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Educação antirracista: não basta ser contra a discriminação, é preciso combatê-la!

Recentemente, presenciamos o absurdo: jovens de escolas particulares de Valinhos (SP) e de Porto Alegre (RS) gravando e divulgando conteúdos racistas, classistas e xenófobos. Mensagens que, claramente, flertam com ideologias fascistas e nazistas e que atacam, principalmente, pessoas pobres, pretas e nordestinas. 

Os ocorridos se deram em meio ao cenário de eleições presidenciais, sobretudo após a apuração das urnas. Vimos, durante toda a corrida eleitoral de 2022, uma parcela considerável da população defender e reproduzir discursos de ódio, alinhados, principalmente, à preconceitos étnico e de classe; e isso certificou aquilo que, infelizmente, ainda somos: um país escravocrata. 

Mas, precisamos deixar muito claro: não há mais espaço para esse Brasil!

Não há mais espaço para a reprodução de discursos que ferem a dignidade humana e que vão contra um arcabouço legal que, desde 1989, por meio da Lei 7.716, pune todo e qualquer tipo de discriminação ou preconceito, seja de origem, raça, sexo, cor, idade (a pena prevista para esse tipo de crime é de 2 a 5 anos de reclusão).

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Em qualquer situação, o preconceito é inaceitável, mas, quando parte de crianças e jovens, também é profundamente entristecedor, já que é nas novas gerações que deveríamos encontrar esperança e reais oportunidades de mudança rumo a um mundo melhor. Por isso, se elas estão assumindo comportamentos preconceituosos, falhamos todos.

O que essas crianças e adolescentes estão fazendo é reproduzir falas que escutam, além de se sentirem autorizadas a ferirem o próximo. Então, precisamos nos perguntar: Quem as está autorizando a praticarem esses crimes? Quem são os adultos que estão guiando essas crianças e esses jovens?

Educar é tarefa comunitária

Educar um ser humano é tarefa complexa e requer o envolvimento de muitas partes, sobretudo família e escola, que devem ser próximas e estabelecer uma cultura dialógica capaz de garantir uma formação integral e saudável às crianças e adolescentes. Não se pode responsabilizar de forma individual, mas coletiva: há um tecido social, repleto de signos e significados simbólicos, que normaliza o preconceito, tornando-o passível de ser reproduzido até mesmo por crianças pequenas.

Nos casos de discriminação citados, houve punição por parte das escolas. Em uma delas, oito alunos agressores foram expulsos. Mas, antes de considerar a punição, precisamos garantir que nenhuma criança ou jovem desenvolva comportamentos dessa natureza, pelo contrário: as práticas educativas, sejam elas formais ou não-formais, devem, sempre, orientá-los a serem críticos a qualquer forma de preconceito. Devemos educá-los para a diversidade, para que reconheçam e respeitem tudo aquilo e todos aqueles que forem diferentes deles.

A Educação é, em sua essência, um instrumento de liberdade, que deve conduzir os indivíduos a se tornarem cidadãos justos, inclusivos e promotores da igualdade.

Então, me pergunto: será que nas escolas onde ocorreram os crimes citados – e em tantas outras espalhadas pelo Brasil – existe, de fato, uma educação orientada à diversidade? Será que essas – e tantas outras instituições de ensino – são antirracistas? Não se trata de emitir notas de indignação. O trabalho de educação para a diversidade é diário – e acontece por meio de exemplos, de convivência, de debates e de políticas afirmativas.

A sua escola é antirracista?

A escola, como espaço de socialização e de reflexão crítica, precisa se posicionar não somente contra discursos de ódio, mas agir para combatê-los e impedir que se disseminem.

Para Yhannath Silva, advogada, empresária-preta e pesquisadora em Diversidade e Inclusão, não basta uma escola se posicionar como não racista: “Ser não racista te coloca numa posição de inércia, enquanto ser antirracista pressupõe ação, transformação. É sobre estar num ambiente só com pessoas brancas e não achar que está tudo bem. É sobre se indignar e agir”.

Yhannath Silva durante palestra no TEDx Blumenau 2022, onde compartilhou experiências de seu Projeto de Educação Antirracista / Foto: arquivo pessoal

Para ela, que também é mãe de um menino de 6 anos, promover uma educação para a diversidade – e principalmente para as relações étnico-raciais – é luta prioritária e, por isso, ela atua como consultora em escolas que desejam repensar suas práticas inclusivas. 

Desde 2003, por meio da Lei 10.639/03, o ensino da temática História e Cultura Afro-Brasileira se tornou obrigatório no currículo de escolas públicas e particulares, o que significa que essas instituições são obrigadas por lei a ensinar sobre cultura negra brasileira e sobre o papel do negro na formação da sociedade brasileira, sempre sob a perspectiva de resgatar a contribuição do povo negro nas áreas sociais, econômica e política.

