Zoológicos: a transição de um modelo exploratório para importantes aliados da pesquisa e conservação

Zoológicos: a transição de um modelo exploratório para importantes aliados da pesquisa e conservação

*Por Sandrah Guimarães

Locais para exibição de animais existem há muito tempo, há registros do Egito antigo. O primeiro zoológico a ser construído foi o zoo de Viena, em 1752. No Brasil, foi o do Rio de Janeiro, espelhado nos modelos europeus. Era um local para se observar um animal que as pessoas não conseguiriam ver na natureza, pois dificilmente alguém naquela época poderia, por exemplo, ir até à África ver um elefante, uma girafa, um hipopótamo ou um leão. Além disso, os documentários sobre vida selvagem eram raros. Havia uma curiosidade muito grande em conhecer o comportamento dos animais, suas vidas e como eram seus filhotes.

“No início, o zoo tinha a função de mostrar. Os visitantes iam apenas para ver e não para aprender sobre o papel daquela espécie na natureza. Era uma experiência visual. Mas a própria população foi mudando seus conceitos a respeito das instituições e do que elas fazem. Em um processo recente, a partir dos anos 2000, começou uma pressão muito grande, no Brasil, para se melhorar o bem estar dos animais”, afirma a bióloga Nancy Banevicius, chefe de Fauna do Zoológico Municipal de Curitiba

Nancy conta que, com o movimento e a pressão da sociedade ganhando força, alguns zoos nacionais começaram efetivamente os trabalhos para dar uma função nobre para os animais sob seus cuidados, iniciando projetos de conservação.  

“Um dos projetos que ficou conhecido no Brasil todo foi o do mico-leão-dourado. No final da década de 90, estimava-se que existiam apenas 200 indivíduos na natureza. A espécie estava à beira da extinção. Zoológicos do mundo, órgãos ambientais, ONGs e pesquisadores se uniram em prol de um projeto para salvar a espécie. Com essas parcerias, começaram a ser reintroduzidos, no Rio de Janeiro, animais nascidos em zoológicos, principalmente de fora do país, onde havia muitos exemplares. Os zoos daqui também participaram e, de 2019 a 2020, a população subiu para 3200 indivíduos em vida livre, uma grande evolução, apesar da situação da espécie ainda ser bastante crítica. Os zoológicos hoje em dia têm como objetivo trabalhar assim, para que os animais continuem existindo livres na natureza”, reforça a bióloga.

Zoológicos: a transição de um modelo exploratório para importantes aliados da pesquisa e conservação

Nancy e Monalisa
(Foto: arquivo pessoal)

“Na foto acima estou com meu xodó, a Monalisa, um animal que recebemos de apreensão do tráfico. Uma fêmea filhote de Muriqui, é uma preciosidade, teria um papel fantástico na natureza e, infelizmente, foi retirada dela. Então por que estamos cuidando dela? Porque fazemos parte do plano de manejo da espécie e trabalhamos para a conservação. Uma vez que um animal super ameaçado de extinção chega a uma instituição, para permanecer sob cuidados humanos, deverá ter um papel importante no resgate da espécie”, diz Nancy. 

Estima-se que existam apenas 1 mil muriquis, ou monocarvoreiros, em vida livre. O objetivo dos pesquisadores é que Monalisa seja colocada em contato com um macho e possa reproduzir. A chefe de Fauna do Zoo de Curitiba explica que, infelizmente, ela não tem mais chances de retorno para a natureza, pois está humanizada, desenvolveu dependência até emocional com seres humanos e não sobreviveria sozinha. “Mas, quem sabe os filhotes dela possam efetivamente retornar para a natureza como um aporte genético? Pegar uma fêmea de um sangue novo, um macho de sangue novo e talvez reintroduzir seus filhotes na natureza e fazer com que eles melhorem a genética do grupo de vida livre, isso é possível de fazer”, acredita.

O Zoo de Curitiba já provou que esse tipo de projeto pode ser bem sucedido. Há duas décadas, a instituição trabalha com reprodução de papagaios ameaçados. As pesquisas começaram com o papagaio-da-cara-roxa, em parceria com a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS). Foi a primeira instituição a conseguir efetivamente reprodução da ave sob cuidados humanos. 

Atualmente trabalha também com o papagaio-de-peito-roxo. Foram enviados nove filhotes, nascidos no setor de produção, para reintrodução no Parque Nacional das Araucárias, em Santa Catarina. Antes da soltura, as aves passam por um processo de adaptação, desenvolvido pelo Instituto Espaço Silvestre, onde aprendem a comer o que existe na natureza, fugir de predadores – incluindo pessoas – e aperfeiçoar o voo em liberdade. São muitas pessoas envolvidas para fazer que efetivamente um projeto dê certo com a fauna nativa.

