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As supermigrações das aves brasileiras

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Alguns humanos são seres de hábitos: moram quase a vida toda em uma única cidade, alguns até mesmo em um único bairro. Outros, porém, são aventureiros e se arriscam mundo à fora. No mundo das aves não é muito diferente. Existem aves sedentárias, que não viajam mais do que um quilômetro de distância a partir do exato local do seu nascimento, mas estas espécies são minoria! A grande maioria das aves silvestres são espíritos livres e passam a vida “na estrada”.

Gregos antigos, como Homero e Aristóteles, já registravam grandes migrações de andorinhas e pombas há nada menos que 3 mil anos. Há séculos, cientistas investigam este fenômeno: um dos primeiros estudos que abordaram o tema foi realizado na Finlândia por Johannes Leche, em 1749.

Para se ter ideia da importância da migração na vida das aves, vale citar que, pelo menos 4 mil espécies de aves no mundo, são migrantes regulares. O que significa que cerca de 40% de todas as espécies de aves na Terra migram. Reproduzo, no final deste post, o mapa da que usei para ilustrá-lo.

Post 16 - Blog Avoando (autor: Sandro Von Matter)No Brasil, considerado o segundo país do mundo em diversidade de aves, com 1.901 espécies, nada menos que 197 espécies apresentam algum padrão migratório, segundo o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres. Desse total, 53% (104 espécies) reproduzem no Brasil e 47% (93 espécies) possuem seus sítios de reprodução em outros países, seja na região circumpolar relacionada à América do Norte e Groenlândia (aves setentrionais), ou em áreas no sul da América do Sul e Antártida (meridionais).

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Somos um dos principais “destinos turísticos” de algumas espécies de aves que mergulham em uma jornada emocionante rumo a América do Sul. Estas aves deixam suas áreas de reprodução em alguns momentos do ano, em busca de locais que propiciem maior disponibilidade de alimento e habitat para aproveitarem férias relaxantes. Estes momentos são muito importantes para elas já que proporcionam dias de descanso propícios à continuidade de processos biológicos como as trocas de penas, para depois retornarem às suas áreas de origem, completando, assim, seu ciclo biológico.

Mas nem todos os “turistas” são estrangeiros. Por aqui, ocorrem muitas migrações em escala regional, inclusive por espécies que cumprem todo o seu ciclo de vida em território nacional. Neste caso, as migrações estão relacionadas a eventos locais como as enchentes no Pantanal e os ciclos de chuva do Nordeste.

As aves que, aqui, gorjeiam

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Para entender como e onde as aves migram no Brasil e, atuar na conservação destas espécies, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE), órgão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), acaba de publicar gratuitamente (para download) o Relatório Anual de Rotas e Áreas de Concentração de Aves Migratórias.

O relatório inclui mapas detalhados e listas de espécies para todos os estados brasileiros, delimita as áreas importantes para concentração, rota, pouso, descanso, alimentação e reprodução de aves migratórias e atende determinações da Resolução n° 462 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), de 24 de julho de 2014, que estabelece procedimentos para o licenciamento ambiental de empreendimentos eólicos em superfície terrestre. Deverá ser atualizado anualmente.

aves-rodovias-300X212O objetivo maior do documento de 63 páginas é tornar acessível a órgãos licenciadores federais, estaduais e municipais informações atualizadas sobre os estudos que deverão ser realizados durante os processos obrigatórios de aprovação e liberação de novos empreendimentos eólicos. Todos os projetos localizados nas áreas indicadas no relatório deverão obrigatoriamente apresentar Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).

Segundo a base de dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), hoje, inúmeros empreendimentos de usinas eólicas no Nordeste e no Sul do Brasil já se sobrepõem a áreas extremamente importantes para a conservação de aves migratórias.

Estes dados enfatizam a relevância da execução de estudos de impacto ambiental em todas as áreas onde já existem usinas eólicas ou em locais onde foram feitos estudos prévios de viabilidade e previsão de instalação.

De acordo com o estudo A energia eólica e a conservação da avifauna em Portugal, publicado em 2005 por setes pesquisadores da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, quando os parques eólicos são instalados em zonas importantes para aves, especialmente as migratórias, altas taxas de mortalidade são detectadas.

Ainda segundo pesquisadores da COPPE/UFRJ, o pior caso de colisão de aves com turbinas eólicas aconteceu nas proximidades de Tarifa, na Espanha, em 1993, onde havia sido instalado parque eólico com capacidade para 2 mil turbinas. Sua localização coincidia com as principais rotas de migração de aves da Europa Ocidental, o que ocasionou elevada mortandade, inclusive de espécies ameaçadas de extinção (escrevi sobre esse tema – colisões de aves -, em outro post, aqui no blog).

Documentos como o Relatório Anual do ICMBIO, comentado acima, são uma ferramenta única para compreender como as aves ocupam e utilizam áreas onde empreendimentos como usinas eólicas serão instalados. Este tipo de informação é imprescindível, pois fornece dados importantes para avaliar o risco de colisão das espécies e possibilitar o desenvolvimento e a aplicação de técnicas para evitar tais acidentes (e tragédias).

Para finalizar este post, deixo vocês com o mapa das principais rotas de migração de aves no Brasil e no continente americano, elaborado pela National Audubon Society, ONG de conservação e restauração da natureza fundada em 1905 em Nova York.aves-migracoes-america-do-sul

Fotos: Sandro Von Matter
Imagem da rota de migração no Brasil extraída do Relatório Anual de Rotas e Áreas de Concentração de Aves Migratórias

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