*Por Sandrah Guimarães
A artista visual Birgitte Tümmler define-se como uma dinamarquesa apaixonada pelo Brasil. Radicada no país desde a infância, a ilustradora especializou-se em pintar animais da fauna do país, utilizando uma técnica pessoal e um instrumento muito comum na casa de todos os brasileiros. “Sempre temos uma caneta esferográfica na mão e essa facilidade despertou minha paixão. Por incrível que pareça, a caneta possibilita muitos efeitos, desde traços mais suaves até uma cobertura mais forte”.
O contato com as formas e as cores da natureza começou nos anos de 1980, no Paraná, quando Birgitte Tümmler atuou como espeleóloga e na arqueologia (leia mais aqui).
“Devo às cavernas a questão de mergulhar para dentro da natureza. A partir daí tudo se abriu para mim. Nos tornamos humildes a partir do momento em que sentimos a força e os valores que a natureza tem, e percebemos que não somos nada sem ela. E tudo teve ainda mais sentido para mim quando passei a trabalhar com arte e natureza, associadas à conservação do meio ambiente”.
De lá para cá, foram inúmeras exposições coletivas e individuais, algumas com fundo social e preservacionista, no âmbito nacional e internacional.
A ilustração que abre este texto, por exemplo, da mamãe anta e seu filhote, Birgitte fez em 2019 para o Instituto Manacá e a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Trápaga, que além de cuidar da preservação desses grandes mamíferos ameaçados, também promove o conhecimento por meio de visitas guiadas na reserva para turismo de observação.
A artista explica que suas pinturas são um trabalho naturalista e não ilustrações científicas, apesar de representarem a realidade com perfeição, principalmente no caso das aves. A construção das imagens é feita por meio da observação das aves soltas com ajuda de registros de fotógrafos da natureza.
“Os passarinhos foram aparecendo pouco a pouco, por meio de projetos, e quando vi estava fazendo uma centena de pássaros. Eu me considero um instrumento de algo maior, que nos conecta com nosso ser puro e nos leva a refletir sobre as questões da vida e do mundo.”
Maia, Rana e Mara na obra “As Três Gracinhas”, para o Santuário de Elefantes. (técnica acrílica com caneta)
Para Birgitte, muitos animais silvestres tem um brilho, alguns tons esverdeados em sua pelagem. O pelo não tem apenas a cor preta, ou azul, ou um dourado, laranja, marrom. “Se você deixar sua vista ser treinada, vai conseguir distinguir uma infinidade de cores. Elas variam, estão lá, como um espectro”, diz.
A paixão pelas aves
Atualmente Birgitte trabalha com encomendas e vendas de obras prontas. Em 2021 foi convidada para um desafio inusitado: ilustrar o rótulo de uma cerveja que tem a fábrica aos pés da Mata Atlântica, no município de Morretes, no litoral paranaense. A saíra-preciosa, ave endêmica e uma das mais coloridas das florestas brasileiras, foi escolhida como símbolo da bebida.
“A nossa ligação com a Birgitte é mesmo a natureza. Os nossos rótulos trazem imagens da Mata Atlântica e a artista tem justamente isso como grande tema de interesse. A fabricação de cerveja também é um trabalho artístico em sua forma de combinar sabores e nós sempre quisemos essa oportunidade de divulgar e unir as duas artes. Era um sonho nosso ter o trabalho dela ilustrando nossa cerveja”, conta Mirian Lovera, sócia proprietária da Cervejaria Porto de Cima.
A saíra-preciosa que virou rótulo de cerveja
Abaixo algumas das outras belíssimas obras de Brigite Tümmler:
Série pássaros: corrupião
Série pássaros: corruíra
A mandaçaia na flor de ora-pro-nobis
Foto de Birgitte Tümmler: João Vinicius Budney