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Ziraldo deixa legado de amor à cultura e em defesa dos direitos humanos e da natureza

Ziraldo deixa legado de amor aos livros e em defesa dos direitos humanos e da natureza

Ziraldo Alves Pinto estava com 91 anos e distante da vida pública desde setembro de 2018, quando sofreu um AVC (acidente vascular cerebral). Segundo a família, morreu de causas naturais, em 6 de abril, em casa, no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro.

Foi desenhista, escritor, chargista, jornalista e um dos grandes nomes da literatura brasileira – em especial da literatura infanto-juvenil.

Sua trajetória foi marcada pela luta em defesa da democracia e dos direitos humanos, tendo sido um dos fundadores do jornal O Pasquim, na década de 60, um dos principais veículos de imprensa a combater a ditadura militar. Ah, um Pasquim hoje… 

Em 1980, criou O Menino Maluquinho – inspirado em seu filho -, “o menino sabido que era a alegria a casa, liderava a garotada, fazia versinhos, compunha canções, inventava brincadeiras e tinha macacaquinhos no sótão”. 

Por isso, o chamavam de “maluquinho”, mas não era, não! “Só mais tarde descobriram que tinha sido um garotinho muito amado e, por isso mesmo, muito feliz”.

O adorável personagem ficou famoso no Brasil e no mundo, não só em livro – que foi traduzido para diversos idiomas, entre eles inglês, espanhol, alemão e italiano -, mas em outros formatos como quadrinhos, peças de teatro, cinema (1985) e programas de TV. 

Na TV Brasil – emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) -, em 2006, foram apresentados 26 episódios do programa Um Menino muito Maluquinho.

O cartunista e escritor ainda apresentou o ABZ do Ziraldo durante cinco temporadas: 189 episódios que incentivavam jovens e crianças ao hábito da leitura.

Com as histórias em quadrinhos da Turma do Pererê – liderada pelo saci, que reúne um menino indígena, as namoradas de ambos e diversos animais, Ziraldo chamava a atenção da criançada (e de seus pais e professores) para a importância de proteger a natureza.

Assim, ajudou a despertar a consciência ecológica de diferentes gerações.  

Ziraldo deixa legado de amor à cultura e em defesa dos direitos humanos e da natureza

Com Flictslançado em 1969 e que também virou peça e trilha musical – Ziraldo mostra que o mundo é feito de muitas cores, mas que nem todas são iguais. De um jeito poético e amoroso, chama a atenção para a exclusão, a discriminação e bullying, sem usar essas palavras.

Destaca que todos, por mais diferentes que sejam, merecem respeito, reforçando a ideia de que cada um tem sua individualidade e sua subjetividade.

Quanta criança se identificou com Flicts! Fui uma delas.

Ela era “uma cor rara, frágil, triste, que procurou um amigo entre as outras cores, mas foi rejeitada, se sentindo abandonada e excluída”, até que “olhou para longe, para o alto, e subiu, para finalmente encontrar-se” porque ela era – nada mais, nada menos que – a lua! 

Não é genial? Lembro que quando li essa história para minha filha, nos final dos anos 80, me emocionei de novo. O livro tornou-se sua leitura de cabeceira, quase como um mantra, durante um bom tempo. E é uma obra que permanece no coração de muita gente: li várias manifestações a respeito nas redes sociais.

Saúde, direitos e tráfico de animais

Sempre que tinha oportunidade, Ziraldo se engajava em campanhas para a preservação do meio ambiente ou em defesa dos direitos das crianças. Criou peças muito bacanas para ministérios do segundo mandato do presidente Lula, além de um desenho lindo para uma instituição que atua no Pantanal. Veja a seguir.

A pedido do Departamento da Polícia Federal, do Ministério da Justiça, o cartunista criou um cartaz muito bacana contra o tráfico internacional de animais silvestres, problema que só cresce no Brasil e no mundo.

Ziraldo deixa legado de amor à cultura e em defesa dos direitos humanos e da natureza

Em 2008, a pedido do governo federal (2º mandato de Lula), criou ilustrações para cartilhas elaboradas para as crianças sobre Direitos Humanos (para elas). 

