul e seu canto estão entre suas mais marcantes características.
Sua beleza a fez se tornar vítima do tráfico ilegal de aves silvestres. Além disso, a destruição de seu habitat também provocou o desaparecimento da ararinha-azul.
Hoje a ararinha-azul só sobrevive em cativeiros. São pouco mais de 150 indivíduos e a maioria deles – 90% da população ainda existente no mundo – está na Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), na Alemanha.
De acordo com a administração do Criadouro Fazenda Cachoeira, apenas 11 indivíduos estão no Brasil.
Denúncias e programa parado: repatriação em risco
Em junho de 2018, o ministério do Meio Ambiente anunciou a assinatura de um acordo, na Bélgica, entre o governo brasileiro e organizações de conservação europeias – Pairi Daiza Foundation e a ACTP -, que estabelecia a “repatriação” de 50 ararinhas-azuis de volta ao país, conforme noticiamos aqui.
Mas no final do ano passado, uma denúncia do jornal britânico The Guardian fez sérias acusações contra o proprietário do criadouro alemão. De acordo com a reportagem da publicação, Martin Guth seria um ex-gerente de boate, já preso por extorsão e sequestro, e que poderia ter envolvimento com tráfico ilegal de aves.
O Conexão Planeta repercutiu a denúncia no Brasil e fez uma série de matérias sobre o assunto. Descobriu que muitos biólogos e criadores no país já tinham ouvido falar sobre a má fama de Guth, mas todos relataram medo em denunciar o alemão (leia mais aqui).
Procurado pelo Conexão Planeta, o ministério do Meio Ambiente, ainda sob a gestão de Edson Duarte, respondeu algumas questões, mas nunca se posicionou sobre as denúncias feitas a Guth.
Há algumas semanas, na coletiva organizada por ex-ministros do Meio Ambiente para repudiar o desmonte da política ambiental no governo Bolsonaro, Duarte afirmou que o programa da ararinha-azul, que teria custado 10 milhões (ele não esclarece se em reais ou dólares), está parado. “Ele corre o risco de uma ruptura porque não foi fechado novamente o acordo e podemos perder o programa”, alertou.
No dia 10 de maio, o Conexão Planeta entrou em contato com as assessoria de imprensa, tanto do ICMBio, quanto do ministério do Meio Ambiente, para ter um retorno sobre o assunto. Até hoje, duas semanas depois, não houve nenhuma resposta.
Enquanto isso, continua na Alemanha mais de 90% das ararinhas-azuis existentes no planeta.
Especialistas em reprodução em cativeiro demonstram preocupação de que o maior grupo de indivíduos da espécie esteja em posse somente de um único criador. Caso aconteça algum problema, o contágio de uma doença, por exemplo, todas correriam risco de vida.
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Fotos: reprodução Facebook Criadouro Fazenda Cachoeira