
A 50a. edição do Fórum Econômico, que começa hoje, em Davos, na Suíça – e vai até 24/1, sexta -, será marcada por uma nova postura do evento, que tem como base um novo manifesto, lançado em dezembro, que reúne “um conjunto de princípios éticos para orientar empresas na era da Quarta Revolução Industrial”, substituindo o de 1973, que pregava Um código de ética para os líderes de negócios.
Por isso, o tema principal deste fórum revela profunda preocupação com o meio ambiente, com a sustentabilidade do planeta, com as mudanças climáticas e com a desigualdade. E ganhou, por isso, o nome de Stakeholders por um mundo coeso e sustentável.
Neste cenário, para o fundador do Fórum, Klaus Schwab, é “tranquilizador” receber o presidente dos EUA, Donald Trump, e a ativista climática, Greta Thunberg, na reunião deste ano. Ambos vão falar hoje.
Na semana passada, Schwab disse à agência Reuters que vê grandes mudanças nos negócios, na sociedade e na cultura nos últimos 50 anos, desde que criou o encontro anual nos Alpes suíços. Inicialmente, era um fórum para líderes empresariais, mas “agora é uma reunião importante para os formuladores de políticas e ativistas”.
Schwab destacou, ainda, o resultado do Relatório de Riscos Globais (GRR), documento preliminar do encontro, lançado na semana passada, que dá bem essa medida, como noticiamos aqui, no Conexão Planeta. O documento aponta as maiores preocupações de 750 especialistas e tomadores de decisão globais em relação a riscos e tendências para a formulação de políticas e estratégias nos próximos dez anos.
Esta foi a primeira vez, em 15 anos, que os cinco principais riscos globais são ambientais. Envolvem eventos climáticos extremos, falhas na mitigação e adaptação às mudanças climáticas, danos e desastres ambientais, grande perda de biodiversidade e colapso do ecossistema, e desastres naturais graves, e, agora, estão muito à frente dos apresentados por tensões geopolíticas e ataques cibernéticos.
O site do Fórum indica que, o chamado “capitalismo das partes interessadas” – com base nessa nova postura socioambiental – está ganhando força, em parte, graças ao “efeito Greta Thunberg”.
“Queremos que isso seja feito agora, não em 2050, 2030 ou 2021!”
Assim, o ambiente mostra-se bastante favorável para a ativista adolescente que, nos últimos tempos, têm dirigido sua “ira” também para as empresas. Em seu discurso em Davos, ela deve dizer o mesmo que escreveu em artigo coletivo publicado no jornal britânico The Guardian – assinado também por outros 17 jovens ativistas climáticos do movimento Fridays for Future (entre eles, uma brasileira: Danielle Ferreira de Assis). Nele, já revelou suas intenções (reproduzo o texto no final deste post).
“Exigimos que, no Fórum deste ano, participantes de empresas, bancos, instituições e governos interrompam imediatamente todos os investimentos em exploração e extração de combustíveis fósseis, encerrem imediatamente todos os subsídios aos combustíveis fósseis e deixem de investir imediata e completamente em combustíveis fósseis. Não queremos que essas coisas sejam feitas até 2050, 2030 ou até 2021, queremos que isso seja feito agora“.
Greta chegou a Davos no dia 17 para participar de uma grande manifestação de jovens – a Greve pelo Clima – em Lausanne, e prometeu que, no fórum, será ainda mais intensa na cobrança aos líderes mundiais para que encarem a crise climática com seriedade. “Aos líderes mundiais e aos que estão no poder, digo que ainda não viram nada, vão ver muito mais, garanto”. E completou: “Para mim, está é a 74ª semana de greve. Nós, jovens do mundo todo, começamos esta greve todas as sextas-feiras, e já deveríamos ter feito isto há muito tempo”.
O protesto reuniu cerca de 15 mil pessoas e foi um dos maiores realizados por jovens pelo clima no país. Com um detalhe: também participaram 12 ativistas climáticos que, há pouco mais de um ano, foram presos por entraram em uma filial do Credit Suisse, em Lausanne, disfarçados de tenistas e pedir que Roger Federer – o tenista mais famoso do país – cortasse relações comerciais com a instituição. Quando a mobilização – da qual Greta paritipava – passou pelo banco, os manifestantes mostraram uma faixa pedindo para que Federer se envolva mais na luta contra a crise climática. Ousados.
Claro que a mensagem de Greta será dirigida também para o presidente dos EUA, Donald Trump, que está entre os negacionaistas do clima mais ferozes, que, no ano passado, zombou dela, dizendo que tem um “problema de controle da raiva”.
Este ano, é a primeira vez que a ativista e o presidente americano estarão presentes ao mesmo evento. Isso não acontece desde a cúpula climática na sede das Nações Unidas, em 2019, em Nova York, onde ela foi flagrada, nos bastidores, olhando fixamente para ele, depois que se cruzaram. Mas, desta vez, é bem possível que dividam o palco ou, no mínimo, se esbarrem.

Carlos Nobre ‘salva’ a presença do Brasil
Bolsonaro não vai à Davos. O que diria lá, não é mesmo? E ainda correndo o risco de encontrar a “pirralha”? O presidente deve ter desistido pra evitar as perguntas da imprensa – ou mesmo de líderes globais ou empresários mais conscientes – a respeito dos incêndios na Amazônia, do vazamento de óleo em quase todo o litoral do pais, as ameaças constantes aos indígenas (que se reuniram esta semana com Raoni, com grande repercussão mundial) ou ainda sobre seu ex-secretario de cultura nazista.