Em 2018, a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAAB) assinou um termo de Compromisso com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente, em que foram selecionadas 25 espécies, que devem ser trabalhadas pelas instituições brasileiras. Cada instituição aderiu ao Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção com os animais com os quais considera capaz de trabalhar. Com isso passaram a ser guardiãs e formar bancos genéticos. Os zoos foram a forma encontrada pelos órgãos ambientais para manter populações de segurança e pensar em projetos futuros de reintrodução.

“Nunca fique em dúvida com relação à origem de um animal do zoológico ou como ele é tratado. Pergunte a um técnico, pesquise, não acuse uma instituição. Os animais estão lá porque realmente não têm mais condições de viver livres. Temos que batalhar contra o tráfico, porque a maior parte dos animais que chegam às instituições é resultado de apreensões. Outra parte vem de crises ambientais, como queimadas, construção de represas e resgate de fauna. Lugar de bicho é no mato, precisamos evitar que eles saiam, mas uma vez que isso ocorra e eles não possam mais retornar, que sejam encaminhados para locais sérios que vão zelar pelo seu bem estar e dar uma função nobre para aquele animal, não meramente a exibição”, enfatiza Nancy.

Esforços para salvar da extinção a arara-azul-de-lear

Outro bom exemplo dessa mudança que ocorre não apenas no Brasil, mas no mundo todo, pode ser visto na Fundação Zoológico de São Paulo. Lá, entre muitos projetos, há o trabalho de reprodução de uma das aves mais raras do mundo, a arara-azul-de-lear, endêmica de um pequeno trecho da caatinga baiana, quase dizimada pelo tráfico. Em vida livre há apenas 1.700 aves. Atualmente o zoo paulista conta com 37 delas e dois centros de reprodução. O trabalho resultou no nascimento de 25 filhotes em cativeiro. É a única instituição brasileira que conseguiu sucesso na reprodução dessa espécie no mundo.

“O difícil é conseguir encontrar aquele casal ideal. A ave tem um comportamento reprodutivo bem diferente de mamíferos. A grande importância do cativeiro nos zoológicos está aí, ter uma população backup. Não podemos deixar que a espécie seja extinta para depois tentar tomar alguma providência, ou que se chegue a uma situação com dois ou três indivíduos em vida livre e nenhum em cativeiro, deixando se perder toda a história dessa espécie”, defende a bióloga Fernanda Junqueira Vaz Guida, responsável pelo Setor de Aves da Fundação Zoológico de São Paulo.

Para o sucesso de um projeto de reprodução como o da arara-azul-de-lear, é preciso cooperação nacional e internacional entre diversos zoológicos que abrigam algum indivíduo da espécie. “No Plano Nacional coordenado pelo ICMBio, trabalhamos como se fosse uma população única para formar casais reprodutores. Se há em São Paulo alguma fêmea sem par, sozinha, podemos mandá-la para a Espanha ou Inglaterra, onde tem um macho adulto da mesma idade.  É um trabalho mundial e integrado”, acrescenta.

Além da arara-azul-de-lear, o Zoo de São Paulo trabalha com diversas outras espécies ameaçadas. Entre os mamíferos, estão o mico-leão-preto, o mico-leão-dourado e a onça-pintada. Também são desenvolvidos trabalhos com aves, répteis e anfíbios em risco de extinção, como a perereca-pintada e a perereca-de-alcatrazes, endêmica de uma ilha do litoral paulista. As equipes atuam em campo com estudos e projetos. 

Zoológicos: a transição de um modelo exploratório para importantes aliados da pesquisa e conservação

Perereca-de-alcatrazes, espécie rara que vive em bromélias é acompanhada pelo Zoo de SP
(Foto: Renata Vaz)

A Fundação também mantém o Centro de Conservação de Fauna Ameaçada (CECFau) no interior do estado, em Araçoiaba da Serra, para reprodução e desenvolvimento de pesquisas. Trata-se de um avançado centro de estudos voltado para o monitoramento ambiental, a preservação de amostras e a manutenção de recursos genéticos.

O espaço conta ainda com micos, tamanduás e outros animais nativos e com risco de extinção. É o único zoológico no país que mantém um espaço com essa finalidade conservacionista, sem visitação pública, e com recursos próprios. 

 “A exposição dos animais, onde as pessoas podem vir passear, conhecer, não é nem metade de todo o trabalho que é desenvolvido. A exposição não é o final, é o meio. Trabalhamos sempre pensando em conservação”, ressalta Fernanda.

Zoológicos: a transição de um modelo exploratório para importantes aliados da pesquisa e conservação

Mico-leão -preto.
(Foto: Paulo Gil – Zoo de SP)

Bio Parque do Rio: o antigo dando lugar ao novo

O zoológico mais antigo do Brasil está instalado na Quinta da Boa Vista, coração de São Cristóvão, também conhecido como Bairro Imperial, antiga residência da família real. É um dos maiores parques urbanos do Rio de Janeiro, com cerca de 155 mil metros quadrados.