Ziraldo deixa legado de amor à cultura e em defesa dos direitos humanos e da natureza
Ziraldo deixa legado de amor à cultura e em defesa dos direitos humanos e da natureza

No mesmo ano, Ziraldo ilustrou cartilha sobre Trabalho Infantil para o Ministério do Trabalho. Em 2009, a pedido do Ministério da Agricultura desenhou para ensinar o consumidor a identificar alimentos orgânicos, veja só! Algo inimaginável no ministério atual, mesmo com o presidente Lula. Três anos depois, mais um trabalho didático, desta vez sobre Saúde na Escola, desenvolvida pelos Ministérios da Educação e da Saúde.

Em 19 de novembro de 2014, quando o Instituto Arara Azul, localizado no Pantanal do Mato Grosso do Sul, completou 25 anos de atividades, lançou a campanha Adote um Ninho, que consiste no apadrinhamento de ninhos naturais e artificiais, por meio de doação.

A iniciativa também visa fortalecer o projeto do instituto criado pela conservacionista Neiva Guedes. Hoje, ao todo, há 713 ninhos, sendo 425 naturais e 288 artificiais.

Ziraldo foi um dos primeiros apoiadores dessa campanha e ainda criou um desenho exclusivo para ilustrar as camisetas ‘Eu Adotei’ entregues aos padrinhos. 

Repercussão

A morte de Ziraldo causou comoção nas redes sociais no fim de semana e muitas personalidades se manifestaram. Selecionamos apenas cinco declarações das tantas que lemos. 

O presidente Lula declarou que Ziraldo foi um dos maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país.

“O Menino Maluquinho, seu personagem mais conhecido, povoou mentes e a imaginação de crianças de todas as idades em todas as regiões. Um livro que virou filme, peças, pautou músicas e vem sendo passado de pais para filhos como sinônimo de inocência, curiosidade e beleza, além de um olhar esperançoso em relação aos imensos potenciais do mundo em que vivemos”. 

Para o desenhista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, a morte do cartunista é uma perda pessoal e para o país. “Que tristeza! Não tenho palavras. Perdi mais que um grande amigo. Perdi um irmão. Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre aqui em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos, de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!”.

Homenagem da Turma da Mônica ao Ziraldo
Ilustração: divulgação

Margareth Menezes, ministra da Cultura, destacou que o cartunista foi uma inspiração. “Uma perda irreparável. Ziraldo foi muito mais que um autor. Foi uma fonte de inspiração que trouxe o verdadeiro espírito da cultura brasileira para o mundo dos quadrinhos. Lembro-me com carinho do tempo em que participei de uma montagem baiana da peça ‘O Menino Maluquinho’, onde tive a honra de trabalhar na equipe, comandando a luz e musicando um poema do livro. Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Obrigada por tudo, Ziraldo! Sua partida deixa um vazio imenso”. 

Em seu Instagram, o cantor e compositor Milton Nascimento se despediu do amigo em seu Instagram com uma foto antiga dos dois e escreveu: “Muito triste com a partida do querido Ziraldo. Descanse em paz, nosso eterno ‘Menino Maluquinho’”. 

Já o deputado estadual Eduardo Suplicy contou que, em 2010, sugeriu ao Ziraldo que criasse uma cartilha didática em que o Menino Maluquinho explicasse o que é a Renda Básica de Cidadania, seu projeto de vida.

“Eis que ele, com a maior boa vontade, de forma voluntária e entusiástica produziu uma formidável cartilha – Uma História Feliz -, que solicitei fosse impressa pelo Senado Federal em junho daquele ano, em português, espanhol e inglês”.

E continua: “​A cartilha teve enorme sucesso. Tanto entre senadores e deputados federais, quanto com crianças, estudantes e com o público em geral. Nos lugares onde eu fazia palestras, nas escolas, faculdades, universidades, todas as pessoas elogiaram a forma que a cartilha explica como a Renda Básica vai prover uma transformação significativa na qualidade de vida de todas as pessoas, sobretudo por promover maior dignidade e liberdade. Agradeço imensamente ao Ziraldo por sua colaboração e parceria”.

Indígenas com a cartilha sobre a Renda Básica de Cidadania, de Suplicy, criada pelo cartunista e escritor Ziraldo
Foto: reprodução do Instagram

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Foto (destaque): divulgacão

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