Espécies invasoras causaram US$ 28,6 bilhões de prejuízos por ano no mundo, desde 1970

Espécies invasoras ou exóticascomo o bichano acima, creia! – são aquelas que não fazem parte de um habitat específico, mas lá vivem porque foram introduzidas por seres humanos de forma acidental ou proposital, sem estudo prévio.

E, justamente por não fazerem parte do ambiente, provocam impactos negativos ao equilíbrio do ecossistema, podendo resultar em perda de biodiversidade ou prejuízos financeiros, entre outros, sejam animais ou plantas.

Pesquisadores coordenados por especialistas da Universidade Paris-Saclay, em Paris, acabam de divulgar pesquisa realizada durante cinco anos, que estima que, entre 1970 e 2017, espécies invasoras causaram prejuízos calculados em 1,288 trilhão de dólares, o que equivale a uma média anual de 26,8 bilhões de dólares.

O estudo foi publicado na revista Nature em 31 de março: High and rising economic costs of biological invasions worldwide (Custos econômicos altos e crescentes de invasões biológicas em todo o mundo) e revela que foram analisados os efeitos nocivos de espécies variadas transportadas entre habitats: plantas, insetos, répteis, pássaros, peixes, moluscos, microrganismos ou mamíferos.

Nesse período, alguns anos foram especialmente catastróficos nesse sentido, do que outros. Em 2017, o prejuízo chegou a 162,7 bilhões de dólares, montante que equivale a 20 vezes os orçamentos da Organização Mundial de Saude (OMS) e do Secretariado da ONU (Organização das Nações Unidas)!

E os cientistas destacam, ainda, que tais custos podem estar subestimados, ou seja, os custos reais para o combate à proliferação dessas espécies introduzidas pelos seres humanos podem ser muito maiores do que eles registraram.

Insetos, ratos, cobras e… gatos!

mosquito transmissor do zika virus relacionado com casos de microcefalia
Mosquito tigre / Foto: U.S. Departament of Agriculture Photostream/Creative Commons/Flickr

Segundo o autor principal, Christophe Diagne, do laboratório de Ecologia, Sistemática e Evolução da referida universidade, a pesquisa revela não só o tamanho do prejuízo financeiro como também o aumento constante desse tipo de invasão, desde 1970.

A maior parte dos custos está associada aos danos aos ecossistemas, plantações ou pescarias. Medidas de controle de pragas também foram incluídas na pesquisa, e trata-se de uma análise de centenas de estudos que fazem parte de um novo banco de dados de espécies invasoras.

As dez principais pragas invasoras foram analisadas preliminarmente. Entre elas estão ratos comedores de plantações, a mariposa cigana asiática, que está atacando árvores em todo o hemisfério norte, e o mosquito tigre, nativo do sudeste asiático, que é uma das piores espécies invasoras do mundo, pois transmite doenças como chikungunya, dengue e zika.

Outra espécie temida é a cobra cipó marrom (foto de destaque neste post): elas devorou quase todos os pássaros e lagartos nativos de Guam, desde que foi acidentalmente introduzida em meados do século XX em seu habitat na Micronésia, Pacífico Sul.

Além disso, a cobra se infiltra em instalações elétricas, ameaçando as pessoas dentro de suas casas e causando quedas de energia.

Originário dos cursos d’água da ex-União Soviética, nas décadas de 1980 e 90, o mexilhão zebra invadiu os Grandes Lagos da América do Norte, bloqueando tubulações, ameaçando espécies nativas e causando bilhões de dólares em prejuízos.

Já o sapo coqui porto-riquenho encontrou um novo lar sem predadores naturais no Havaí, exceto os moradores locais porque suas propriedades foram desvalorizadas graças ao seu crocitar ensurdecedor, que pode chegar a 100 decibéis.

Comércio internacional

Os pesquisadores contaram que os custos anuais triplicam a cada década e dizem respeito não só aos prejuízos diretos e a medidas de combate, como também ao aumento dos estudos científicos sobre o assunto.

Além disso, são muitas as evidências que apontam um “aumento exponencial nas espécies introduzidas, devido ao crescente comércio internacional”, relata Franck Courchamp, diretor do mesmo laboratório Paris-Saclay. “Importamos muitas espécies, voluntária ou involuntariamente”.

As causas estão ligadas a uma longa história ligada ao comércio humano, ao colonialismo e às viagens.

Data do início de 1800 a invasão de coelhos europeus selvagens na Austrália, pela primeira vez. Sua população explodiu, atingindo proporções catastróficas que devastaram espécies nativas, causando bilhões de dólares em prejuízos às plantações.

Para driblar o problema, em 1950, o governo australiano lançou uma doença que afeta apenas coelhos – a mixomatose -, exterminando mais de 90% dos coelhos selvagens. No entanto, alguns indivíduos desenvolveram imunidade.

Um dos maiores desafios ambientais do mundo

Os pesquisadores acreditam que, ao precificar o custo das espécies invasoras ou exóticas, o estudo contribuirá para aumentar a consciência para a gravidade do problema, quem sabe colocando-o no topo da lista dos maiores desafios ambientais da humanidade.

Ao mesmo tempo em que destaca a estimativa monetária, o estudo aponta “os impactos ecológicos e de saúde das invasões, não só significativos, mas, muitas vezes, incalculáveis”.

Para o painel consultivo de ciências da ONU para a biodiversidadeIntergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES) -, as espécies invasoras estão entre os cinco principais causadores da destruição ambiental em todo o mundo — todos provocados pelos seres humanos.

Os outros quatro são muito conhecidos:
– mudanças no uso da terra,
– exploração de recursos naturais,
– poluição e
– mudança climática.

Em 2019, nos 21 países estudados, o IPBES declarou que houve um aumento de 70% das espécies invasoras desde 1970.

E Franck Courchamp, diretor do laboratório Paris-Saclay, que participa do próximo estudo do IPBES, o pior ainda pode estar por vir!

“O comércio internacional fará com que mais e mais espécies sejam introduzidas, enquanto a mudança climática fará com que mais e mais dessas espécies introduzidas sobrevivam e se estabeleçam”, destacou.

E o que fazer para evitar que isso aconteça? O estudo aponta que a detecção precoce, mais pesquisa para obter mais e melhores dados, além de medidas preventivas podem reduzir os custos dessa tragédia.

E Courchamp destaca o gato doméstico – como o bichano que ilustra este post – que figura na lista dos dez piores invasores (junto com o mosquito tigre, a mariposa cigana e o mexilhão verde) dos pesquisadores.

Foto: Julian Guttzei/Unsplash

Este bicho se espalha pelo mundo há centenas de anos e tem se transformado em invasor “em quase todas as ilhas do mundo”, destacou o pesquisador. Eles “têm sido responsáveis ​​pela maior matança de aves, répteis e anfíbios no mundo, que não estão preparados para este tipo de predador”, acrescentou.

Precisamos aprender a lidar com estes intrusos “exóticos”, cujo custo para a humanidade e o meio ambiente é enorme e só cresce.

Fontes: G1, The Guardian, Phys Org

Foto (destaque): Wikimedia Commons

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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