Durante séculos o Jardim Zoológico do Rio foi um dos pontos turísticos mais visitados da cidade e manteve uma imensa coleção de animais para exibição pública. Após uma grande crise financeira, com falta de recursos para renovar as instalações e manter os animais, o antigo zoo do Rio passou a ser administrado pela iniciativa privada, por meio de uma concessão ao Grupo Cataratas, em 2018.

Em 2020, reabriu ao público como BioParque do Rio, com a proposta de ser referência em bem estar e conservação de espécies, baseado no tripé de pesquisa, conservação e educação ambiental.

A área foi reconstruída e modernizada com reestruturação dos recintos. Grades e espaços pequenos foram substituídos por ambientes abertos, com piscinas para os animais. A nova administração implantou também o conceito de “enclausuramento inverso”, onde são os visitantes que ficam “confinados” em espaços menores para observar o comportamento dos bichos, mais próximo do que seria a vida livre.

 “Uma das questões que levamos muito em consideração é olhar qual é o ambiente que essa espécie ocupa na natureza. Qual é seu nicho? Nesse sentido recriamos espaços, porque quando se fala em bem estar animal, pode-se resumir isso em oportunidade e dinamismo. Dar ao animal a oportunidade de controlar o ambiente em que ele vive, um local dinâmico com diferentes substratos, texturas e estímulos, para que tenha uma vida rica e possa expressar seu comportamento”, explica Cláudio Maas, Gerente Técnico do BioParque do Rio.

Visão aérea do novo Bioparque do Rio

Na área dos primatas amazônicos, há cinco espécies diferentes convivendo em dois grandes complexos de ilhas. Os animais podem transitar de uma ilha para outra e interagir entre si, e o visitante tem a oportunidade de acompanhar tudo.

“Existe um acompanhamento dos animais para saber exatamente qual é o limite da interação humana. Mas na verdade, os animais que estão sob nossos cuidados sentem confiança nas pessoas, nos veem como provedores que estão no dia a dia deles. O que nos permite a proximidade como no recinto de Imersão Tropical, com quase 200 aves e mamíferos. Esses animais são condicionados para visitação e o nosso time de bem estar acompanha constantemente para que seja uma experiência positiva”, complementa o Gerente Técnico. 

Atualmente o BioParque do Rio abriga mais de mil animais de 140 diferentes espécies. Além da grande reforma, foram firmadas parcerias com renomadas instituições para desenvolvimento de pesquisas científicas focadas na conservação da biodiversidade, como o sequenciamento genômico da onça-pintada, um programa de manejo para salvaguardar a espécie no futuro.

“As onças daqui são da Mata Atlântica, do Cerrado, da Caatinga, do Pantanal e da Amazônia. Estamos mapeando o genoma de 18 indivíduos, é o maior mapeamento desta espécie no mundo, para criar e estabelecer as bases do programa de reprodução em cativeiro, com objetivo de desenvolver tecnologia e indivíduos para reconectar as populações de onças que estão hoje isoladas”, destaca Cláudio Maas. 

Cerca de 48% dos animais abrigados no BioParque são oriundos do tráfico. Muitos sofreram danos físicos ou problemas de comportamento permanentes que inviabilizam o retorno ao ambiente natural. São aproximadamente 25 projetos de diferentes tipos de atuação, conectados com o Plano de Ação Nacional do ICMBio.

“Nosso objetivo é manter populações de animais que contribuam para a diversidade genética dessas espécies que já estão vulneráveis ou ameaçadas, como é o caso da Onça-pintada, Mico-leão, Jacutinga, Mutum-silvestre, Arara-azul-de-lear e outras espécies silvestres brasileiras. É uma população backup para manter a diversidade genética.  Se alguma coisa acontecer na natureza como uma doença ou uma catástrofe ambiental, temos essa salvaguarda para programas de reintrodução e revigoramento demográfico”, finaliza o Gerente Técnico do BioParque do Rio. 

Uma preguiça no espaço Imersão Tropical: aqui os confinados são os visitantes!
Foto: Juan Carvalho

Foto de abertura: Paulo Gil – Zoo de SP (arara-azul-de-lear)

Observatório de Justiça & Conservação

O Observatório de Justiça e Conservação (OJC) é uma iniciativa apartidária e colaborativa que trabalha fiscalizando ações e inações do poder público no que se refere à prática da corrupção e de incoerências legais em assuntos relativos à conservação da biodiversidade, prioritariamente no Sul do Brasil, dentre os quais se destacam, a Floresta com Araucária

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