Na mesma direção, em 2008, a Lei 11.645/08 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura indígena no Brasil.

Menina Kamayurá / Foto: Renato Soares

Yhannath, porém, diz que boa parte das escolas que visita não cumprem essa lei: “A educação antirracista é um trabalho contínuo, interdisciplinar, que deve integrar o currículo e ser tratado o ano todo. A Lei precisa ser aplicada, para que crianças e jovens tenham acesso ao ensino da História e Cultura Afro-brasileiras, para que conheçam suas origens e percebam que pessoas pretas tem um lugar importante a ocupar na sociedade”.

Outro ponto fundamental para ser antirracista passa visão de educação da escola. Uma escola que busca formar cidadãos conscientes e responsáveis, naturalmente compreende que todos os que integram a comunidade escolar são educadores.

A educação antirracista também passa pela forma como as diretoras e demais gestores enxergam os funcionários e funcionárias. É a tia da cozinha, ou a responsável pelos alimentos? Essa visão impacta diretamente em como as crianças irão enxergar diferentes formas de trabalho, entendendo que não existe uma posição melhor do que a outra”, afirma Yhannath.

Nessa perspectiva, cada indivíduo da comunidade tem seus saberes valorizados e dignos de compartilhamento, o que favorece o respeito e a admiração por diferentes formas de trabalho, evitando, diretamente, comportamentos classistas e racistas.

Por fim, a advogada destaca a importância de abrir espaços de escuta para entender o que as crianças e jovens pensam e sentem sobre o tema:

Quando vou nas escolas, e abro espaço para que elas falem, vejo o quanto ainda precisam ser ouvidas. Elas se abrem, fazem denúncias de racismo, mas também de outros tipos de abusos. Elas se sentem pertencentes à sociedade, passam da posição de “não sou ninguém” para “tenho voz e direitos”, e se autorizam a falar o que está acontecendo com elas”.

Yhannath avalia este momento como crucial nas visitas às escolas, pois têm a ver com acolhimento, afeto e autocuidado: “As crianças precisam entender o racismo e aprender a se proteger, a como denunciarAs crianças pretas precisam amar a cor da pele preta e as crianças brancas entender que somos todos diferentes e aprender a respeitar”.

Foto: Raw Pixel id 30112

Há, portanto, três grandes passos para romper com estruturas racistas em instituições de ensino:
aplicar as Leis 10.639/03 e 11.645/08 para garantir o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira e Indígena,
– repensar a cultura organizacional da escola, orientando-a à inclusão – o que também passa por política de bolsas, no caso das escolas particulares, e
abrir canais de diálogo com os alunos, principalmente de escuta – realizando, por exemplo, fóruns sobre racismo e demais práticas discriminatórias.

E, se ainda assim, situações de racismo ocorrerem, ser intolerante e resolver com a seriedade que o tema merece.

Vale, ainda, dizer que instituições de educação superior, que formam professores e professoras, precisam, também, se comprometer com práticas antirracistas – e as escolas devem seguir nesta lógica, realizando formações continuadas que abordem o tema e, também, priorizando a contratação de educadores(as) negros(as) e indígenas, para garantir diversidade não somente no corpo discente, mas também docente.

Para Yhannath, o combate ao racismo precisa estar nas escolas pois é um espaço que possibilita resultados de impacto:

Quando começamos a falar sobre o racismo com as crianças e jovens, eles levam esse conhecimento para as suas famílias e, a partir daí as bolhas estouram e o assunto se expande. É um processo de transformação através da educação, que vai para além dos muros da escola” e, finaliza: “Meu filho, hoje com 6 anos, já não é mais visto como criança bonitinha, e sim como um mal para a sociedade. É preciso inverter essa lógica e a escola é o ponto de início para isso”.

Fica então, o convite para você, educador, educadora, mãe, pai, cuidador e cuidadora pensar se a escola da qual você participa é antirracista. E o lembrete que, ao não ser antirracista, qualquer espaço se torna propicio ao ensino e reprodução de práticas racistas.

Para quem deseja se aprofundar no tema e iniciar revoluções importantes e urgentes, o Instituto Alana produziu um material completo, com curadoria de livros e filmes, além do compartilhamento de experiências antirracistas e planos de aulas que tratam sobre racismo em sala de aula.

Para saber mais sobre o trabalho desenvolvido por Yhannath Silva, acompanhe a advogada no Instagram.
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Edição: Mònica Nunes

Foto: Raw Pixel id-30301

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