Seriam muitas questões delicadas das quais ele teria que fugir como faz aqui. Mas lá ficaria mais patético e visível. Enviar Ricardo Salles, ministro do meio ambiente? Nem pensar! Mandou só Paulo Guedes, ministro da economia, e um representante do Ministério da Saúde.
Que bom que não temos apenas governantes que “fogem da raia”. O brasileiro Carlos Nobre, climatologista e um dos maiores experts do mundo em aquecimento global e Amazônia, foi convidado para fazer parte de três painéis de debates. Quem sabe encontra Greta…
O artigo de Greta e 17 jovens ativistas, na íntegra
O texto Em Davos, diremos aos líderes mundiais que abandonem a economia de combustíveis fósseis foi publicado no site do jornal britânico The Guardian em 10 de janeiro. Aqui, está ele, na íntegra.
Evitar a catástrofe seria a melhor decisão de negócios que surgiria do fórum econômico em seus 50 anos de existência.
“Acabamos de entrar em uma nova década, uma década em que todos os meses e todos os dias serão absolutamente cruciais para decidir como será o futuro. No final de janeiro, os principais executivos, investidores e formuladores de políticas se reunirão em Davos para o 50º aniversário do Fórum Econômico Mundial.
Exigimos que, no fórum deste ano, participantes de todas as empresas, bancos, instituições e governos interrompam imediatamente todos os investimentos em exploração e extração de combustíveis fósseis, encerrem imediatamente todos os subsídios aos combustíveis fósseis e desinvestem imediata e completamente os combustíveis fósseis.
Não queremos que essas coisas sejam feitas até 2050, 2030 ou até 2021, queremos que isso seja feito agora – como no momento.
Entendemos e sabemos muito bem que o mundo é complicado e que o que estamos pedindo pode não ser fácil. Mas a crise climática também é extremamente complicada, e isso é uma emergência. Em caso de emergência, você sai da sua zona de conforto e toma decisões que podem não ser muito confortáveis ou agradáveis. E vamos deixar claro: não há nada fácil, confortável ou agradável na emergência climática e ambiental.
Os jovens estão sendo decepcionados pelas gerações mais velhas e pelos que estão no poder. Para alguns, pode parecer que estamos pedindo muito. Mas este é apenas o mínimo de esforço necessário para iniciar a rápida transição sustentável. O fato de que isso ainda – em 2020 – ainda não foi feito é, francamente, uma desgraça.
No entanto, desde o acordo de Paris de 2015, 33 grandes bancos globais investiram coletivamente US $ 1,9 milhão em combustíveis fósseis, segundo o relatório da Rainforest Action. O FMI concluiu que, apenas em 2017, o mundo gastou US $ 5,2 bilhões em subsídios aos combustíveis fósseis. Isso tem que parar!
O mundo das finanças tem responsabilidade com o planeta, as pessoas e todas as outras espécies que vivem nele. De fato, deve ser do interesse de todas as empresas e partes interessadas garantir que o planeta em que vivem prosperará. Mas a história não mostrou a disposição do mundo corporativo de se responsabilizar. Portanto, cabe a nós, as crianças, fazer isso. Apelamos aos líderes do mundo para que parem de investir na economia de combustíveis fósseis, que está no centro dessa crise planetária. Em vez disso, eles devem investir seu dinheiro em tecnologias sustentáveis existentes, pesquisa e restauração da natureza. O lucro a curto prazo não deve superar a estabilidade da vida a longo prazo.
O tema da reunião deste ano em Davos é “Acionistas por um mundo coeso e sustentável”. De acordo com o site do fórum, os líderes se reunirão para discutir idéias e melhorar nosso progresso global em mudanças climáticas. Nosso pedido a eles talvez não seja tão exagerado, considerando que eles dizem que entendem e priorizam essa emergência. Qualquer coisa menos que cessar imediatamente esses investimentos na indústria de combustíveis fósseis seria uma traição à própria vida. Os negócios de hoje, como de costume, estão se transformando em um crime contra a humanidade. Exigimos que os líderes desempenhem seu papel no fim dessa loucura. Nosso futuro está em jogo, que seja o investimento deles”.
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*Greta Thunberg é uma ativista ambiental de 17 anos de Estocolmo, Suécia. Este artigo foi co-escrito com os jovens ativistas climáticos Jean Hinchliffe, Austrália; Danielle Ferreira de Assis, Brasil; Joel Enrique Peña Panichine, Chile; Robin Jullian, França; Luisa Neubauer, Alemanha; Licipriya Kangujam, Índia; David Wicker, Itália; Julia Haddad, Líbano; Oladosu Adenike, Nigéria; Iqbal Badruddin, Paquistão; Arshak Makichyan, Rússia; Holly Gillibrand, Escócia; Alejandro Martínez, Espanha; Isabelle Axelsson, Suécia; Sophia Axelsson, Suécia; Ell Jarl, Suécia; Mina Pohankova, Suécia; Linus Dolder, Suíça; Vanessa Nakate, Uganda; Olhos de Ferro Tokata, EUA.
Fotos: divulgação BBC Radio 4/ Today programme (Greta) e divulgação Casa Branca