Notícia boa não pode ficar restrita a uma única plataforma, pensei ao ler, ontem, – por indicação de Claudia Costin, no Facebook – a ótima reportagem da BBC Brasil sobre iniciativa que pode ajudar no combate a dengue, chikungunya e Zika vírus, principalmente em lugares muito vulneráveis. Trata-se da utilização de um peixe muito pequenino – piaba – em caixas d’água, tonéis, cisternas, vasilhas e qualquer recipiente fechado ou aberto que armazene água, que pode se transformar em perigoso criadouro de mosquitos transmissores dessas doenças.
(Leia sobre a epidemia: Investimento gigantesco em pesquisa: a arma para acabar com a dengue e o Zika vírus)
Esse peixe de água doce que mede de 4 a 5 centímetros come os ovos depositados pelo mosquito na água, reduzindo (ou eliminando) sua proliferação. Essa é a conclusão de um estudo realizado no Rio Grande do Norte e descoberto na internet por agentes de saúde da cidade de Itapetim, no sertão pernambucano – a cerca de 400 km de Recife -, que está sem água nas torneiras há quatro anos. Eles procuravam desesperados por uma solução rápida, barata e de fácil aplicação.
Na reportagem, Edinaldo Hollanda, agente de saúde da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e coordenador de Combate às Endemias nesse município, conta como se deu a implantação do método: “Entramos na internet e vimos um estudo feito no Rio Grande do Norte. Um colega nosso que já tinha trabalhado em outra cidade com esse método da piaba disse que lá eles conseguiram controlar os mosquitos. Eu o contatei e ele veio nos ajudar a fazer o mesmo”. E acrescenta: “Começamos a colocar as piabas no mês de abril e fizemos o trabalho até julho. Em setembro, notamos que o índice do nosso município tinha baixado muito, para 1,2%. Agora, estamos em 2,4%, menos do que no mesmo período no ano passado. O pessoal da regional (10ª gerência regional de saúde, que dá apoio a 12 municípios na área) quase não acreditava. Deu tanto resultado que até hoje continuamos colocando peixes nas casas”.
Desde o início de 2000, a técnica vinha sendo estudada por universidades de estados do Nordeste e aplicada apenas em cidades pequenas, com resultados diversos. E ainda é vista com reservas pelo Ministério da Saúde já que pode provocar diarreia se o peixe for colocado em água para beber – e não substitui o uso de larvicida, produto químico que mata as larvas do mosquito na água. Mas, de acordo com o especialista, não há qualquer registro de diarreia em Itapetim e os agentes tomam todo cuidado na sua aplicação: apenas uma piaba é usada em cada 200 litros; em cisternas maiores, por exemplo, de 3 a 5 mil litros, são colocados 5 peixes. Por semana, têm sido distribuídas pela cidade cerca de 2 mil a 2.500 piabas.
A reportagem da BBC também entrevistou o biólogo Carlos Fernando Sagueirosa, da Unicamp, que alertou para a ineficiência da técnica para erradicar o mosquito. “O controle biológico não serve para vetores como o mosquito que transmite a doença que causa microcefalia. Você precisa ser mais sério, mais rígido e eliminar as populações desses insetos em cada bairro”, disse. “Esse tipo de controle só serve para reduzir a população de um ‘inimigo’ para um valor aceitável. Mas um índice de infestação baixo de Aedes aegypti ainda mantém a transmissão de doenças”. Ele também não acredita em sua eficácia em cidades com mais de 5 mil habitantes.
O especialista também destaca que o ser humano é o principal agente de controle biológico e que a melhor forma de combater o mosquito é manter os reservatórios, de qualquer tamanho, protegidos por tampas rígidas ou telas. Hollanda, da Funasa em Itapetim, rebate essa ideia: “Sabemos que tampar os reservatórios é o ideal, mas as pessoas não fazem essa parte”.
Itapetim chegou a registrar o índice mais alto de infestação do estado de Pernambuco: 13% ou 13 imóveis com focos em cada 100, ou seja, o município estava “em risco”, de acordo com o Ministério da Saúde. O índice só é considerado satisfatório quando é menor que 1%.
Seja como for, esta é realmente uma boa notícia que merece ser espalhada. O método com o piaba é um alento e pode se transformar em mais uma boa “arma” – ou seja, se somar a outras técnicas – no combate as epidemias de dengue, chikungunya e Zika que se alastram pelo país. Não desprezemos as pequenas iniciativas. Elas podem se tornar gigantes ou, no mínimo, incentivar novos estudos e avanços científicos. Para combater epidemias como as que estamos vivendo, é preciso muita gente informada, dedicada e criativa. Além de informação de qualidade.
Leia a reportagem completa de Camila Costa, publicada em 15/12/2015 no site da BBC Brasil.